A prisão das expectativas e a liberdade de ser você mesmo
- Renê Ruggeri

- há 18 horas
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Sou um entusiasta do autoconhecimento como o grande libertador do indivíduo. E não penso assim apenas por ter estudado o tema, mas porque experimentei a transformação de compreender diversos aspectos de mim mesmo. Acredito que todos deveriam viver essa experiência o mais cedo possível. O autoconhecimento é uma jornada que apenas o indivíduo pode trilhar; por isso, não há como forçar a barra. A decisão e o comprometimento são da pessoa consigo mesma; o que fazemos é orientá-la, oferecendo um mapa para o caminho.
Existem muitas formas de acessar as características psicológicas de alguém, mas nenhuma é potente o suficiente para evidenciar, sozinha, como a natureza humana se manifesta em cada um. O ser humano é demasiadamente complexo para se deixar traduzir facilmente. Portanto, nenhuma interpretação baseada em ferramentas é completa; muitas podem ser superficiais ou simplistas.
Devemos também lembrar que o ser humano está em constante evolução, transformando suas características com o tempo e o contexto. Há aquelas mais estáveis, mas outras, nem tanto. É preciso conhecer a natureza humana para avaliar esta estabilidade.
Através de ferramentas que acessam a psique, identificamos aspectos profundos das pessoas. Compreendê-los é mais trabalhoso, porém é o pedágio necessário para a libertação do indivíduo. Esse esforço nos dá uma direção para o autodesenvolvimento e a capacidade de perceber nos outros traços mais desenvolvidos que em nós. Isso nos conduz a um novo patamar de relacionamentos e, o que é melhor, nos liberta da cobrança de termos que ser bons em tudo. Começamos a entender o valor do conjunto acima do indivíduo, percebendo nosso valor e os dos outros.
Compreender nossas características, nossas forças, nossas tendências e preferências e, por conseguinte, também o que não somos naturalmente, nos permite parar de remar contra a maré. Podemos focar naquilo a que já somos naturalmente propensos, com consistência, e nos associar com pessoas que nos complementem na busca de objetivos em todas as áreas da vida.
A potência disso está no fato de a liberdade não ser isolamento, mas a conquista do direito de sermos nós mesmos. Não é livre quem se desliga do mundo, mas quem se entende com ele.
Somos seres sociais. Nossa qualidade de vida depende dos relacionamentos que construímos. O autoconhecimento nos ajuda a reconhecer as boas conexões e a relevar fraquezas em prol das fortalezas. As dificuldades e o stress dos relacionamentos são reduzidos porque aprendemos a não esperar aquilo que a natureza das pessoas não é capaz de nos dar. Pelo contrário, apreendemos a admirar as diferenças e os antagonismos como maravilhas da diversidade humana.
A percepção de liberdade está, então, no fato de nos entendermos definitivamente como parte de um todo. Isso nos tira o peso de sermos sozinhos. A vida assume um status de ‘ser em harmonia com o todo’ e não de ‘fazer sua parte no todo’. Deixa de ser obrigação e passa a ser realização.
Uma importante lição emerge da experiência de autoconhecimento. Ela é uma jornada, às vezes árdua, difícil, mas sempre benéfica e libertadora. Do passo inicial derivam decisões que tendem a nos conduzir à autorrealização. Ajustado o caminho dessa evolução, o processo decorre mais naturalmente e as percepções de liberdade e felicidade nos acompanham com mais frequência.
O ideal não é pautar a vida no que o mundo parece esperar de nós, mas no que temos a oferecer a ele. Afinal, mesmo que o mundo nos pergunte o que temos a agregar, sem autoconhecimento falta-nos uma bagagem consistente para sustentar a resposta. E o que não tem essa sustentação natural torna-se um fardo pesado, como bolas de ferro presas aos nossos tornozelos.




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