O desafio da governança

Falamos de governança corporativa há alguns dias num outro texto onde estabelecemos sua definição como um sistema que garante às organizações atingirem suas metas, interesses e necessidades ao se envolverem em cadeias de relações, rumo ao seu compromisso de entregar um objeto ou objetivo à sociedade. Esse sistema garantidor de governabilidade é constituído por normas, padrões, métodos, tecnologias e tudo o mais que possa contribuir para garantir os objetivos sociais de forma justa, transparente, responsável e controlada.


É praticamente explícito que precede à governança um grande esforço de normatização como parte do sistema de governabilidade (lembrando que o termo deve ser tomado para além da sua usual interpretação na esfera meramente política).



O sistema de produção de uma organização opera processos produtivos (principais) e processos de apoio que, em si, já são suficientemente complexos para qualquer esforço de normatização. Um sistema que produza de forma controlada e previsível exige mais que os processos de produção, mas também a sistematização dos processos de gestão (planejamento e controle). Assim, percebe-se que chegar a um bom nível de governança não é nada fácil. Pelo contrário, é extremamente desafiador. Um desafio constante tão exigente quanto maior for a complexidade dos processos de negócio da organização.


Mas a governança envolve uma necessária cadeia de relações (econômicas, normalmente). Ou seja, por mais que possamos pensar numa governança interna em uma organização, precisamos contemplar a governança de suas relações com terceiros (sobre os quais não se tem efetivo poder de ação). Isso agrava a complexidade dos sistemas de governança e o esforço necessário para criá-los e mantê-los.


Podemos pensar em dois grandes desafios para a governança, cada um deles impactando em algum aspecto a forma como as relações entre as organizações acontecem. Estes impactos tendem a abalar o sistema de governança, que deve promover um equilíbrio a cada nova relação estabelecida, sem prejudicar os equilíbrios das relações pré-existentes. Ou seja, a governança deve ser sustentável, no sentido de que o atual sistema deve ser flexível o suficiente para abarcar novas relações no futuro.


O primeiro desafio é a variedade de produção. Cada organização produz algo diferente e, portanto, tende a estabelecer normas reguladoras diferentes, focadas em suas necessidades de governabilidade. Mas, quando se estabelecem relações, a forma de trabalhar de uma organização deve se integrar à da outra de forma harmoniosa, promovendo justiça e transparência para que ambas cumpram sua missão. Isso quer dizer que o sistema de governança de uma deve se integrar ao sistema de governança da(s) outra(s).


Imagine que uma organização possua um processo produtivo em quatro etapas e uma outra adquira seus serviços, mas deseje remunerá-los em três etapas. Como efetivar essa integração garantindo que ambas tenham seus interesses atendidos? Numa relação de compra e venda parece ser um tanto lógico que o vendedor se submeta às condições do fornecedor (embora nem sempre a lógica seja essa). Mas nem toda relação é de compra e venda. E mesmo assim, o conflito dos sistemas de produção pode colocar em risco a qualidade do resultado e, neste caso, mesmo a organização compradora está em risco.


No aspecto da produção, manter várias linhas de produtos ou serviços, vários fornecedores, ou vários clientes, torna a governança mais desafiadora. E essa é a realidade de praticamente a totalidade das organizações.


O segundo grande desafio da governança são as pessoas, sobretudo os gestores. Quanto mais alto na hierarquia, maior a possibilidade de ser um desafio à governança, pelo fato de ter mais poder para impor procedimentos não planejados ou não previstos no processo de negócio. Cabe aqui a expressão “inventar moda”. Moda é aquilo que todos usam e é uma ideia bem aderente à existência de um sistema de governança. Mas, quando um gestor inventa de fazer algo que fuja ao normal da governança, ainda que benéfico para a organização, ele desestabiliza o sistema. Os profissionais devem estar atentos às exigências do sistema de governança para cuidar das variações não planejadas. Quando forem necessárias, os profissionais devem estar atentos para que sejam desenvolvidas em conformidade com o sistema de governança, ou para que o sistema seja atualizado de forma a se manter harmonizado.


Não vamos aqui refletir sobre a possibilidade de uma pessoa deliberadamente burlar o sistema de governança. Essa prática normalmente é tratada num capítulo à parte do sistema de governança chamada compliance. O desafio da governança que referimos não é conter as eventuais intenções para burlá-lo (ainda que precaver isso seja mesmo um desafio), mas conciliar a governabilidade com as flutuações de opiniões, comportamentos, interesses, estratégias etc. dos gestores.


O sistema de governança deve ser rígido o suficiente para garantir o controle, a justiça, a equidade e a transferência nas relações, mas flexível para permitir o estabelecimento de diversos tipos de relações pela organização.


De forma prática e objetiva, esses desafios nos expõem o dilema entre a estratégia da organização e a execução desta estratégia. A vontade dos gestores de alto escalação se manifesta mais expressivamente nas decisões estratégicas. Mas a execução destas estratégias é levada a efeito através de relações com outras organizações (contratos, parcerias, convênios etc.).


Temos, então, gestores, processos de negócios (organização) e a produção dos objetivos sociais (relações com a sociedade) formando um sistema de equilíbrio quase instável, regulado pelo que chamamos de governança. Este sistema é tão mais estável quanto melhor, mais robusto e eficaz for o sistema de governança.


Governança é, portanto, um desafio de equilíbrio complexo, vital para que as organizações não tendam ao caos em suas relações. Porque a decisão é esta: ou você administra o acaso, ou administra um sistema de governança. Percebe a diferença entre governar e deixar a vida te levar?

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