O que fizeram com o Anteprojeto?

Este texto aborda um ponto que me incomoda desde quando comecei a lidar com empreendimentos e contratantes de maior porte, notadamente a indústria (e isso já tem uns bons anos). É certo que neste meio, ou para este meio, produz-se inúmeros avanços em diversas áreas, entre elas as gerenciais. Organizações de menor porte normalmente não se adaptam às metodologias gerenciais das grandes corporações por não demandarem níveis de formalização e controles tão rigorosos. Não que as pequenas empresas não tenham gestão bem desenvolvida, mas os níveis de complexidade da sua operação e, sobretudo, dos seus investimentos/projetos permitem planejamentos e controle eventualmente mais simples.


Na realidade, tenho a impressão de que a grande diferença é a distância (em sentido figurado) que a gestão (direção) tem da operação. As empresas menores exigem menos estrutura administrativa porque assistem à produção presencialmente. Não há grandes distâncias, mesmo físicas, entre suas áreas administrativas e produtivas. É comum que dividam o mesmo espaço, ou pelo menos o mesmo edifício. Estratégia, tática e operação estão sempre muito próximas.


O fato é que numa pequena empresa, o gestor, quando em dúvida sobre alguma decisão, pode visitar a linha de produção e viver a realidade que precisa mudar. Nenhum relatório permite esse poder de percepção numa grande empresa.


Nas grandes corporações, além das distâncias, há uma necessidade de terceirização que delega uma boa parte dos seus problemas. Isso (a terceirização de problemas), inclusive, é tido na bibliografia como alternativa de solução gerencial para algumas situações. Obviamente, numa grande organização, o trabalho é tanto e tão diversificado que é inviável hoje que ela se ocupe de todos os seus pequenos problemas; a solução é contratar uma infinidade de fornecedores enquanto se dedica ao seu negócio essencial. Exemplo claro é a indústria de mineração que contrata tudo que precisa, enquanto se ocupa de extrair minério. E isso não me parece um equívoco.


Nesta condição, as grandes corporações se afastam de uma série de processos mais operacionais necessários para que as coisas aconteçam e, neste afastamento, perdem um pouco a percepção da realidade deles. Mas, como recebem os resultados destes processos, mantêm esses resultados como imputs nos seus processos mais amplos.


O desenvolvimento dos projetos de engenharia é o caso que me incomoda. Como já fui projetista e coordenador de projetos pelo lado dos fornecedores deste serviço, mas também coordenador e gestor de projetos pelo lado dos contratantes (a indústria), senti na pele a realidade de cada lado. E foi desta dupla percepção que o incômodo nasceu.


Como projetista sempre me dediquei a estudar o Processo de Desenvolvimento do Projetos (PDP). Isso englobava a busca por recursos metodológicos para gerenciar esse processo de produção (afinal entrega um resultado bem específico). E foi natural encontrar os conceitos de Engenharia Sequencial e Engenharia Simultânea, bem como técnicas e ferramentas que apoiassem a gestão desses processos. As próprias normas da ABNT trazem conteúdos bastante úteis para estruturar gerencialmente o trabalho.


Mais tarde, já mergulhando no universo do Gerenciamento de Projetos, outras tantas alternativas de recursos gerenciais surgiram. Mas algumas pareciam ser aptas apenas aos grandes empreendimentos, pois exigiam conhecimentos, habilidades e tempo. A superalocação dos profissionais em uma pequena empresa torna o tempo um recurso extremamente escasso. Todos conhecem aquela história de cobrar o escanteio e cabecear a bola ao mesmo tempo.


Meu contato com metodologias usadas nos proprietários dos grandes empreendimentos trouxe uma grande interrogação: o que foi feito do anteprojeto nessas metodologias? Esse contato começou com a metodologia FEL (Front End Loading). É importante deixar claro que o que segue não é uma crítica à metodologia. Pelo contrário é uma constatação que tenta exatamente explicar a razão do incômodo, justificando-o.


O Anteprojeto é uma das etapas previstas no processo de desenvolvimento de projetos de engenharia (claro que arquitetura também se enquadra), mas que anda meio esquecida. A maioria das boas bibliografias prevê essa etapa imediatamente antes do Projeto Básico (este sim, bem conhecido); às vezes antes ou simultânea com o Projeto Legal. O importante aqui é perceber que ela está entre os Estudos Preliminares e o Projeto Básico.


As metodologias de gestão dos grandes empreendimentos, no ponto de vista do proprietário, como é a metodologia FEL, costumam dividir o desenvolvimento do projeto de engenharia em Engenharia Conceitual, Engenharia Básica e Engenharia Detalhada, ou, para padronizar termos: Projeto Conceitual, Projeto Básico e Projeto Detalhado. Outros entes proprietários, como o DNIT, variam nomenclaturas, mas costumam repetir a sequência de etapas.


Se fizermos uma comparação das descrições de cada etapa, veremos que a relação entre as etapas do Processo de Desenvolvimento de Projeto (PDP em nível operacional) e o Processo de Gestão do Projeto (com o FEL, por exemplo) é:



Nos limitamos a mostrar as etapas onde se encontra a incômoda ausência do Anteprojeto. O PDP tem mais etapas e a gestão dos empreendimentos também.


A seguir incluímos um quadro com os objetivos de cada etapa do PDP citada acima. Não cabe aqui descrever detalhadamente o PDP, mas esse quadro é importante para a análise seguinte.



Refletindo e questionando esses quadros, somos levados a uma análise e conclusões sobre o porquê das metodologias de gestão da implantação de empreendimentos, por parte de proprietários, não contemplarem o Anteprojeto. Mais que isso, podemos explicar por que as próprias empresas de projeto não o consideram mais em suas metodologias de trabalho.


Reparem que no Anteprojeto a alternativa selecionada nos Estudos Preliminares é desenvolvida até ter sua conceituação e dimensionamento concluídos, bem como a compatibilização entre todas as disciplinas técnicas (que, afinal, faz parte da concepção). Esse conteúdo, entretanto, é mais bem preparado para apresentação, apenas no Projeto Básico. Ou seja, o Projeto Básico, a rigor, não é uma evolução da concepção, mas muito mais um aprimoramento da apresentação.


É claro que, na prática, nada é tão estanque como apresentado nas teorias (o ambiente de criação tem lá a sua complexidade e sua dose de arte). É comum que haja alguma evolução da concepção de soluções no Projeto Básico, mas isso se deve (ou deveria) a questões que surgem com o detalhamento e raramente afetam a concepção geral e o dimensionamento das soluções, ou mesmo sua compatibilização.


Vale destacar de passagem que com o BIM (Building Information Modeling) isso ficou bastante claro, pois a modelagem das soluções é tratada quase que de forma