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O segredo do pertencimento: semelhança e valor


O estranho no ninho

 

Você já se sentiu deslocado em uma situação esporádica? Provavelmente sim. Isso costuma ocorrer com quase todos nós quando estamos fora do nosso ambiente costumeiro, no meio de gente desconhecida ou realizando uma atividade que não dominamos.


Agora, imagine que essa sensação se torne o "normal" da sua vida.

Embora sejamos seres adaptáveis, muitas pessoas carregam o sentimento de estar fora de lugar com uma frequência maior do que gostariam. Estatísticas indicam que a saúde mental é uma preocupação crescente, e essa sensação de não pertencimento é um fator silencioso, mas poderoso, nesse cenário. Talvez os números já possam ser considerados alarmantes.

 

Os grupos, semelhanças e diferenças

 

As motivações para esses estados podem variar desde condições genéticas a fatores socioambientais. Isso afeta nossa vida social e nosso trabalho.


Em geral, crescemos em contextos que nos preparam para a vida: família, escola, grupos de amigos, igreja etc. É nesses grupos que aprendemos aos poucos que  as pessoas são diferentes e que é preciso encontrar formas de conviver com elas.


Aprendemos que os grupos com os quais nos sentimos melhor são aqueles unidos por interesses ou características comuns. As semelhanças nos dão o sentimento de pertencimento. Somos indivíduos, mas somos parte daquele grupo unido por um laço de semelhança.


Mas, mesmo com as semelhanças, todos os grupos são fundamentalmente heterogêneos. As diferenças sempre estarão presentes. Mais que isso, se você pensar bem, talvez perceba que em qualquer grupo costumamos ter mais diferenças que semelhanças, afinal a que une o grupo é uma ou outra semelhança específica.

 

O valor das características

 

Assim, passamos a vida procurando os grupos que compartilhem características para as quais atribuímos valor especial. Valor esse que varia ao longo da vida. Mudamos, desenvolvemos e a cada fase nossos interesses e características mudam, bem como os valores que atribuímos às coisas.


Culturalmente somos levados a apreciar certas coisas em comum com grandes grupos. Brasileiro gosta de futebol, chinês de ping pong. Mas isso não significa que todos os brasileiros ou chineses tenham essa preferência. É possível identificar grupos menores, com interesses e características bem peculiares.


Aí se instala uma dificuldade: encontrar os nossos grupos quando nossos interesses e características destoam da cultura geral. Esta cultura geral pode ser de um país, mas pode ser de turmas escolares. Sempre achamos grupos com interesses e características comuns, mas nem sempre achamos grupos que dão o mesmo valor para aquela semelhança.


Eu até gosto de um bom jogo de futebol, compartilho esse interesse cultural. Mas não tenho time do coração e sequer sei a escalação da seleção atual. Fui ao estádio umas duas vezes na vida, uma vez levado pelo meu pai e outra acompanhando um amigo. Você já deduziu que acompanhar o campeonato é algo que não tem muito valor pra mim.

 

Valor para a vida

 

Pense no seu caso. Que interesses ou características você valoriza e têm dificuldade de encontrar semelhantes? Sempre há alguma coisa, afinal somos todos diferentes. E a grande questão é: que valor você dá a isso para a sua vida?


Se há algo que te interessa muito, ou seja, é uma característica que você entende como muito importante e não encontra semelhantes, muito provavelmente você tem chances de estar naquele grupo que se sente deslocado, fora do lugar, estranho.


Veja que o segredo não é apenas identificar uma característica qualquer. O ponto crucial está no valor que damos a essa característica. Se temos características mais difícil de encontrar semelhantes, temos mais dificuldade com o pertencimento.


Sempre há coisas comuns para compartilhar e nos identificarmos com algum grupo. Mas, lembre-se, é preciso avaliar o valor que damos a essas coisas.

 

Identificação do valor pelo autoconhecimento

 

Se você coleciona interesses e características incomuns, ou seja, mais difíceis de mobilizar agrupamentos, você experimenta mais a sensação de estranhamento com o mundo, com as pessoas ou as situações.


Trata-se de encontrar algum equilíbrio entre esta diferenciação e a similaridade. Mas nem sempre é fácil. Quanto mais diferenciação, mais difícil é a similaridade e o pertencimento.


A boa notícia é que isto não significa que você é estranho. Estranha é a sensação, não a pessoa. Todos temos características próprias mais marcantes e precisamos procurar nossos semelhantes para podermos cultivá-las. Somos apenas diferentes uns dos outros.


O desafio é que precisamos aprender a identificar não apenas as características, mas o valor que damos a elas. Apenas com este conhecimento seremos capazes de procurar os grupos corretos, mesmo mantendo relações sociais com os grupos similares por características menos importantes.


O pertencimento em si é importante para nossa vida gregária, social, mesmo que seja por uma semelhança de menor valor. Mas, para nossa vida interna, é preciso pertencer a algo que valorizamos. A grande questão é: você conhece as próprias características que mais valoriza? Ou ainda, o que é basicamente o mesmo: você se conhece?

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