Projeto Integrado ou Integral? Que movimento é esse?

Felizmente tem-se falado bastante sobre a integração de projetos, embora, como veremos, essa expressão soe um tanto equivocada ou, no mínimo, estranha. Guardemos essa provocação mais para frente...

Com o advento do BIM, o processo de desenvolvimento do projeto, como objeto de estudo, recuperou um pouco da sua importância. Afinal, são uníssonas as vozes que dizem que o BIM exige mudanças no processo de trabalho, ainda que haja dificuldade de explicar essas mudanças.


Um projeto integrado é tido como aquele que se harmoniza com os demais projetos (nem acredito que estou escrevendo isso, mas tudo pela didática). De fato, uma coisa está integrada quando ela se inclui em um contexto de modo a fazer parte essencial dele. O jogador não se integra ao time quando chega ao clube, mas quando se adapta à sua cultura e ao seu modo de jogo. Integrar é mais que simplesmente estar junto, é compor sistemicamente o resultado.


Um conjunto integrado não é fruto de uma soma aritmética em que cada parcela simplesmente adiciona um pouco. Está mais para uma soma vetorial, na qual o resultado só é obtido por composição e a retirada de uma parcela tem potencial para mudar essencialmente o resultado. Pense num sistema de forças em equilíbrio estático no qual a retirada de uma força gera movimento. Na adição aritmética a retirada de uma parcela apenas reduz a intensidade da soma, mas não lhe retira qualquer outro atributo.


Um projeto integrado, então, não é uma soma de partes, mas uma composição de efeitos. Da articulação dos componentes se produz um resultado específico. Mude um projetista (um componente) e o resultado, em potencial, se altera essencialmente.


Se, na adição aritmética, a ordem das parcelas não altera a soma, na adição vetorial a soma resultante da adição de cada parcela produz efeito essencialmente diferente. Mantendo a analogia do movimento, a ordem em que adicionamos as parcelas altera a trajetória, pois a cada parcela adicionada muda-se a aceleração resultante. (Espero que Newton não se incomode com a analogia).


Considere o projetista de estruturas e o de esgoto sanitário. Junte primeiro um, despois o outro e terá um resultado. Junte primeiro o outro e depois o um e o resultado será ligeiramente diferente. Pense nisso com um conjunto de uma dezena de disciplinas técnicas componentes de um empreendimento. Por mais que haja coordenação, a consideração diferente de cada componente altera o rumo que as ideias de soluções tomam (a trajetória). E aqui nesse ponto percebe-se que esta adição não desconsidera as condições de contorno, assim a soma não será sempre a mesma.


Cada trajetória possível de ser seguida no desenvolvimento de um projeto representa um caminho com diferentes influências de trajeto. Estas influências entram na adição, de modo que a cada caminho corresponde um resultado diferente.


Um projeto integrado é um projeto resultado da composição também destas influências. A forma em que cada componente é adicionado define a trajetória e as influências de trajeto que serão incorporadas.

Um componente com uma influência mais significativa cria o que poderíamos chamar de tendência. Cada tendência significa um desvio em relação a quaisquer outros caminhos possíveis. Ou seja, associada à influência de um componente específico (um projetista) está a responsabilidade pelo desvio em relação aos demais resultados possíveis (cada decisão de projeto tomada, nega existência a outras tantas possíveis). O julgamento deste desvio, se bom ou ruim, ocorrerá no decorrer da trajetória, com o empreendimento em uso, “acelerado” a partir daquela específica resultante (a obra implantada). Corolário disso é que o julgamento do próprio projetista pode ser irrelevante. Uma parcela não tem status para julgar a soma.


Qual o parâmetro para avaliar um projeto integrado?


Antes de responder, talvez valha a pena despertar o leitor para que ele repare que não faz sentido falar de projetos integrados, no plural, como fiz no início. Ora, o projeto integrado é apenas aquele correspondente ao resultado, todos os demais são parcelas dessa soma. Projeto Integrado é apenas um, resultado da composição de todas as disciplinas técnicas. Como costumo dizer: ou é tudo, ou não é projeto. No máximo será uma parcela tendenciosa do resultado, algo que seja integrante e somente possa assumir o status de integrado se analisado em conjunto com todos os demais.


O que ocorreria se todas as parcelas fossem adicionadas simultaneamente? A trajetória seria uma apenas, retilínea e certeira, sem a possibilidade de desvios. Haveria apenas as influências daquele trajeto específico, inevitáveis. Adicionar todas as parcelas simultaneamente é como adicionar apenas a soma uma única vez. As influências de todas as parcelas ocorrem com igual significância. Essa forma de compor gera o Projeto Integral.



O processo gerador do Projeto Integral se parece menos com uma soma vetorial, está mais para uma reação química. Todos os componentes se integram e operam como uma única influência. Por terem igual oportunidade e agirem simultaneamente, o resultado é a melhor combinação das influências de cada parcela. Nenhuma tem significado maior e todas contribuem na justa medida para compor o melhor resultado. O mecanismo dessa combinação não está na adição gradativa de cada parcela, mas na proporção adequada da influência de cada uma para compor o resultado. É uma estequiometria do projeto. (espero que Lavoisier não se incomode com a analogia). Por ser o trajeto retilíneo, a dissipação oriunda das influências de trajeto são mínimas.


Ora, o Projeto Integral é, em teoria, a referência para avaliar o desvio do Projeto Integrado. Mas, em se tratando de uma composição complexa e com características de interação humana (gente é um bicho difícil), o Projeto Integral é um ideal teórico. Isso, entretanto, não impede que o consideremos como referência, mas impede que possamos medir o desvio.


Como saberemos se o desvio é grande ou pequeno, para direita ou para a esquerda, para cima ou para baixo, para mais ou para menos etc.? Basta monitorarmos as influências de cada parcela, ou cada projetista (para abandonar o sentido figurado que usamos até aqui). Se todos os projetistas tiverem a mesma oportunidade de influência e as decisões de projeto forem tomadas num processo que equilibre a dosagem correta de cada argumento, de cada disciplina etc., teremos um processo que conduz o projeto por uma trajetória que o aproxime mais do Projeto Integral.


Percebemos, então, que a atenção que dedicamos ao Processo de Desenvolvimento do Projeto (PDP) não é a que deseja meramente organizar o processo. É a atenção de quem procura o ambiente em que a combinação de influências entre todas as disciplinas é a mais perfeita.


Enquanto não encontramos esse ambiente perfeito, podemos climatizar nosso tudo de ensaio com um bocado de tecnologia, um bocado de processos de negócios, uma boa quantidade de autoconhecimento e desenvolvimento humano (individual e coletivo) e outras coisas necessárias à trajetória do Projeto Integral.


Uma coisa é certa, projetistas lançados neste tubo de ensaio devem experimentar uma operação que vai além da adição ou da composição; trata-se de uma transformação. A substância resultante, a equipe do projeto, é diferente de qualquer substância lançada no tubo de ensaio apesar de surgir delas. Ou nos abrimos à transformação do individual no coletivo, ou nossos projetos, mesmo integrados, sempre manterão um desvio significativo do ideal, integral.