Transformação Cultural: um problema de Gestão ou de Ciências Sociais?
- Renê Ruggeri

- há 3 dias
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Numa rápida conversa num grupo de discussões, ao comentar que transformação da cultura organizacional seria tema da Sociologia, um colega emendou: “também a Antropologia”. Vale uma reflexão, pois, embora vizinhas, os métodos de estudo de ambas as áreas são diferentes.
Tentemos entender a sutil diferença entre elas. Mas antes, deixemos claro que a abordagem da transformação da cultura organizacional pelo viés da Gestão das Mudanças me parece extremamente frágil e incompleto, não podendo lograr êxito. A cultura é um fenômeno que transcende as mudanças organizacionais, embora suas transformações nasçam inevitavelmente de uma mudança. Mas, voltemos ao foco.
Primeiro precisamos entender que Antropologia e Sociologia são subáreas das Ciências Sociais. Irmãs que dificilmente se separam. Partilham, ainda a linhagem com as Ciências Políticas, que deixaremos de fora nessa análise.
A Antropologia consolidou-se dos encontros dos navegadores exploradores de séculos atrás que, passaram a descrever os povos que encontravam. Posteriormente, as comparações entre estes povos e os próprios europeus (os exploradores) foram inevitáveis. O interesse pelos aspectos hereditários, ritualísticos, religiosos etc. geraram abordagens específicas. Das comparações, ideias sobre estágios evolutivos brotaram. Assim, a Antropologia é a ciência que estuda o homem e a humanidade com esse intuito de compreender a formação dos diversos povos e suas culturas.
A Sociologia nasceu, talvez um pouco mais tarde, até por influência da própria Antropologia, com foco na compreensão do funcionamento dos grupos sociais. O objetivo da Sociologia não é o homem em si, mas ele como componente de coletivos sociais, ou seja, coletivos que se relacionam. A ideia é de que, se há um coletivo, há padrões estruturantes de funcionamento, mesmo que se mostrem com roupagem diferente entre grupos.
A Antropologia tem o ponto central da atenção e da argumentação nos significados e valores ritualísticos e de identidade. Já a Sociologia, analisa os processos e estruturas que conformam o movimento do coletivo. Ambas acabam por abordar coletivos. A Antropologia, pelo viés interpretativo do que identifica o coletivo tanto para seus membros quanto para quem está fora. A Sociologia, pelo viés do que mantem o coletivo em constante relacionamento e movimento, interna e externamente, buscando compreender o que regula seu funcionamento.
Levando essas ideias para o ambiente corporativo (um coletivo por excelência), devemos, já de cara, constatar que não são coletivos que compartilham traços de hereditariedade como etnias originais (sobretudo após a globalização). Mas isso não significa que não construam traços de identidade, rituais, símbolos etc. Aliás, alguns elementos significativos são fortemente cultuados em muitas organizações. Por outro lado, os membros deste coletivo têm entre si estabelecidas relações sociais, econômicas, de poder etc. Mais que isso, são abertos a relações com outros coletivos similares (outras empresas), o que tornaria, neste aspecto, o ferramental sociológico mais promissor.
Logo, parece-me que as abordagens da transformação das culturas organizacionais são mais efetivas, no sentido de compreendê-las, ou mesmo influenciá-las deliberadamente, se considerarem aspectos sociológicos e antropológicos. Afinal, a cultura se consolida num processo que envolve tanto as relações e estruturas sociais, quanto elementos identitários como símbolos, narrativas, rituais, etc.
Concluímos assim, uma curiosidade, para reforçar a perspectiva que julgamos mais adequada para abordar as questões das culturas organizacionais. A Gestão das Mudanças resta com um papel mais operacional do que compreensivo em relação à transformação cultural. Aos poucos, percebemos que a abertura das fronteiras das organizações (sistemas altamente abertos) gera necessidade de conhecimentos pouco usuais nesse território.




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