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Todos querem mudar a cultura, mas será que sabem o que ela é?

Tenho trabalhado, em conjunto com outros autores, num livro sobre humanização de culturas corporativas. As pesquisas impõem a abordagem da cultura a partir de diversos autores. Como se pode imaginar, a diversidade de abordagens é grande e não são incoerentes ou contraditórias. Pelo contrário, muitas são bastante complementares.


Resolvi tentar sintetizar uma definição para cultura que pudesse ser mais geral. Obviamente, isso pressupõe que os termos utilizados se desdobrem em significados precisos e mais abrangentes. Esse desdobramento, quando conduzido com rigor, expõe a complexidade do termo e a dificuldade de trabalhar com ele.


Em geral usamos o termo “cultura” de forma coloquial, mas isso é reducionista e até perigoso quando queremos abordá-la de forma mais cirúrgica.


A seguir, exponho o que consegui sintetizar e os desdobramentos pertinentes a partir da definição geral. Comecemos por ela:

 

Cultura é o fenômeno sistêmico sistematizador que emerge das relações intersubjetivas continuadas de um grupo e que lhe atribui identidade dinâmica e peculiar. (Renê Ruggeri)

 

A aparente repetição de ideia em “sistêmico sistematizador” talvez chame a atenção. Chegaremos a ela, mas, antes, é preciso focar em “fenômeno”.

Dizer que a cultura é um fenômeno a coloca na categoria das coisas observáveis. Realmente, é possível perceber a cultura em um grupo observando o que acontece na sua dinâmica. É importante ressaltar que, filosoficamente, esta observação não é restrita à visualização, ao sentido da visão. Todos os demais sentidos são mediadores da percepção humana e, portanto, servem aos mecanismos de observação. Assim, a observação da cultura refere-se à tomar consciência dela por alguma forma de percepção. Isso não exige que suas manifestações sejam concretas, pois a conscientização sobre as manifestações culturais pode vir de forma abstrata. Veja que só este termo, “fenômeno”, já carrega uma boa dose de complexidade.


Chegamos ao “sistêmico sistematizador”, uma forma de expressão inspirada em Pierre Bourdieu (ele usou a expressão “estrutura estruturante”). Essa expressão tem por finalidade explicitar o fato de a cultura ser construída, mas também ser construtora. Ou seja, ela decorre dos indivíduos, mas os condiciona. A noção de sistema, inclusa na expressão, traz um viés fundamental, pois indica que a cultura é multifacetada, composta por inúmeros elementos, mas não pode ser reduzida a nenhum deles. Esta é a característica do sistema, ele é o conjunto e não pode ser reduzido à mera justaposição das partes.


A cultura “emerge das relações”, ou seja, se não há relacionamentos, não há como a cultura emergir. Por outro lado, se já relações, há chance de aparecerem manifestações culturais no grupo que se relaciona.


Mas repare que as relações precisam ser “continuadas”. A cultura tem um aspecto histórico. Ela não emerge de um evento isolado, mas de um movimento histórico, ou seja, que perdura consistentemente no tempo.


Essas relações, movimentos, percepções etc. vão se consolidando de forma que a cultura “atribui identidade” ao grupo. Isso é um entendimento crítico sobre a cultura: seu papel identitário. É esse aspecto que permite ao indivíduo noções como pertencimento e apoia a construção da própria identidade individual. Aqui está uma conexão (não a única) com a tradicional ideia de que o homem é produto do meio.


A identidade é “dinâmica”, ou seja, se transforma. Ela tem a robustez necessária para se consolidar, mas também a flexibilidade para se adaptar. Sem isso, não haveria sentido em falar de evolução. As causas da transformação cultural podem ser várias, pois muitos são os elementos componentes da cultura. Mas se a cultura não se transformasse não haveria a sociedade que temos hoje; nem seus problemas, nem suas benesses.


Por fim, adotei o termo “peculiar” para explicitar que cada grupo tem um grau de diferenciação do outro. O termo diferente é muito forte, pois os grupos são, em geral, subgrupos de outros maiores e carregam entre si traços culturais similares. Logo, as diferenças podem ser sutis, mas existem. Mais que isso, o mesmo indivíduo pode pertencer a vários grupos e viver várias culturas com cada um deles. Se elas fossem totalmente diferentes, essa transição entre grupos seria quase impossível. Mas se não houvessem as peculiaridades, todos os grupos seriam iguais, ou seja, nem existiriam como grupos bem identificados (olha a identidade aí).


Esse desdobramento foi ainda superficial, poderíamos aprofundar ainda mais. Mas já explora a complexidade, sensibilidade e potencialidade do tema. É com essa fundação conceitual que, no livro, desdobramos as ferramentas práticas da governança e da psicologia evolutiva para tornar a humanização das culturas corporativas uma realidade tangível. O caminho é complexo, mas o mapa está desenhado.

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