“Não existe a realização do eu”
- Renê Ruggeri

- há 7 dias
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É isso mesmo! Essa foi uma das frases conclusivas da palestra de Clare Graves, em 1978, ao expor a consolidação de seus mais de 15 anos de pesquisa sobre a evolução humana. Segundo ele próprio, a denominação adequada para seu trabalho seria algo um tanto complexo:
“Eu a denomino como a concepção do comportamento humano adulto baseada em níveis de existência de dupla hélice, emergente-cíclica e fenomenológico-existencial. E sinto muito por ter de chamá-la assim, mas é porque ela é tudo isso.”
Fica claro porque Don Beck e Chris Cowan, ao estruturarem de forma mais ‘amigável’ a teoria, a chamaram pelo nome mais mercadológico de Dinâmica da Espiral.
Trata-se de uma teoria excepcional para compreender a evolução humana de forma poderosa, apesar da complexidade do fenômeno. Graves foi contemporâneo de Maslow, este, sim, bem conhecido popularmente. A formulação de Graves, apesar de mais complexa, possui maior alcance, fruto de um rigor e perfeccionismo que nos brindou com um conhecimento profundo sobre o desenvolvimento humano.
Suas aplicações extrapolam a especulação acadêmica e fornecem abordagens estruturadas para corporações e gestores. Mas ela exige mais capacidade de compreensão; algo viável, porém acima do que tem sido requerido regularmente. Podemos dividir essa profundidade em alguns níveis de complexidade:
O primeiro nível envolve a interação entre dois eixos: as condições de vida e as capacidades mentais do indivíduo. Segundo Graves, essa interação atinge o nível neurofisiológico; não falamos apenas de psicologia, mas de sistemas e estruturas cerebrais ativados bioquimicamente.
O segundo nível refere-se aos sete níveis de desenvolvimento. Eles são hierarquizados, mas não excludentes: o indivíduo avança acumulando recursos mentais. Não há substituição de capacidades, mas uma ampliação do espaço conceitual para resolver problemas.
O terceiro nível trata da natureza dos sistemas de valores. Não é algo determinístico, mas uma forma de encarar a vida que difere totalmente do nível anterior. Graves refere-se a sistemas biopsicossociais que podem explicar, inclusive, a dificuldade atual das pessoas em lidarem com conceitos abstratos.
O quarto nível refere-se à ciclicidade prevista. A estrutura de níveis se repete: o sétimo nível é, na realidade, o primeiro de um novo ciclo que se inicia.
A "pérola" dessa complexidade reside no fato de que o sétimo nível apresenta uma mudança bem mais radical em relação às transições anteriores. Embora existam poucas manifestações concretas desse estágio, os argumentos de Graves são consistentes: o ser humano está em constante evolução e, ao aproximar-se desse nível mais alto, entra em uma mutação que o caracteriza quase como uma nova espécie.
Conclusão natural: a realização do eu que vislumbramos no último nível do primeiro ciclo é, na realidade, o nascimento de um eu completamente diferente no ciclo seguinte. Um eu transformado por processos biológicos e psicológicos profundos, com reflexos sociológicos significativos.
Pode parecer assustador, mas diante dos problemas que enfrentamos atualmente como humanidade, essa capacidade de "saltar" para novos sistemas de pensamento é, em verdade, uma esperança acalentadora.
Evoluamos, então!




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