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Engenharia Integral – Parte 1: fundamento Engenharia

Divulgo com frequência que trabalho com o que chamo de Engenharia Integral. É difícil explicar o que seja a Engenharia Integral sem, antes, compor uma base sobre a qual o conceito possa ser compreendido. A falta dessa base induz a compreensões incompletas e até equivocadamente simplistas.


Escrevi, há alguns anos (2017, para ser mais exato), um artigo para a saudosa revista Tèchne sobre a Engenharia Integral, onde tentei dar algumas referências mais acessíveis ao público técnico de Arquitetura e Engenharia. Foi um olhar mais estruturado, tendendo a uma abordagem metodológica. Essa abordagem é necessária por uma questão de aplicabilidade da Engenharia Integral, mas é limitada na perspectiva conceitual. O referido artigo está reproduzido num dos e-books da Coleção: Gestão Tecnologia e Gente (disponível no site).


Tentarei, neste texto, voltar o olhar para o aspecto mais conceitual da Engenharia Integral e, para isso, preciso revisitar dois temas que são fundamentos nessa concepção teórica. São eles:


  1. ·        O que é a Engenharia?

  2. ·        Teoria Integral


Para uma ccompreensão mais apurada do que seja a Engenharia Integral, de modo a extrair dela o potecial que lhe é próprio, é preciso esta expansão do pensamento. Afinal, não há como ser integral focando apenas em parte ou em aspectos particulares de um objeto de estudo.


O primeiro tema, a Engenharia, abordo neste artigo, com a introdução feita até aqui e o segundo, a Teoria Integral, abordarei noutro texto, com uma conclusão.

Vamos lá...


Vou iniciar, a despeito de todas as definições encontradas na bibliografia especializada, afirmando que a Engenharia é a mediadora da relação do homem com a natureza. Considero essa assertiva simples, objetiva e adequadamente abrangente. Seja numa perspectiva extrativista, de transformação ou de construção, a engenharia está sempre presente nesta relação. Ou seja, tudo que intervém concretamente de alguma forma na relação do homem com o mundo que o cerca está no âmbito da Engenharia.


Com base nisso, podemos pensar no homem primitivo que lascou a pedra para usá-la como utensílio. A construção de ferramentas é mesmo um tema da Engenharia.


Podemos ainda pensar em algum tipo de conhecimento que o homem primitivo desenvolveu sobre a sua relação com os recursos das florestas como madeira e alimentos. Essa é, sem dúvida uma relação do homem com a natureza mediada pelos primórdios do que hoje poderíamos classificar como Engenharia Florestal. Daí pra Engenharia Agrícola é uma questão de tempo e evolução.


Similarmente, podemos pensar da extração de pedras para construção de abrigos e algum conhecimento empírico sobre as propriedades delas (dureza, condutividade térmica etc.). Vemos aí, os primórdios da Mineração e da Engenharia de Materiais.


A descoberta do fogo e seu poder de transformação instituíram a forja e a Engenharia Metalúrgica que gradativamente expandiu-se para outros materiais, incluindo polímeros.


Se pensarmos nas populações ribeirinhas com suas canoas e jangadas, enxergaremos com facilidade o início da Engenharia Naval. E se pensarmos nas lanças, arcos, flechas e evoluções como redes, gaiolas etc., não é difícil associar à Engenharia de Caça e Pesca.


Percebamos que tudo isso são criações da Engenharia para, de alguma forma, estabelecer ou mediar a relação do homem com a natureza.


Estágios mais evoluídos do homem, já com algumas estruturas sociais configuradas, nos permitirão perceber a Engenharia de Fortificações, uma configuração militar do que viria a se tronar a Engenharia Civil para grandes empreendimentos e cidades. Aqui é preciso destacar que a Arquitetura é farinha do mesmo saco da Engenharia, irmãs que foram separadas pela especialização através dos tempos, mas cujos laços sanguíneos são inegáveis.


A navegação mercantil e o transporte de mercadorias em caravanas por via terrestre, com a criação de portos, armazéns e abrigos temporários para as comitivas, são evidentemente precursores da Engenharia de Transportes e a Logística. As tribos se transformaram em vilas que passaram à cidades. As aglomerações exigiram sistemas logísticos que concentrassem a produção espalhada nas pequenas propriedades e, posteriormente as distribuíssem num sistema de comércio.


De repete, surge a máquina a vapor e o salto tecnológico permite o surgimento de uma série de atividades adicionais que apoiam direta ou indiretamente a relação do homem com a natureza.


Já estamos, a essa altura, no século XVIII (embora a primeira máquina a vapor tenha sido construída ainda na Grécia Antiga).


Mas há um aspecto importantíssimo nesta história das engenharias que é preciso destacar: com a evolução, a relação que a engenharia passou a mediar não é a de um indivíduo, mas a de toda uma comunidade. Mais que isso, a Engenharia, com todas as suas modalidades, transformou ao longo do tempo a forma do homem se relacionar com a natureza, individualmente ou em grupo, e a própria forma dos homens se relacionarem entre si.


Pense no que a Engenharia Elétrica e a de Telecomunicações alterou as relações entre as pessoas, as cidades, os países e as culturas promovendo interações e influência mútuas bem mais enfáticas.


Mas, se entendermos que o homem é parte da natureza, e não há como negar isso, as relações entre homens continuam sendo relações com a natureza; neste caso, com nossos semelhantes.


Pensando em como mediar essas relações entre pessoas, organizações, nações etc. e em como elas influenciam as estruturas sociais, é possível pensar numa forma bem abrangente de Engenharia Social. Embora essa expressão seja frequentemente usada para identificar mecanismo de manipulação malévola de informações, não é difícil pensar que este conhecimento pode ajudar a remodelar toda a sociedade de forma consciente, deliberada e consolidada em transformações culturais induzidas.


O importante é entendermos que a Engenharia é a mediadora das relações do homem com a natureza. Se incluirmos como natureza, ou como meio ambiente, também os ambientes criados pela própria intervenção humana, a Engenharia intervém essas relações individuais e coletivas. Assim é quando uso o computador para escrever este texto, ou quando o uso para me incluir numa comunidade digital de pessoas com as quais compartilho algum traço de relação com o mundo.


Não é à toa que os avanços tecnológicos criam a cada dia novas modalidade de especialização em Engenharia. Ou seja, novas modalidade de especialização em conhecimentos que criam, instrumentalizam ou estabelecem concretamente relações dos homens, individual e coletivamente, com a realidade que os cercam, incluindo nossa própria espécie como componentes da natureza.


Pense qual seriam as modalidades de engenharia envolvidas na criação e inserção da inteligência artificial nas nossas relações com tudo e todos. Talvez este seja o exemplo mais contemporâneo da Engenharia como mediadora da relação do homem com o mundo, natural e socioeconômico.


Pense nas criações de próteses mecatrônicas com conexões diretas com o cérebro humano. Estamos falando da engenharia mediando a relação do homem consigo mesmo. Mas cada um de nós é também parte da natureza e, portanto, ainda assim a Engenharia está mediando a relação do homem com a natureza. Neste exemplo, entretanto, a natureza deve ser entendida com alto nível de complexidade e integração material, psíquica, biológica e social.


Podemos expandir essa ideia da Engenharia para o macro, na Engenharia Espacial, e o micro com uma possível Engenharia Quântica.


Parece não haver limites!


Resta aí, apenas a barreira espiritual, ainda assim, conforme o entendimento que se tenha dela.

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