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Re-unindo Arquiteturas e Engenharias

Responda: qual Teoria de Projeto prescreve a separação entre as disciplinas técnicas no desenvolvimento de um projeto de Arquitetura e Engenharia?


Pode procurar, a resposta é: nenhuma. Nunca houve uma indicação de que se separasse ou sequenciasse as disciplinas técnicas. Algumas opiniões mais recentes tentam representar algum tipo de separação ou sequenciamento, mas tendem a uma descrição do que se faz no mercado e não uma teoria racional do que deve ser feito. E já sabemos que os resultados não são lá essas coisas.


Mas, por que a prática do mercado separa as disciplinas? Ou seja, por que somos levados a compreender os projetos de um edifício como a soma dos projetos em cada disciplina: arquitetura, interiores, estruturas, hidráulica, elétrica etc.?


Não é difícil perceber que antigamente (alguns poucos séculos atrás) essa prática não existia. Pelo contrário, os edifícios eram concebidos praticamente por uma única pessoa, em todos os seus aspectos. Aliás, projetistas e construtores eram a mesma pessoa.


À medida que a ciência se desenvolveu, a forma de pensá-la se difundiu com o estigma de ser a única forma correta de se produzir conhecimento, afinal, a ciência produziu, com seu método, avanços extraordinários. É inquestionável o que a ciência nos trouxe em termos de desenvolvimento material, tecnológico e estruturante.


À medida que o método de estruturação do pensamento da ciência produzia novos e numerosos conteúdos, foi importante que esses conteúdos fossem empacotados para serem passados às novas gerações. Como foram produzidos com base no isolamento dos problemas estudados (isso é fundamental no método de experimentação da ciência), foram repassados também com base numa segmentação.


Aos poucos foi se firmando a ideia de que as áreas de conhecimento são relativamente independentes e começamos a criar as especializações. Isso foi necessário em função do volume de novos conhecimentos produzidos ao longo dos anos. Provavelmente, esta separação atingiu seu ápice a partir do meio do século XX, período em que a produção segmentada era enorme e as antigas abordagens mais integrais já estavam relativamente distantes no tempo passado.


Na construção separou-se o projeto da execução e, posteriormente, o planejamento foi separado de ambos.


Ora, para que haja possibilidade de comunicação entre duas ou mais instâncias, é preciso que haja algum repertório em comum. Sem um mínimo de repertório comum, a comunicação é inviável. Quanto mais complexo o conteúdo da comunicação, maior a exigência de repertório comum. Experimente conversar com um astrofísico sobre a físico-química das estrelas anãs e você sentirá a dificuldade da comunicação eficaz.


Ao tentar essa interação de conteúdos diferentes, pode-se perceber que o desafio não é apenas de compartilhar informações. A estrutura de pensamento que reúne conteúdos distintos é diferente daquela que os separa. E há tempos somos treinados na segmentação dos conteúdos e muito pouco na sua reunião (re-união). Em relação a essa re-união normalmente temos uma mera opinião, que pretendemos sustentar numa prática, esquecendo que, em última análise, é exatamente ela que está sob crítica.


Perceba que essa separação parece ser uma necessidade humana, motivada por nossa limitação natural. Não é uma separação imposta pela natureza das coisas. As coisas coexistem e se relacionam no mundo, mas, aprendemos a entendê-las por partes, mesmo que esse entendimento seja, consequentemente, parcial.


Na virada do século XX para o XXI, começaram a ganhar força abordagens mais integradoras. A separação já incomodava pensadores de grande envergadura há décadas, mas, na virada do século, começou a incomodar até mesmo o cidadão/profissional comum em sua prática cotidiana. A luta para reintegrar a concepção de empreendimentos na construção civil é uma manifestação disso.


Os modelos de compreensão do mundo começaram a ficar muito complexos e a Teoria da Complexidade ganhou espaço. Juntar informações tão numerosas e díspares tornou-se um desafio necessário. A própria ciência da natureza incluiu nos modelos de pensamento um viés probabilístico (Física Quântica) que conflitava fortemente com as leis determinísticas da natureza que nos acostumamos a considerar nos bancos das escolas.


