O que todos nós queremos?
- Renê Ruggeri

- há 4 dias
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Acredito que muita gente, talvez a maioria absoluta, ao ser questionada sobre o que quer na sua vida, não hesitaria em responder: felicidade. É claro que, pegos de surpresa, muitas coisas podem vir à mente como sucesso, dinheiro, amigos etc. Mas, com alguma reflexão, facilmente se concluiria que são meios de atingir a felicidade.
Uma curiosidade merece destaque aqui: estamos nos referindo a pessoas em funcionamento típico? Por mais que se possa esboçar qualquer definição mais técnica sobre o que seria funcionamento típico, acredite que sua percepção não destoa do que pensa a maioria, ou do que pensam os teóricos e acadêmicos do assunto. A urgência de ajudar pessoas com transtornos influenciou à estruturação do conhecimento psiquico inicialmente por este seleto grupo. Mas, em geral, por mais que todos tenhamos algumas manias e sejamos diferentes, não classificamos todos os que se diferenciam de nós mesmos como atípicos.
E as pessoas querem felicidade para suas vidas, mesmo que expressem isso de formas tão diferentes.
No final do século XX, pesquisadores iniciaram um movimento para estudar o ser humano em condições mentais saudáveis. Já que havia grupos de estudiosos e profissionais dedicados a ajudar pessoas dos grupos minoritários, um esforço para potencializar as condições de vida das pessoas parecia ser um bom trabalho. Institui-se a Psicologia Positiva com este objetivo: compreender as características das pessoas típicas, o que promove o florescimento delas e como potencializar isso.
De forma mais objetiva e pela facilidade de tornar empírico (científico) o trabalho, a felicidade foi equiparada ao bem-estar, entendido de forma ampla. Ou seja, uma pessoa feliz é aquela que experimenta o bem-estar de forma generalizada em sua vida.
Mas o bem-estar envolve desafios, variações, não é um estado estático. A explicação é simples: o desenvolvimento decorre do enfrentamento de problemas. Logo, algum obstáculo à plena felicidade é o que faz da felicidade algo desejável.
Muitos pensadores, desde tempos remotos, já haviam constatado isso, ao tentarem definir felicidade. Seja pelo desejo do que não temos e nos faz feliz ao conquistarmos, mas logo deixa de ser desejado (a felicidade Eros). Seja pela realização máxima de nossa potencialidade nos dando a sensação de plena realização, o que certamente não é algo fácil (a felicidade Eudaimonia). Ou ainda, pela dedicação ao outro promovendo cada um a felicidade dos demais (a felicidade Ágape).
Não se trata de uma posição formal da Psicologia Positiva, mas veja: Eros é uma espécie de amor pelas coisas (concretas ou abstratas); Eudaimonia, amor por nós mesmos e Ágape, amor pelos outros.
Talvez não sejam três formas diferentes de amor ou de felicidade, mas dimensões sob as quais ela precise ser pensada. Traduzindo-a como bem-estar, como faz a Psicologia Positiva, talvez fique mais fácil compreender.
As coisas são necessárias à nossa vida e, portanto, desejá-las não um mal em si. Isso nos move para as conquistas e nos dão momentos de realização. Efêmeros muitas vezes, pois as coisas são usufruídas até que se tornem desnecessárias ou não mais desejadas. São momentos de bem-estar, mas não consolidam felicidade para uma vida inteira.
A realização pessoal nos dá não apenas uma perspectiva de vida, mas nossa própria identidade. A melhor resposta à pergunta “o que você quer ser quando crescer?” é: “quero ser eu, plenamente”. Para conquistar coisas é preciso saber o que se quer. Para conquistar a plenitude é preciso saber o que se é. O desafio da Eudaimonia é bem mais difícil que o do Eros. Ela pode realmente te ocupar a vida toda e ser conquistada aos poucos, de modo que você sempre tem o que desejar de você mesmo. O melhor é que, neste caso, as conquistas são cumulativas. Não perdemos o interesse no que é conquistado, pois isso seria perder o interesse num pedaço de nós mesmos.
Mas a trajetória para a plenitude individual esbarra numa questão crítica: o ser humano é, por natureza, uma espécie gregária. E as relações construídas em grupos é que nos favorecem ou não na conquista de nosso bem-estar eudaimônico. E todos devem estar em busca de sua própria plenitude. Não há alternativa a não ser nos ajudarmos mutuamente. Até mesmo para a continuidade biológica da espécie precisamos imprescindivelmente uns dos outros. Ou seja, a plena realização de um está necessariamente associada às dos outros. Aliás, algo que já havia sido detectado por pensadores há uns bons séculos.
Acontece que, com a Psicologia Positiva, essa busca pelo bem-estar, acumulando as condições de vida que nos tornam felizes, passou a ser abordada cientificamente.
Descobriu-se que uma boa parte das condições que nos fazem felizes é biológica, de origem genética. Por incrível que pareça, você nasce com a maior parte das condições para ser feliz. Falamos de uma parcela significativa das condições. Seu DNA e sua fisiologia já estão preparadas para contribuir com sua felicidade. Mas muita coisa precisa de ativação externa, caso contrário permanecerá letárgica.
Como falamos, outra parte das condições depende das circunstâncias da vida, o que, em grande parte, é definida por nossas relações com os outros e com o mundo em geral. Podemos influenciar algumas coisas, mas não temos controle de tudo. O importante aqui é que boa parte destas condições é controlada pelos outros e nós controlamos pequenas parcelas das condições deles. É preciso uma preocupação genuína com a vida dos outros, pois é a genuína preocupação deles com a nossa que nos ajudará a sermos felizes.
Por fim, há uma terceira parcela de condições para a felicidade ou bem-estar que é interna em nós. É algo como aquela máxima de que “não importa o que você recebe do mundo, mas o que você faz com o que recebe dele”. Esta é a parcela na qual trabalhamos nosso desenvolvimento interno, em busca da nossa Eudaimonia.
A Psicologia Positiva resumiu estas condições para a felicidade discriminando-as como condições para o bem-estar que podem ser expostas na forma do acrônimo, em inglês, PERMAH (admitindo o acréscimo do H, como já vem sendo bastante aceito e utilizado, ainda que não seja oficial):
P para Sentimentos Positivos (Positive Emotions)
E -para Engajamento (Engagement)
R para Relações Positivas (Positive Relationships)
M para Significado (Meaning)
A para Realização (Accomplishment)
H para Saúde (Health)
Vamos ver, de forma bem simplificada como isso se relaciona com a felicidade:
Engajamento e Relações Positivas podem ter forte associação ao Ágape, pois expressam associações com os outros.
Sentimentos Positivos e Significado alinham-se basicamente com a Eudaimonia, pois são aspectos internos da pessoa.
Realização tem boa relação do Eros, ainda que possa referenciar mais do que coisas concretas.
A Saúde do corpo sustenta a possibilidade das demais condições de felicidade, afinal o dualismo cartesiano vem sendo progressivamente questionado desde o século XX.




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