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Ciclo de Vida e Governança: protegendo o empreendedor de suas próprias forças de caráter

Bravura, criatividade e vitalidade são exemplos de forças que impulsionam empreendedores. Mas, quando usadas além da faixa ótima, podem comprometer exatamente aquilo que ajudaram a construir.


Quem cozinha profissionalmente sabe que nem tudo dá pra acelerar. Aumentar a temperatura do forno pode queimar o assando por fora sem assá-lo por dentro. Algumas massas têm um tempo específico de fermentação. Há uma intensidade adequada de energia a ser aplicada no processo para que ele efetive a transformação esperada e há transformações que dependem de tempo e não de energia adicional.


Fenômenos similares, pela dosagem ou pelo tempo, ocorrem em diversas áreas de naturezas distintas. Por exemplo, no desenvolvimento de equipes, na construção civil, no desenvolvimento físico-muscular.


Assim é com os projetos na maior parte das vezes. Sempre há transformações planejadas que depende de esforço na medida certa ou de prazos naturalmente necessários. A palavra naturalmente foi usada na sua acepção mais exata, pois não se muda a natureza das coisas. Gerenciar um projeto exige respeito a esses limites e naturezas. Afrontar estas restrições tem um preço que pode variar de um aumento no risco a uma catástrofe, sendo o insucesso uma consequência intermediária muito provável.


Como prevenir que seu projeto ou empreendimento não seja mais uma vítima dessas negligências? Simples: sendo profissional na gestão! Ser profissional, neste aspecto, significa conhecer os mecanismos das transformações, respeitar os prazos e energias adequadas. Ou seja, gerenciar com conhecimento técnico, ciente de que ponderação e paciência são tão importantes quanto vitalidade e celeridade.


É frequente que bons empreendedores tenham claramente forças de caráter como bravura, vitalidade e criatividade. Como forças de assinatura, elas os energizam, são espontâneas e essenciais. Por isso, é tão difícil para essas pessoas abrir mão do seu uso. Mas todas as forças possuem extremos prejudiciais pela falta (subuso), ou pelo excesso (superuso), bem como uma faixa de uso ótimo. E são as demais forças que ajudam equilibrá-las, como a prudência, o critério, a imparcialidade, o autocontrole e a perspectiva.


Mas há artifícios externos que podem ser usados para orientar essas tendências comportamentais e proteger os projetos e empreendimentos dos próprios empreendedores. Um muito importante é o Ciclo de Vida, conceito fundamental da gestão de projetos, muitas vezes mal compreendido e até mal-visto, por tentar regular essas tendências comportamentais arriscadas das pessoas. O Ciclo de Vida de um projeto, quando bem estruturado, introduz oportunidades estruturais que favorecem o equilíbrio no uso das forças que podem colocar em risco os resultados pretendidos.


Todo Ciclo de Vida define fases e etapas para um projeto ou empreendimento. As fases devem identificar e caracterizar eixos de trabalho com propriedades operacionais diferentes entre si. Ou seja, identificam subprocessos que têm características diferentes dos demais, exigindo cuidados específicos em algum aspecto (técnico, gerencial, psicossocial etc.). As etapas, por definição, são sempre concatenadas no tempo e, por isso, fortemente impactadas pelos prazos naturais dos processos que incluem.


A boa caracterização das fases orienta a modulação dos esforços, da energia imposta ao processo, ciente da natureza dos processos de transformação em andamento. Tecnicamente, a caracterização correta da fase define as formas adequadas de conduzi-la com base nos fenômenos em andamento nela, pois são eles que as caracterizam.


Para tornar essa percepção mais prática, pense que estes fenômenos podem ser de natureza técnica, administrativa, psicossocial etc. Pode-se admitir que a variedade de fenômenos envolvidos acompanha a complexidade do projeto, mas não é necessariamente diretamente proporcional a ela. Cada caso exige análise apurada da realidade que o contextualiza.


