Supervisão e fiscalização: o coreógrafo e o jurado

Esse é mais um texto do tipo “tira dúvidas”. Escrevi no passado sobre a diferença entre gestão e coordenação; mais recentemente, entre elaborar e desenvolver projetos e sobre garantir e controlar a qualidade. Algumas destas distinções são importantes mais por rigor semântico e sua utilidade é muito mais didática do que prática. Outras têm efeito prático fundamental. É o caso da distinção entre supervisão e fiscalização.



Os termos são comumente usados em conjunto no ambiente de contratações de serviços especializados, mas é importante que estabeleçamos a diferença, pois ela é significativa nesse contexto.

Gosto de recorrer a etimologias, mas nesse caso o dicionário já ajuda inicialmente. Segundo o “oráculo” Google, supervisionar é:

transitivo direto

dirigir, inspecionando (um trabalho); controlar, supervisar.

E fiscalizar:

1. transitivo direto

verificar se (algo) está ocorrendo como fora previsto; vigiar.

"f. um serviço, uma obra"

2. transitivo direto

observar atentamente; examinar, verificar.

"f. as contas"

De cara já se percebe uma diferença essencial: supervisionar implica em dirigir e fiscalizar implica em verificar. Porém, ambos incluem um aspecto de inspeção, o que pode justificar alguma confusão. É o que pretendemos resolver. Uma coisa podemos afirmar de início: não são a mesma coisa e nem parecidos, definitivamente.


Vejamos...


Dirigir é governar, guiar, dar direção. Aqui a etimologia pode ajudar e vamos recorrer à de direção:

derivam do Latim DIRECTIO, “arranjo em linha reta, ato de endireitar”, ligado a DERIGERE, “alinhar, tornar reto, guiar”, formado por DE, “fora”, mais REGERE, “guiar, governar” (site Origem da Palavra).

Dirigir inspecionando, como diz o dicionário para supervisionar, corresponde a guiar, colocar na linha correta (reta) um trabalho, mas estando fora dele, o que significa não operar o trabalho, e avaliando se ele segue o melhor caminho. Um supervisor é efetivamente um gestor da execução do trabalho. Decorre deste entendimento que um supervisor deve estar próximo à execução do trabalho permanentemente para fazer os ajustes na direção à medida que o trabalho se desenvolve.


Outro ponto importante em relação à supervisão é que ela é sempre relativa a um processo. De fato, não faz sentido dar direção a um produto; um produto é o que é e pronto. Já um processo “é” em função do que seu guia decide à medida que “está sendo”; a rigor fundo ele “se torna” em função da direção que lhe é dada (esse trecho foi minha licença filosófica neste texto, é abstrato, mas é certeiro). Perceba o dinamismo do processo e sua supervisão em contraste com a estaticidade do produto.


Em relação à fiscalização, a questão é relativa à verificação. Etimologicamente, verificar é uma junção de verdadeiro (vero) com fazer (facere), ou seja, fazer verdadeiro ou, com um pouco de esforço, tornar correto (aqui seria mais conveniente esse entendimento). Contextualmente, significa comparar alguma coisa com uma referência tomada como verdade a ser seguida. Fiscalizar, por sua vez, tem etimologia vinculada a fisco, tesouro público. A figura do fiscal normalmente está relacionada a algo público, embora o termo já tenha sido apropriado nos meios privados. Assim, temos fiscal da receita (público) e fiscal da qualidade (nas empresas).


Dada uma norma sobre algo, a fiscalização implica em verificar se este algo está conforme tal referência. É muito comum nos meios técnico-especializados que a norma seja um contrato e, então, nos deparamos com a figura do fiscal do contrato.


Apenas para pegar o gancho da questão do fiscal do contrato, podemos pensar numa verificação de conformidade às normas administrativas (no setor público ou privado) e noutra verificação de conformidade às normas técnicas. Daí ser possível pensar num fiscal administrativo e um fiscal técnico, embora seja comum fundir ambas as funções num único papel.


Reparemos que o fiscal pode verificar a conformidade de um processo ou de um produto, basta que haja parâmetros de referência para a verificação. Outro ponto importante é que o fiscal atua pontualmente, por inspeções. A rigor a fiscalização não se preocupa com a orientação dada ao processo, mas apenas com a verificação da conformidade dele ou de seus resultados à medida que ocorrem. Isso permite que o fiscal atue à distância, pois sua proximidade com o processo só é requerida nos momentos de inspeção.


Tanto a supervisão quanto a fiscalização inspecionam os processos, mas com focos diferentes e com uma distribuição temporal diferente. A supervisão tende a uma atividade contínua de acompanhamento do processo, a fiscalização é obviamente pontual, ainda que periódica. Pode-se perceber algum sombreamento entre ambas, mas nem de longe isso deve ser motivo para confusão, porque essencialmente são bem distintas as atividades.


Ocorre, entretanto, que supervisores eventualmente acabem fazendo tarefas muito próximas à fiscalização, pois também verificam aqui ou ali e fiscais façam tarefas de supervisão quando orientam alguma ação no processo. Essa invasão de funções, contudo, não é razão para confusões, pois à rigor são concessões feitas em benefício do sistema produtivo.


Os sistemas de produção especializados são complexos o suficiente para admitir alternativas de solução e múltiplos caminhos de execução, bem como exigem verificações de uma infinidade de subprodutos e subprocessos. Aos poucos o mercado tem percebido a necessidade imperiosa de trabalho colaborativo em prol dos benefícios finais do processo ou projetos. Essa realidade dos trabalhos técnicos complexos exige grandes margens de superposição de ações entre todos os participantes.


Como sabemos atualmente, sistemas complexos não se comportam de maneira compartimentada e determinística. Não é objetivo entrar nessa discussão, mas asseguro que esse sombreamento dos trabalhos de supervisão e fiscalização é natural e, consequentemente, inevitável. Mas isso não retira da supervisão a responsabilidade da condução do processo de execução e nem da fiscalização a responsabilidade pela verificação frente às referências de “verdade”. Muito menos faz com que ambas as atividades dividam tais responsabilidades, pois cada uma tem claramente sua função.


Agora, a título de exercício, suponha que numa festa de família você foi incumbido de acompanhar as crianças à praça da esquina que é cheia de equipamentos como academias ao ar livre, playgrounds, ciclovia etc. Como você se comporta nessa situação? Mais como supervisor, ou mais como fiscal?


E se as crianças fossem engenheiros, arquitetos, programadores, designers etc., a praça fosse a empresa e as brincadeiras fossem o trabalho a ser feito? Você seria um bom supervisor, um bom fiscal ou um bom executor de parte do processo produtivo?


Sua preparação ou vocação para a dança da produção técnico-especializada é de coreógrafo, jurado ou dançarino?

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