top of page

Diferenças de pensamento ou de psiquê? O MBTI de Sócrates, Platão e Aristóteles.

Me ocupei estes dias com uma distração interessante: avaliar os tipos psicológicos (MBTI) de Sócrates, Platão e Aristóteles. A ideia não é original, há referências a isso em algumas obras. O próprio Jung, que organizou as ideias fundamentais da classificação de tipos psicológicos, mais tarde utilizadas como base para a criação do MBTI, teceu alguns comentários sobre os pensadores.

 

PLATÃO E ARISTÓTELES! Não são apenas os dois sistemas, mas também os tipos de duas naturezas humanas diferentes que, desde tempos imemoriais e sob as mais diversas aparências, se confrontam de forma mais ou menos hostil. (JUNG, 1921)

 

O MBTI (Myers-Briggs Type Indicator) classifica 16 tipos psicológicos baseados nas teorias de Jung. David Keirsey, por sua vez, agrupou os 16 tipos em 4 temperamentos e também analisou pensadores gregos.

Os três pensadores são largamente conhecidos com o que se tem de informações e estudos sobre suas obras e histórias. Muita coisa, inclusive, de conhecimento popular, tamanha a influência deles na formação das culturas ocidentais.


O MBTI trabalha 4 dicotomias que resultam em 4 letras que descrevem os tipos. Não se preocupe com o rigor dos conceitos neste texto, pois o objetivo é ilustrativo, não pretendendo a consistência teórica acadêmica. As dicotomias são:


  • Extroversão (E) e Introversão (I) – relacionadas ao uso e à forma de recarregar a energia psíquica (como se tivéssemos uma bateria que precisa recarregar).

  • Intuição (N) e Sensação (S) – relacionadas à forma de captar informações da realidade.

  • Pensamento (T) e Sentimento (F) – relacionadas à forma de processar informações e tomar decisões.

  • Julgamento (J) e Percepção (P) – relacionadas à forma como o indivíduo lida com o mundo, algo como um estilo de vida.


Devemos lembrar que especular os tipos psicológicos pós mortem não passa de um exercício, já que a verificação efetiva dependeria de o indivíduo realizar os testes adequados. Vamos ver...


Sócrates, por exemplo, é conhecido por debater sempre em praça pública, interagindo com outras pessoas. Como fazia isso regularmente, é natural que imaginemos que isso era do seu agrado. Pela intensidade intelectual e duração dos diálogos relatados, aparentemente isso era revigorante para Sócrates e não extenuante. Ou seja, ele se empolgava com a atividade e dedicava-se a ela com energia. Essa interação social é tipicamente uma característica de Extrovertidos.


Platão, por outro lado, não parecia ser tão afeito a esses debates e preferia os muros de sua academia, onde a convivência era com um grupo selecionado. Pode-se pensar, inclusive, que o convívio social lhe era desgastante, pois abdicou a linhagem política da família em favor da reflexão acadêmica. Tudo indica que fosse um Introvertido.


Aristóteles também teve sua escola e ficou conhecido, entre outras coisas, por suas longas caminhadas com os discípulos em conversas demoradas. Além disso, é conhecido sua preocupação de abordar as coisas em seu pensamento, focando no mundo externo. Temos nisso fortes indícios de extroversão social e psíquica.


Em relação à captação e manipulação de informações, os três indicam que eram intuitivos, pois abordavam, com facilidade e frequência, ideias bastante abstratas. A lado da sensação os colocaria numa perspectiva de concretude, voltada às coisas e aos sentidos.


 Sócrates, apesar das inúmeras situações práticas levantadas nos debates, as usava como pretextos ou recursos didático para focar ideias abstratas difíceis de manipular.


O mundo das ideias de Platão deixa claro sua forma de articular ideias, não deixando dúvida por sua preferência intuitiva.


Aristóteles talvez seja o mais duvidoso neste aspecto. É conhecida sua postura de trazer a filosofia ao dia a dia e situações práticas. Aqui vale mais um aprendizado: ninguém é 100% tendencioso a um dos lados da dicotomia. Por isso elas são referidas como preferência. Todos temos todas as dicotomias conosco, mas em gradações bem diferentes. Aristóteles pode ter desenvolvido bem seu lado voltado para as sensações com base na sua linhagem na medicina, que era extremamente empirista naquela época. Mas, ainda assim, por sua obra, sua natureza intuitiva aparenta ser mais forte.


Na forma de manipular informações e tomar decisões, `Sócrates e Aristóteles parecem bastante racionais. Foram criteriosos e conduziam, com sólida frieza, raciocínios extensos e difíceis. Nos diálogos de Sócrates esta característica é explícita. Na majestosa obra de Aristóteles, também.


Platão, por sua vez, mostra claro apreço pelas questões morais (valores) e pela perfeição e harmonia, fornecendo assim claros indícios de uma forma de pensar guiada pelos sentimentos. Mais uma dica importante, sentimento no MBTI não tem a ver com emoções, mas com valor atribuído como critério de escolha. Isso não impediu Platão de ser um exímio Lógico, afinal não estamos falando da capacidade de raciocinar, mas pelo critério impessoal (pensamento) ou pessoal (sentimento) na tomada de decisões.


Chegamos à última dicotomia e, por incrível que pareça, apesar de a Sócrates ser atribuído um método (a Maiêutica), dos três ele é o único perceptivo, no conceito do MBTI. A percepção está relacionada àqueles que percebe as oportunidades e alternativas do momento. Como era extrovertido intuitivo, isso se manifestava pelas diversas alternativas de raciocínio que abria nos diálogos. Viesse como viesse o tema, ele o dominava e encontrava uma saída.


Platão e Aristóteles, por outro lado, eram metódicos em estruturar seus pensamentos e teorias. Este é o sentido de julgamento no MBTI, o de conduzir as coisas com método, organização, estruturação.


Chegamos aos tipos dos três pensadores:


  • ·Sócrates era ENTP, inovador ou inventor, e propunha sempre novas formas de pensar.

  • Platão era INFJ, o conselheiro; conduziu as pessoas a reflexões fundamentais como a alma, a moral, a educação e a organização política, na intenção de conduzir os homens à luz fora da caverna.

  • Aristóteles foi ENTJ, o comandante, e não há dúvida de que conduziu o mundo, conscientemente, a estruturar seu conhecimento, suas estratégias, categorizando as ideias e conceitos e municiando as legiões de seguidores com recursos lógicos.


Keirsey, citado no início deste texto, classificou os temperamentos em 4 grandes grupos, nos quais se encaixavam os 16 tipos psicológicos. Com base nestes temperamentos, Sócrates e Aristóteles eram Racionais, enquanto Platão era Idealista.


Saber os tipos deles não faz muita diferença, mas te convido a pensar no seu.

Comentários


© Copyright  2026 por Renê Ruggeri.

bottom of page