Prevenir riscos psicossociais com custo quase zero: dois cases reais
- Renê Ruggeri

- 17 de abr.
- 3 min de leitura

Existe uma crença bastante difundida de que prevenir riscos psicossociais exige investimentos relevantes. Na prática, muitas soluções passam por ajustes simples, porém estratégicos, nas condições de trabalho, com custo quase zero. Para identificar soluções efetivas e de baixo custo, é preciso entender como os fatores de risco operam.
Deve-se, como já escrevi noutras oportunidades, gerir ações em duas perspectivas simultâneas: as capacidades do indivíduo e as condições da vida (do trabalho).
A maioria das ações propostas por consultorias foca no primeiro eixo (treinamentos, palestras, workshops). Mas é no segundo que, muitas vezes, estão as soluções mais simples e mais eficazes.
É premissa das exigências legais que as condições de trabalho são responsabilidade exclusiva da empresa. E, em numerosos casos, podem significar ações simples e com custo quase nulo.
Veja, nos cases a seguir, que compreender a diferença entre perigo, fator de risco e risco psicossocial é crucial para perceber estas soluções.
Case 1
Ao assumir a liderança de um setor, percebi rapidamente um clima velado de pressão sobre a equipe. Solicitações externas interrompiam constantemente o fluxo de trabalho, muitas vezes com tom de cobrança ou urgência artificial, o que desorganizava a produção e afetava o desempenho.
Como primeira medida, retirei as divisórias para inibir abordagens reservadas e reorganizei o leiaute de modo que qualquer interação passasse a ser visível. Em pouco tempo, isso já reduziu parte das pressões. Observando das interações remanescentes, identifiquei suas origens e tratei diretamente com as lideranças envolvidas. Por fim, estabeleci que toda solicitação deveria passar por mim e, eventualmente, ser formalizada. Até me dispus a formalizá-las para o solicitante, o que poucos quiseram.
Em menos de seis meses, o nível de pressão se normalizou. A produtividade aumentou e o clima do setor mudou de forma perceptível. Claro, sem qualquer custo significativo.
Case 2
Em outra situação, havia uma relação tensa entre fiscais da equipe e fornecedores. As análises de entregas, especialmente próximas às medições, frequentemente geravam conflitos, já que ajustes impactavam o faturamento, elevando o nível de estresse e escalando problemas, e o estresse, para instâncias superiores.
Percebi, porém, que fora desse contexto as relações eram cordiais. A tensão se originava no processo, não nas pessoas. Introduzi então reuniões prévias obrigatórias para apresentação das entregas ainda em desenvolvimento, com espaço para discussão antecipada dos pontos críticos e participação de outras partes interessadas.
Com o tempo, os problemas passaram a ser tratados antes das entregas formais. Os relatórios ficaram mais leves, a qualidade melhorou e o clima mudou: de confronto para colaboração (as demandas das partes externas colocavam fornecedores e fiscais do mesmo lado). O estresse não desapareceu, mas voltou a um nível saudável. Produtividade e qualidade melhoraram.
Repare que ambas as ações tiveram custo zero, na prática. Não foi preciso investir em treinamentos ou campanhas de conscientização (embora haja um viés subliminar de conscientização em ambas). Para quem é da área, talvez seja possível perceber, nas entrelinhas, os fatores psicossociais que explicam sua efetividade.
São ações no eixo das condições de trabalho. Alteraram-se as condições a que os profissionais estavam submetidos, por meio de ajustes no sistema de produção (ou sistema organizacional). Nenhuma delas foi isolada; faziam parte de um conjunto de melhorias voltadas a outros aspectos do trabalho.
Em ambos os casos, a produtividade aumentou e os riscos psicossociais foram reduzidos. Detalhe: ambas ocorreram durante a pandemia, que já impunha níveis elevados de estresse.
E então? Ainda faz sentido assumir que combater riscos psicossociais exige altos custos em qualquer situação?
E no seu contexto: há soluções de baixo custo que ainda não foram exploradas?




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