Nova NR-1: obrigação que é oportunidade
- Renê Ruggeri

- 27 de mar.
- 3 min de leitura

A recente revisão da NR-1 marca um ponto de inflexão na segurança do trabalho no Brasil. Se antes o foco das empresas estava restrito aos riscos físicos, químicos, biológicos e (micro)ergonômicos, agora a norma exige um olhar atento aos riscos psicossociais.
Essa atualização não é apenas burocrática; ela é urgente e altamente necessária. Atualmente, o Brasil registra mais de meio milhão de afastamentos anuais por questões de saúde mental no trabalho, como ansiedade, depressão e burnout, ocupando o segundo lugar no ranking de motivos de ausência, atrás apenas dos problemas na coluna.
Embora a obrigação consista em identificar e mitigar esses riscos, o grande desafio para o empresário é fazê-lo de forma efetiva e estratégica. Muitos gestores já compreendem a nova responsabilidade, mas poucos perceberam a oportunidade oculta: o bem-estar no trabalho impacta diretamente os resultados operacionais e a lucratividade.
É fundamental distinguir que a nova NR-1 não foca no tratamento de quem já adoeceu — direito este já garantido por lei —, mas sim na gestão das condições e prevenção ativa destas ocorrências.
A grande sacada é que muitas ações preventivas têm a mesma natureza das que promovem o bem-estar. Ao ajustar essa perspectiva, da prevenção para a promoção, o retorno sobre o investimento aumenta significativamente.
Para o investidor consciente, a lição é clara: se é necessário investir, que se escolha o caminho com maior retorno, garantindo o bem-estar integral do colaborador. Os números provam que um trabalhador que se sente bem produz mais e melhor, agregando mais valor aos processos da organização. Algumas pesquisas indicam retorno de mais de 100% sobre os investimentos em bem-estar, na forma de melhoria de desempenho organizacional. Isso é muito significativo.
Os clientes percebem e se fidelizam a esse valor agregado, pois as melhorias são sistêmicas e sinérgicas, acabam chegando ao cliente na forma de melhor atendimento, qualidade de produtos e serviços, identificação com a marca etc.
Garantir a sustentabilidade de um sistema de produção humanizado é, essencialmente, uma questão de governança. Requer uma estruturação que ajuste processos e cultura para que o desempenho produtivo e as metas coexistam harmoniosamente com o bem-estar.
Mas como medir ou promover esse bem-estar? E como prevenir problemas que o afetem?
Os riscos de abalar o bem-estar são inerentes às atividades humanas, não só no trabalho, como em qualquer contexto. A vida nos coloca desafios que tendem a nos tirar da zona de conforto e esse movimento é necessário ao desenvolvimento. Logo, a questão nem sempre é eliminar o risco, mas garantir que esteja sob controle e que haja condições de enfrentá-lo caso ocorra.
Trabalhar as condições para prevenir riscos que abalem o bem-estar é o foco da NR-1. Mesmo não eliminando os perigos, intervir nos fatores que modificam o risco é a estratégia. O caminho da prevenção é a redução da probabilidade de que aconteçam eventos ou condições ruins, ou ampliação dos fatores que reduzem seus impactos.
Para a organização, a prevenção reduz o risco de assumir custos de correção, sempre maiores que os da prevenção.
Mas é possível fazer mais. Promover o bem-estar eleva as capacidades dos trabalhadores e melhora as condições de trabalho, de modo que se faça mais com menos. Estamos falando de aumentos efetivos do desempenho da organização, seja por qualidade, produtividade, participação de mercado etc. Isso mesmo, bem-estar gera resultado econômico. Mas como promover o bem-estar para além da mera prevenção de riscos?
A resposta está na Psicologia Positiva (PP), ramo científico dedicado ao estudo do que melhora a vida humana, fundamentado em pesquisas estruturadas desde o final do século XX. Fala-se, na PP, do florescimento humano. A PP dedica-se ao bem-estar, desenvolvimento de forças humanas e florescimento. Abordar isso em relação às organizações é, obviamente, um campo de estudo e aplicação.
Colaboradores e clientes admiram e valorizam organizações que demonstram cuidado real com a qualidade de vida humana. Para que seja efetivo, este cuidado precisa se sustentar em abordagens consistentes.
As que são focadas na estruturação organizacional, podemos classificar como governança. Já as focadas no indivíduo, certamente são pertinentes à Psicologia Positiva e suas áreas de interface. Esta relação entre as pessoas e os sistemas produtivos é objeto de estudo também da Ergonomia, mais especificamente da Macroergonomia, quando referida ao nível organizacional da ergonomia e não especificamente ao das tarefas.
Enfim, usando a expressão da PP, florescer é (ou deveria ser) o objetivo de todo ser humano, mesmo no ambiente do trabalho. As organizações que constroem isso, cultivam o desempenho, a boa imagem e a relação com o mercado. Afinal, quem valoriza flores e frutos, dedica-se ao cultivo do jardim. E não há quem não admire um jardim onde tudo floresce.




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