Bem-vinda NR-1
- Renê Ruggeri

- 31 de mar.
- 2 min de leitura
Estou em plena transição de carreira. Foram mais de 30 anos dedicados aos projetos de Arquitetura e Engenharia. No início, claro, como projetista, logo em seguida como coordenador de projetos e por fim como gestor de setores de engenharia, o que gosto de chamar de Gestão de Engenharia.
Apesar dos 10 anos em que venho trabalhando gradativamente esta transição, muitas reflexões acabam surgindo repentinamente recontextualizadas pela experiência e pelas mudanças do mercado.
Fui um usuário dedicado da prancheta, vi o CAD surgir e acompanho a evolução do BIM. É claro que a há diferenças radicais na produção de projetos de empreendimentos em cada paradigma destes, mas acreditem quando digo que a maior diferença está no contexto em que surgem.
Na época da prancheta a especialização era menos radical, o que tornava a percepção sistêmica mais natural para os profissionais. A velocidade em que se produzia era bem menor e um erro gerava um retrabalho enorme. O resultado disso era uma reflexão bem mais apurada dos profissionais antes de tomarem uma decisão de projeto, incluindo eventuais consultas a outros antes de decidir (o que hoje tem-se buscado avidamente e chama-se pelo “inovador” nome de colaboração).
É difícil para as novas gerações acreditarem nisso frente a realidade que vivem hoje, pois, no contexto atual, a dica é “errar mais rápido para aprender mais rápido”. Raramente ouvi, nos meus 30 anos de engenharia, uma ode tão explícita à ineficiência, travestida de ensinamento gerencial. É basicamente o mesmo que dizer para desperdiçar os recursos tentando fazer algo e torcer para que o “concorrente” (conceito polarizado, como vários outros na atualidade) não acertar antes de você.
Para quê? Para ganhar dinheiro. Criar uma boa solução não é mais objetivo, a ordem agora é criar qualquer coisa antes do concorrente para usufruir de um rápido período antes da obsolescência. E, antes mesmo de caducar, a ideia é lançar outro produto, inventar terminologias lacradoras, e relançar criticando que o anterior não dá mais resultados.
Reparou que a mudança radical não é o CAD ou o BIM, mas a velocidade ascendente que o mundo exige de tudo? Qualquer criança sabe que fazer as coisas correndo é receita pra fazer besteira.
Na gestão de projetos não é muito diferente. A cultura de gestão da qualidade na indústria expandiu suas fronteiras e algumas foram amplamente encampadas pelo desenvolvimento de softwares. Softwares criam modelos para processos, engenharias, em geral, criam modelos para produtos.
A falta de rigor na interpretação do termo ágil (novamente a superficialidade) confundiu agilidade (que quer dizer flexibilidade, adaptabilidade ligeira) com velocidade, afinal, essa é a característica fundamental do mundo hoje. Aliás, um fundamento básico do processo de comunicação (o referente como base para interpretação das mensagens) que também foi vendido para uma visão meramente tecnológica. Mas comunicação, para pessoas, é um fenômeno essencialmente antropológico e sociológico, não tecnológico.
Nesses 30 anos, ganhamos na frieza da tecnologia e velocidade, perdemos em colaboração, em sociabilização, em governança estratégica, em humanidade no ambiente laborativo. O resultado está aí: precisamos de uma norma para nos abrigar a sermos humanos. Bem-vinda NR-1! A IA agradece em nome das pessoas, pois a gratidão também anda esquecida pelos autômatos.




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