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Quando Deixamos de ser Estranhos de Nós Mesmos

Acho que todos nós, em algum momento, nos sentimos diferentes. Uns mais, outros menos, mas a verdade é que somos seres singulares. Ser assim é normal; sentir-se assim também é. O problema é que, embora nos reconheçamos diferentes, buscamos desesperadamente o pertencimento pelas semelhanças.

Onde fica, então, quem não se encaixa nos padrões óbvios?

Durante décadas, convivi com a sensação de não estar conectado. Era o sentimento de estar fora de lugar, de ser um estranho — ou de estranhar — locais e pessoas. No trabalho, nada parecia feito para durar; tudo tinha cara de passageiro. Eu estabelecia objetivos, atingia-os com rapidez e, logo em seguida, o sentido de estar ali se esvaía.

É claro que isso não ocupava toda a minha existência, pois seria enlouquecedor. Eu sempre tive relações sociais e de trabalho. Fiz amigos em várias situações — poucos, é verdade, mas fiz. Tive meus amores e desamores normais. Não posso dizer que tive uma vida ruim, mas isso não significa que aquela sensação de inadequação não me incomodasse com uma boa frequência. Eu vivia sob uma pressão invisível.

Já maduro, participei de um processo de autoconhecimento que não planejei. Acreditem: foi libertador. Não porque o mundo mudou, mas porque eu me liberei das restrições que eu mesmo me impunha. Eu acreditava que certas partes da minha natureza não seriam bem-vindas e consumia uma energia vital imensa tentando "segurar" quem eu era. Eu retinha impulsos, palavras e comportamentos para tentar caber.

Descobri que o que eu julgava como "defeito" era, na verdade, “design”.

Ao mergulhar em ferramentas fundamentadas e mapas que explicam a complexidade humana, percebi que meus traços de personalidade não eram erros de fabricação, mas qualidades da minha própria natureza. Descobri que outras pessoas também os tinham e que, mesmo quem não os possuía, podia apreciá-los.

Essa descoberta expandiu meu universo interno. Hoje, as características que eu antes coibia, eu cultivo. Não me livrei de todas as dificuldades de conexão, mas o mundo e as pessoas deixaram de ser estranhos para se tornarem admiráveis.

Hoje, consigo olhar para trás e ressignificar minha história. Vejo minha natureza aflorando em passagens onde eu tentava silenciá-la e, finalmente, dou risada de ideias minhas que antes eu recriminaria por serem "descabidas".

O autoconhecimento é uma jornada sem fim, mas a etapa que percorri me transformou em mim mesmo — porque, antes, eu era apenas quem eu me forçava a ser. Hoje, o mundo é o meu lugar. E o meu trabalho passou a ser arquitetar formas para ajudar outras pessoas e organizações a entenderem e encontrarem, também, os seus lugares no mundo.

© Copyright  2026 por Renê Ruggeri.

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