Um olhar integral sobre os sistemas
Duas teorias têm um papel fundamental neste início de século XXI e provavelmente o manterão por um bom período. Mas, como teorias relativamente recentes e complexas, é comum que não sejam profundamente conhecidas. Mais que isso, é comum que quem conheça uma e nem tanto a outra, confunda seus fundamentos e pense que são quase equivalentes, quando são fundamentalmente diferentes. Esse texto pretende contribuir para uma distinção e conciliação entre a Teoria (Geral) dos Sistemas e a Teoria Integral, reforçando seus posicionamentos na mudança de paradigma epistemológico que vivemos atualmente.

A Teoria dos Sistema foi apresentada formalmente por volta de 1950 pelo biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy, embora seus estudos sobre ela tenham iniciado na década de 1930. Nasceu no contexto da Biologia, mas sua aplicação rapidamente foi encampada por uma série de outras áreas. E produz até hoje muitos bons frutos.
A Teoria Integral foi apresentada de forma estruturada em 1995 pelo filósofo norte americano Ken Wilber, tendo seus estudos iniciados por volta de 1970. É uma teoria relativamente mais nova e ainda menos difundida e compreendida, mas que já mostra seu potencial para produzir resultados.
São teorias diferentes pela época de formulação e pela proposição de intenções de cada uma. A Teoria dos Sistemas nasceu em ambiente científico e progrediu nele. Já a Teoria Integral tem conciliado uma abordagem filosófica às abordagens científicas, primando pela racionalidade e estruturação lógica.
A Teoria dos Sistemas foca inicialmente os sistemas naturais concretos e observáveis diretamente (biologia, física, química e seus derivados). A Teoria Integral já nasce para compreender o mundo complexo, que a própria ciência revelou até o fim século XX. Ela reúne numa única abordagem, racional e estruturada, todo o conhecimento produzido pelo homem.
A Teoria Integral é tratada como metateoria. Afinal, toda a nossa ciência, antes de ser rigorosamente metodificada, nasceu de abordagens filosóficas. A teoria Integral é, uma proposta de expansão da nossa compreensão da realidade, não apenas pelo empirismo.
Os sistemas são definidos por Bertalanffy como “um complexo de elementos em interação mútua”. A decomposição da realidade em múltiplas partes promovida pela física e química até aquela época, era incompatível com os estudos sobre os organismos vivos, que exigiam uma abordagem que não os fragmentasse. A Teoria dos Sistemas foi uma espécie de recomposição, mas que mantinha o rigor do método empírico científico (o que era praticamente uma exigência do pensamento acadêmico à época).
A Teoria Integral enfrentava, ao final do século XX, o desafio da fragmentação do conhecimento, sobretudo como causa da crise de sentido que assola a sociedade (visão reforçada por outros pensadores e facilmente constatável no dia a dia das pessoas). Wilber propôs um modelo de análise da realidade que incluísse não apenas as proposições científica como também os conteúdos de natureza mais abstrata e até espiritual, muito comum no conhecimento milenar oriental. Em sua ótica, não há sentido em abandonar milênios de conhecimento humano apenas porque não atende a um critério metodológico específico e limitado (o científico).
A possibilidade de reunir o conhecimento científico com questões não empíricas é uma proposta que afronta o posicionalmente intelectual científico vigente desde a virada do século XIX para o XX. Para compreender a profundidade desta distinção, é preciso retroceder ao início do século XX.
O movimento do Círculo de Viena (décadas de 1920 e 1930), predominantemente austríaco, inaugurou um período em que se relegava questões do pensamento que não eram empiricamente observáveis e analisáveis a um status secundário. Metafísica, moral, espiritualidade, estética e o próprio sentido da vida, como exemplos, deixaram de ser questões fundamentais para o conhecimento humano. Esse posicionamento é referido historicamente como Positivismo Lógico ou Empirismo Lógico. A Filosofia, tradicional mãe da ciência, foi subordina a ela. E a ciência hegemonicamente o palco da produção intelectual. Esse Materialismo Científico produziu muito avanço, embora tenha retardado outros tantos em áreas que hoje são visivelmente fragilidades do conhecimento humano.
