Prazeres: necessários e arriscadamente insuficientes

Tenho lido bastante para um trabalho que pretendo escrever nos próximos meses e, como sempre, ao pesquisar para um assunto me deparo com diversos temas que me despertam para outras questões do meu interesse. Gosto de refletir sobre o desenvolvimento humano (individual e coletivo) e, em torno disso, vários assuntos orbitam. Abordagens filosóficas, sociológicas, psicológicas etc. podem ser construídas neste campo. E eu não dispenso nenhuma delas, ampliando sempre as perspectivas do meu aprendizado.


Me deparei, no livro de Martin Seligman Felicidade Autêntica (2009), com um ponto conceitual que possui relação com diversas questões do desenvolvimento humano. O estudo sobre a felicidade e a vida boa pode ser correlacionado com diversos outros, como a sociedade líquida, o estudo das gerações, os níveis de consciência etc.



O ponto que quero destacar desta obra de Seligman é a distinção entre prazer e gratificação. A partir desta compreensão, o autor nos conduz à conclusão de que os prazeres, embora necessários, são um risco do qual o cidadão contemporâneo tem sofrido impacto. Vejamos...


Os prazeres são satisfações com claros componentes sensoriais e fortemente emocionais. [...] São passageiros e envolvem pouco ou nenhum raciocínio. (SELIGMAN, 2009, p. 162)


Essa é uma das definições que Seligman dá aos prazeres e cita como exemplos, entre outros, êxtase, entusiasmo, orgasmo, conforto.


Naturalmente, a relação dos prazeres com o vício é comentada, incorporando ao conceito a ideia de surpresa. Ou seja, a habitualidade excessiva do prazer tira-lhe o caráter de surpresa, diminuindo a carga emocional que o compõe. A perda do elemento surpresa diminui a percepção da experiência como prazerosa. “O mesmo prazer repetido com frequência perde o efeito” (SELIGMAN, 2009, p. 166).


No que se refere à felicidade, a boa recomendação em relação aos prazeres é o equilíbrio. Deve-se destacar que a busca excessiva do prazer pode conduzir o indivíduo à angústia (pois o prazer perde o efeito pela falta da surpresa) e, consequentemente à depressão.


É importante, entretanto, destacar que o prazer tem papel fundamental na vida boa e na felicidade como uma das bases das emoções positivas a ele associadas. Logo, o ponto ideal está em algum lugar no centro, nem na extremidade da falta, nem na do excesso. Com base nisso, explora-se o savoring, a atenção plena (mindfulness) e as técnicas que facilitam essas experiências como a meditação. Essa é uma outra conversa...


Contudo, ainda que encontrando o equilíbrio, a maior garantia de vida boa e felicidade exige algo além: a gratificação. E aqui surge uma ideia inusitada. Acompanhe...


As gratificações são atividades que gostamos de praticar, mas não são necessariamente acompanhadas por qualquer sensação natural. [...] A gratificação dura mais que o prazer, envolve raciocínio e interpretação, não cria hábito facilmente e está baseada em nossas forças e virtudes. (SELIGMAN, 2009, p. 162)


Apenas para esclarecimento, as sensações naturais são as percepções sensoriais. Ou seja, as chamadas gratificações não precisam nascer de sensações, embora até possam envolvê-las.

Seligman associa por similaridade a ideia de gratificação ao conceito de flow construído por Czicyzentmihalyi (pode ser que o leitor precise pesquisar sobre esse conceito, caso não o conheça ainda) e reforça:


A concentração total, a suspensão da consciência e a plenitude – o flow – que a gratificação produz é que definem o gostar dessas atividades, não a presença do prazer. (SELIGMAN, 2009, p. 176)


E complementa:


Na verdade, a imersão total bloqueia a consciência, e há uma completa ausência de emoções.

Essa distinção é a diferença entre a vida boa e a vida prazerosa. (SELIGMAN, 2009, p. 176)


Nesse contexto é que o autor correlaciona o flow com o conceito de eudaimonia de Aristóteles, associando à atividade de flow de cada indivíduo a possibilidade de plena realização da sua essência. Para estabelecer essa correlação, Seligman recorre à ideia das forças individuais (Forças de Caráter) e das virtudes.


É nas gratificações que se evolui acumulando o que ele denomina capital psicológico, aquilo que você acumula ao longo da vida, uma vez que os prazeres são efêmeros. Os prazeres são uma espécie de consumo do capital psicológico, enquanto o flow das gratificações são os geradores de riqueza, ou de capital psicológico. Sem essa geração de capital, o prazer nos consome até o fim, impedindo que experimentemos emoções positivas, vitais para a felicidade.


É interessante essa ideia de uma economia baseada em riqueza psicológica, ainda que usada como mera analogia e retórica.


Nessa distinção entre prazer e gratificação, Seligman aponta de passagem algumas questões:


1- a evolução tecnológica que nos proporciona muitas facilidades para busca do prazer, podendo agir como vetor de excessos,

2- e a correria do mundo contemporâneo como empecilho para uma apreciação mais atenta do presente e, portanto, usurpadora de momentos para pequenos prazeres.


Estes problemas apontados rapidamente estão diretamente relacionados com as questões da sociedade líquida, da transformação digital, dos problemas nas gerações etc.


Mantendo a analogia, a evolução tecnológica atua eventualmente como uma espécie de inflação inercial na economia baseada na riqueza psicológica; quanto mais se potencializa o consumo do prazer, mais escassa é a produção de capital psicológico.


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