A boa estruturação das etapas exige a percepção do bom compasso de andamento do projeto, pois elas definem pontos importantes de verificação. As etapas marcam a evolução do projeto e, entre elas, os momentos propícios para verificações, aprendizado, revisões de decisões, ajustes de direcionamento técnico ou gerencial etc. Como numa música, as transições de etapas são como pausas nas quais se pode rapidamente respirar, analisar e decidir, sem que haja excesso de tarefas concorrentes por atenção. As transições de etapas fazem parte do projeto como as pausas fazem parte das músicas. O ritmo adequado e até a harmonia dependem delas.


O ciclo de vida estabelece, então, diretrizes para condução do projeto, através da caracterização das fases e o compasso para seu andamento com importantes pontos de verificação e ajuste, através das etapas.


Fases diferentes exigem estratégias de condução próprias que diferenciam entre si pela qualificação e quantificação das equipes, artefatos gerenciais, tecnologia demandada, ajustes culturais e comportamentais das equipes. Se não há demandas para ajustar a forma de conduzir um projeto, provavelmente não há fases distintas. Mas para identificar estas demandas, é preciso conhecer a fundo e tecnicamente os processos em andamento. O desequilíbrio no uso das forças de caráter na condução dos projetos pode induzir o desajuste comportamental que negligencia esta consideração multidisciplinar. Há uma infinidade de formas adequadas de conduzir projetos, mas todas elas equilibram comportamentos e forças. É crítico que se saiba identificar essa faixa de operação ótima, evitando os riscos e seus impactos devastadores.


Etapas definem não apenas os períodos de atividade intensa, mas os momentos entre elas, fundamentais para analisar o projeto ou empreendimento em busca do equilíbrio que garante o bom andamento. Em geral, uma etapa culmina em entregas que alteram o contexto do projeto, inaugurando um novo contexto em que as entregas subsequentes serão realizadas. Trata-se da evolução das transformações da realidade produzidas pelo próprio projeto. Podem não definir novas fases (diferenças de natureza), mas definem novos estágios da realidade (diferenças de contexto). Respeitar as etapas é reduzir a complexidade, pois conhecer o contexto reduz a incerteza e o risco. Isso é crítico para manter o controle da operação e evitar eventos caóticos, os famosos incêndios.


Ora, manter o controle do projeto na sua condução é basicamente ter a governabilidade dele. Assim, o Ciclo de Vida é um pilar importante para estruturação da própria governança do projeto ou empreendimento que garantirá a governabilidade. E aqui se instala o desafio do empreendedor: equilibrar sua bravura, vitalidade e criatividade (ou outras tendências de superuso) com governança. A vontade de fazer acontecer “a qualquer custo” pode surpreender com a magnitude deste custo.


Usamos três forças de caráter comuns e identificáveis no comportamento de empreendedores para exemplificar a necessidade de um conjunto de forças mais completo na boa condução de um projeto. Isso evidencia que a melhor qualidade de um empreendedor não é evidenciar suas forças de caráter, mas estruturar a gestão para obter sinergia nas diferentes forças de caráter da equipe. Sua participação é um importante gatilho para empreender, mas um bom resultado depende não apenas do gatilho, mas de todo o mecanismo e sua técnica de uso que faz com que o tiro acerte o alvo pretendido.


Essa melhor técnica de uso, no caso da condução de trabalhos de uma equipe, está associada à criação das condições para que as forças de assinatura dos membros se expressem na região de desempenho ótimo. É difícil, mas não é impossível. As faixas de uso ótimo, em geral, permitirão achar o tom da melhor harmonização. Não é à toa que o gestor é frequentemente comparado a um maestro.


Em outras palavras, governar um projeto não significa apenas controlar recursos, prazos e custos. Significa também criar condições para que as pessoas expressem suas forças de caráter na intensidade adequada às demandas de cada fase ou etapa do empreendimento.


Há quem atire por diversão e quem atire profissionalmente. Mas em qualquer caso, é fundamental lembrar que os projetos e empreendimentos geram consequências para todos os envolvidos. Ninguém quer ser responsável pelo tiro que destrói vidas, por isso é tão importante respeitar os limites entre o subuso e o superuso, buscando a sinergia das forças. Isso só é possível com times bem estruturados em termos técnicos e humanos e com uma condução consciente de si e da equipe, focada nos resultados.

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