Outro detalhe histórico é que a dominação nazista forçou a dissolução do Círculo de Viena e a fuga dos pensadores. Isso e a demanda por evolução tecnológica no período da guerra e pós-guerra complementam a explicação para o domínio da perspectiva positivista lógica ou materialista científica no mundo até hoje. Passadas três ou quatro gerações, não surpreende a dificuldade da aceitação de pensamentos diferentes, mesmo que agregadores.
Gosto de pensar nisso como uma espécie de revolta do filho adolescente que se torna um jovem adulto, afinal o método empírico, que fundamenta o que se classifica como ciência, tinha à época alguns poucos séculos de vida estruturada, enquanto a filosofia já acumulava milênios (o que não mudou até hoje). Penso, inclusive, que a Teoria Integral é o sermão de um amigo que abre os olhos do empirismo para uma maturidade, uma vida realmente adulta, apesar da relutância. A Teoria dos Sistema foi o aviso do parente que o Positivismo Lógico insiste em não ouvir direito. Estamos hoje exatamente no olho do furação, uma transformação na estrutura de valores do pensamento científico, 100 anos após o Círculo de Viena. Aliás, processo previsível e compreensível pela abordagem integral.
Retornando à abordagem sistêmica, é de se esperar que seja abarcada pela Teoria Integral. E de fato é, apesar da resistência a uma conciliação entre elas. Não é de se esperar que o retorno do filho pródigo seja um capítulo de amor, mas sim um de tensão natural da reconciliação após muito tempo de cisão de valores.
Para compreender a conciliação entre ambas as teorias, é preciso focar numa questão fundamental para a filosofia que o empirismo limitou a questões materialistas: os irredutíveis.
Um irredutível é algo que não pode ser reduzido a outras coisas. Para a física e a química, por exemplo, por muito tempo o átomo foi um irredutível que procurado intensamente, como aprendemos no ensino fundamental através dos modelos apresentados historicamente. Mas, já foi decomposto e a busca pelos irredutíveis permanece viva.
Na filosofia, um irredutível não tem essa necessidade de materialização. Mas uma coisa é clara, o irredutível depende da formulação que se faz. Uma sensação produzida pelos sentidos humanos pode ser considerada um irredutível numa teoria sobre a construção de conhecimento, por exemplo. Aristóteles chamava de substância àquilo que não poderia ser reduzido a outras coisas. Kant, classificou o tempo como irredutível para o homem (não confundir o conceito de tempo com as formas de mensurá-lo). Enfim, cada construção teórica precisa definir seus irredutíveis, até que consigamos encontrar algum que sirva a todos, se for possível.
Um irredutível na Teoria dos Sistemas de Bertalanffy (mesmo que ele não explorasse essa ideia) é a relação que existe entre as partes, pois sem ela, não há sistema. Ou seja, essa relação é constitutiva do sistema e não pode ser reduzida a outras categorias. Se duas partes de um sistema possuem relação X, qualquer relação diferente descaracteriza o sistema, podendo se transformar em outro sistema com uma relação de partes diferente. Lembremos que Bertalanffy, como biólogo, tinha o desafio de considerar a vida, pois estudava organismos vivos. Considerava a vida como uma propriedade que emergia da relação entre as moléculas. Separadas as moléculas, a vida cessaria e o sistema deixaria de existir.
Para a Teoria Integral, os irredutíveis são outros e mais complexos. A existência das coisas se manifesta nos quadrantes do mapa AQAL. Tudo o que existe deve ser apreciado através dos quatro quadrantes. Assim, por exemplo, um sentimento possui sua dimensão interna subjetiva na consciência; mas pode ser analisada por impulsos elétricos ou reações químicas no cérebro, sendo matéria e energia; nasce de uma interpretação cultural (coletiva) sobre algo. Para a Teoria Integral, essas quatro dimensões da existência são irredutíveis, no sentido de que não podem ser suprimidas ou substituídas. No exemplo, o que ocorre do cérebro é o correspondente físico, mas não se confunde com o que ocorre na psiquê, nem com a representatividade cultural do fenômeno.