Ganhou terreno neste processo, uma visão mais científica da própria natureza humana. A Psicologia se desenvolveu no século XX, bem como as neurociências, ambas com abordagens mais complexas e com fenômenos de essência probabilística. O determinismo científico abalou-se inevitavelmente.


Depois da Complexidade, a Teoria Integral surgiu se colocando alternativamente, ainda que com a dificuldade de achar um público preparado para ela (afinal, fomos adestrados no último século a pensar segmentadamente, não integralmente). É como se aguardássemos uma estrutura cientificamente determinista para nos apropriarmos de uma concepção que já nasceu em convívio com a complexidade. Provavelmente esse determinismo não surgirá.


A este movimento de reintegração, com percepções probabilísticas dos fenômenos, associado a um despreparo cultural para essa estrutura de pensamentos, alguns chamaram de mundo VUCA, outros de realidade líquida. Nomes dados ao desafio de compreender um mundo que exige visões mais integradoras e complexas da realidade. Aliás, um mundo para o qual a formação cultural tradicional se mostrou ineficaz e até inadequada.


Na construção civil, motivados pela tecnologia que permite manipular volumes de informações e articular padrões e hierarquias entre elas, começamos a esboçar uma visão mais complexa dos edifícios. Mais que isso, juntando a psicologia e as neurociências nesse universo, buscamos uma visão mais integral da realidade. Juntando a isso tudo uma reflexão social e ambiental (ambas de concepção complexa) reforçamos a integralidade da construção civil, ainda que de forma incipiente.


Mas o problema, é que continuamos pensando majoritariamente com base na segmentação do conhecimento. Como diria Morin, “precisamos substituir o pensamento que isola e separar, por outro que distingue e une”. O desafio não é apenas juntar e trabalhar as informações, pois isso retrata a apenas complexidade, mas formar novas gerações que aprendam a pensar com o paradigma integral (nesse contexto o pensamento integral assume status de paradigma).


A especialização, por mais que seja ainda necessária e prática, se caracteriza pelo aprofundamento em um universo restrito de conhecimentos e informações. A Inteligência Artificial, com sua maior capacidade de lidar com informações, nos auxiliará a lidar com a multiplicidade de especializações. Mas a integralidade é uma fronteira adiante, pois atualmente não se resume a trabalhar informações, mas a perceber o que está além delas e suas correlações óbvias baseadas em leis científicas, determinísticas ou probabilísticas.


A integralidade é caracterizada não apenas pela multiplicidade e quantidade de informações, mas pela multiplicidade de perspectivas e pontos de vistas. Os modelos do pensamento complexo carregam a incerteza e a variabilidade dos conteúdos. O pensamento integral carrega a multiplicidade dos próprios modelos.


Escutamos Morin, mas precisamos ainda escutar Wilber e entender que “tudo está certo, parcialmente certo”. Ou seja, não se trata de considerar e reunir o que já sabemos, mas de produzir o que falta nas interfaces para consolidar uma visão de mundo que seja mesmo integral, ou seja, que contemple múltiplas perspectivas, ou múltiplos modelos. Estamos apenas começando o aprendizado disso.


E a construção, a Arquitetura e a Engenharia?


Ora, as diversas modalidades da Engenharia, que picotamos ao longo dos séculos, mediam a relação do homem com a natureza, ora extraindo, ora transformando, ora refazendo. As Arquiteturas, similarmente, mediam essa relação por outras perspectivas.


O problema num segundo estágio ainda é a segmentação, mas dos processos (que traduzem modelos). Tendemos atualmente a sermos muito tecnológicos, o que é bom para a complexidade das relações com o mundo, mas equilibrar este aspecto com os demais requeridos pela integralidade, ainda exige de nós algo que perdemos ao longo do tempo, mas vamos recuperando vagarosamente: a compreensão cósmica da existência ao estilo grego clássico.


Não é fácil, mas está a caminho, afinal a curva do desenvolvimento humano é espiral; para avançar, eventualmente recicla. Arquiteturas e Engenharias reintegradas reciclarão os modelos de relacionamento do homem com o mundo, natural e construído. Separamos no passado e o trabalho agora é de reconstruir numa estrutura integral.

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