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A Sociedade do Engodo: Como perdemos o senso de coletividade pelo caminho?

Temos basicamente três grandes períodos na história da formação educacional e cultural: os pensadores antigos (pré-cristianismo), a idade medieval (consolidação do cristianismo), a modernidade (instituição a perspectiva científica). Poderíamos pensar num quarto período, a contemporaneidade, mas aparentemente temos uma transformação formal, mas não fundamental em relação à modernidade. Caberia sobre esse ponto uma reflexão mais profunda, mas vou deixar assim, por ora.


Veja que há uma transição sócio-política crucial entre estas três fases. Obviamente as transições são longos períodos de transformação e não momentos.

 

Antes de Cristo


No período dos pensadores clássicos, as cidades eram Estados e o cidadãos viviam para elas. O coletivo era tão ou mais importante que o individual. O meio de produção era a guerra, sempre coletiva. Nesse ambiente, parece ser mais natural o apreço pela ética, que é um fenômeno coletivo e que sustentava as relações na polis (cidade estado).

 

Ascenção da Igreja


A queda do império romano foi acompanhada pela ascensão da igreja cristã que, não à toa, era uma instituição política surgida para suprimir as desavenças oriunda da miscigenação de povos politeístas (efeito da expansão do império romano). É como se a igreja passasse a representar um único estado, mas neste caso com uma aparência mais cultural do que política. Essa unificação, mesmo enfrentando conflitos, pois dividia o poder com a política de monarcas, criou a percepção de que o mundo (na ótica sociopolítica) poderia ser um só. Apesar da forma dogmática (imposta externamente e não desenvolvida internamente nas pessoas), a ética ainda era base da formação, pois a cultura ainda era coletivista (apesar da separação abissal de coletivos sociais bem definidos). Entre as pessoas (o povo), o individualismo se mostrava aos poucos, forçado pela luta pela sobrevivência minimamente digna, à medida que o meio de produção vigente se mostrava incapaz de sustentar a sociedade.

 

Modernidade


Veio o modernismo e a cultura científica começou rompendo o dogmatismo da igreja. Também nesta seara veio a quebra interna na igreja, a Reforma, com a separação de múltiplas religiões cristãs. Lutero antecede Galileo em cerca de 100 anos e a sequência Galileo-Descartes e Cia. garante outros 100 anos de influência do pensamento científico. Enfraqueceu a igreja por dentro e a quebrou com um golpe vindo de fora.


O princípio ideológico subjacente a esses movimentos religiosos e ao pensamento científico se consolida baseado na separação em “tantas partes quantas necessárias para resolver o problema” (a ideia é de Descartes, mas ajustei as palavras).


O iluminismo reforçou essa separação no aspecto sociopolítico ao elevar a liberdade individual ao topo das preocupações. Instaurou-se o pensamento individualista, mesmo reconhecendo a necessidade de organização sociopolítica (os contratualistas são dessa época).

 

Contemporaneidade


Chegamos ao nosso período, pós-revolução industrial, em que o meio de produção é a fabricação/industrialização do que é necessário à vida. O iluminismo deu voz às classes largamente separadas na idade média, e elas passaram a “gritar”. Pensadores se debruçaram sobre estas questões e a imprensa difundiu suas ideias antes mesmo de chegarem a um acordo (se é que há tal possibilidade).


Todo mundo possou a expressar qualquer opinião, já que isso trazia cada vez menos responsabilidade, pois foi se tornando comum. Formamos assim as gerações mais recentes, descompromissadas com a responsabilidade pelo equilíbrio sociopolítico.


Herdamos a liberdade de expressão iluminista, mas descartamos o esforço da responsabilidade sociopolítica. O resultado? Um discurso que não necessariamente corresponde à ação. Uma narrativa desconexa do ensinamento, informação desconexa de formação.


Paradoxalmente continuamos pregando que a liberdade carrega consigo responsabilidades. Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço, esse é o conjunto da obra. Mas o ensinamento vem pelo exemplo (o que faço), a parte da obra que qualquer criança capta subliminarmente.


Só para dramatizar, lembremos que Sócrates assumiu a pena de morrer pelo consumo de veneno (suicídio), mesmo tendo mais de uma oferta de fuga, para honrar as ideias que pregava em praça pública. Essa responsabilidade para com o coletivo, atrelando discurso e ação, é percebida como idiotice hoje em dia, mesmo que qualquer idiota na Grécia Antiga a compreendesse e valorizasse.

 

A cultura vigente


Hoje todo mundo tem voz, mas poucos têm consciência da responsabilidade atrelada a isso, porque não há mais o aspecto coletivo no fundamento da cultura. Há consciência dele como conhecimento, aprendizado, mas não como fundamento da formação.


Vale destacar que a cultura não é expressa pelo que se fala, mas pelo que se faz. O discurso é mecanismo de replicação de uma narrativa, mas não necessariamente do corpo cultural. Sem essa coerência, o discurso é um engodo e a cultura perde estrutura, se torna frágil. Não se exalte se concluir que vivemos hoje a sociedade do engodo. Quem quer falar à vontade defende essa liberdade, quem precisa manter a organização sociopolítica tenta controlar isso, como a igreja fez para manter a unidade pós queda de Roma. Paradoxalmente, o estado tenta retomar o poder que a igreja lhe tinha tomado, enquanto a igreja confronta sua queda.

 

Responsabilidade Quæ Sera Tamen


Não entendam que defendo a quebra da liberdade (na Grécia ela também existia), o que defendo é o aculturamento das responsabilidades dos indivíduos pelos coletivos, mas num novo patamar de desenvolvimento tecnológico.


A IA é uma espécie de espelho do nosso coletivo, pois reúne o conteúdo representativo do conhecimento humano (dá expressão livre ao coletivo) e disponibiliza ao indivíduo. Nessa ótica, por incrível que pareça, ela tende a ser o melhor porta voz da humanidade. Só precisamos usá-la com a responsabilidade sociopolítica que estamos, em geral, devendo uns aos outros.


O que você pensa sobre esse 'aculturamento das responsabilidades'?

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