Antes que se argumente que essas correspondências entre os quadrantes podem ser as relações consideradas na abordagem sistêmica (mesmo nas formulações mais evoluídas dela) e que o que ocorre em cada dimensão da Teoria Integral são partes do sistema (o sentimento, no exemplo), é preciso lembrar que o fenômeno é um só e suas manifestações em cada quadrante são perspectivas a serem consideradas para sua integralidade. Não são, portanto, partes distintas, mas dimensões constituintes do mesmo fenômeno.
Pela ótica integral, não se pode traduzir a interioridade do “eu” ou a intersubjetividade do “nós” em partes de um sistema, o que reduziria a experiência humana a um fluxo de informações ou eventos, retirando-lhe sua completude inexorável. Wilber chama isso de Reducionismo Sutil, pois substitui os status ontológicos próprios e irredutíveis por conjuntos de manifestações superficiais.
Resumindo: os irredutíveis na Teoria Integral são as perspectivas da existência das coisas (Eu, Nós, Isto, Istos – os quadrantes) construídas com base nas dimensões que compõem o mapa AQAL (Interno, Externo, Individual e Coletivo). É, sem dúvida, mais abrangente e mais complexo. Não desconstrói as relações da abordagem sistêmica, mas amplia as perspectivas sobre os fenômenos para compreendê-los integralmente. As relações sistêmicas, inclusive, devem também ser apreciadas pelas perspectivas integrais, mas elas não esgotam as possibilidades de conhecimento sobre o sistema.
Mas reforcemos a explicação da Teoria Integral.
Wilber incorpora à Teoria Integral o conceito de hólon, pinçado na produção intelectual do filósofo húngaro-britânico Arthur Koestler, mais especificamente em um livro de 1967, para termos uma referência temporal. Um hólon é algo que é, ao mesmo tempo, um todo e uma parte. Exemplos: 1- os átomos que compõem moléculas, que compõem células, que compõem órgãos, que compõem organismos e 2- as sensações, que compõem percepções, que compõem entendimentos, que compõem compreensões, que compõem teorias, que compõem conhecimentos.
Para a Teoria Integral tudo no mundo são hólons, sendo totalidades em si, mas compondo totalidades maiores. Ideia simpática também à abordagem sistêmica. E isso se aplica, por exemplo, ao mundo material (átomo), mental (ideia) e cultural (palavra). Mas o pulo do gato está um passo adiante.
Todo hólon possui quatro forças: a preservação, autonomia ou agência; a adaptação ou comunhão; a auto-transcendência ou evolução e a auto-dissolução ou involução. Uma célula precisa se preservar para se manter viva; os átomos precisam se adaptar a outros para formar moléculas; ideias se unem para gerar teorias; uma molécula pode se desfazer e liberar átomos para compor outro hólon.
Não se pretende aqui construir uma visão completa sobre a Holarquia, a estrutura infinita de organização dos hólons. Mas é preciso perceber que a Teoria dos Sistemas dá ênfase a força da comunhão ou adaptação dos hólons, mesmo que considere a autonomia das partes e eventualmente as demais forças. Ela se concentra nas relações, fluxos de informações ou de energia etc. Explora o lado sistêmico dos hólons.
Queremos mostrar que, apesar das dificuldades de relacionamento, a Teoria dos Sistemas e a Teoria Integral convivem, mas não são equivalentes. Cronologicamente a Teoria dos Sistemas é parente ascendente da Teoria Integral, mas esta aborda questões diferentes porque tem irredutíveis mais abrangentes.
A abordagem sistêmica tem um papel fundamental no rompimento com a tradição fragmentadora do conhecimento, pois deu um xeque no jogo do Positivismo Lógico. A Teoria Integral, reforçando o jogo, pretende ser o xeque-mate contra o Materialismo Científico, mas a jogada está ainda se configurando.





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