Ninguém é insubstituível: trocar seis por meia dúzia é só na matemática

Pense bem, se cada pessoa é única, aquele ditado sobre ninguém ser insubstituível precisa ser bem entendido. É fato que, numa equipe de trabalho, se uma pessoa sai, precisamos colocar outra no lugar. Mas estamos ocupando um cargo ou função com outra pessoa. A substituição não é por um igual, mas por outro, diferente. Se fosse trocar por um igual, seria reposição e não substituição.



Um sistema de trabalho constitui-se de uma estrutura física, uma processual e uma cultural (pessoas). São as dimensões ou pilares do desenvolvimento organizacional, imbricadas entre si. Mexer numa impacta as outras duas. Logo, se uma pessoa sai, isso abala inevitavelmente o sistema estabelecido. É preciso buscar um novo equilíbrio que incorpore o substituto que virá ocupar a posição da anterior.


Se uma organização passa por mudanças múltiplas de equipes, os abalos se somam e o sistema de trabalho, ao final, será diferente do anterior. Mas a organização continua produzindo resultado similar ou semelhante. Como explicar que sistemas de trabalho diferentes produzam o mesmo (ou quase o mesmo) resultado?


Primeiro é preciso entender que o resultado nunca é idêntico. Mesmo com uma equipe fixa, o sistema de trabalho se ajusta no tempo e no espaço. Por espaço devemos compreender o contexto, o ambiente em que o sistema de trabalho opera. E, como se sabe há milênios, o mundo muda o tempo todo.


Aliás, esse é o ponto: o sistema nunca é o mesmo e o resultado também não. As linhas de produção nos deram essa ideia de que o resultado da produção é padronizado, mas a cada dia que passa a tendência da personalização dos resultados se consolida. É o sistema de trabalho se ajustando e produzindo resultados diferentes, mas cada sistema na sua escala temporal e no seu contexto mercadológico. A economia baseada em serviços (resultados únicos) é um sinal da migração dos sistemas de trabalho, antes baseados em produtos (resultados iguais). Numa sociedade cada vez mais digital, esses ajustes são tão frequentes que chegam a ser naturais.


Contudo, fomos adestrados (o uso do termo é proposital) a pensar deterministicamente. Aprendemos leis físicas, químicas e matemáticas e somos induzidos a levar esse lastro aparentemente determinístico a todos os nossos pensamentos. Temos dificuldade para pensar em modelos variáveis, padrões mutáveis etc.


O mundo muda, as pessoas mudam, os sistemas de trabalho de ajustam e assim o progresso ocorre (ainda que retrocedendo eventualmente antes de avançar).


Essa consciência de modelos mais complexos que consideram as variabilidades e operam com diretrizes probabilísticas, mantendo uma flexibilidade (agilidade seria também um termo interessante aqui), é um paradigma importante para a gestão contemporânea. Gestores que tentam fazer das empresas fenômenos que obedecem a rígidas leis comprovadas empiricamente pensam num paradigma excessivamente cartesiano ou científico. Com pessoas, as experiências nunca se repetem, cada momento é inédito. Organizações são constituídas por pessoas.


Organizações (públicas, privadas ou de qualquer natureza) são sistemas cuja complexidade se apresenta numa escala diferente da natureza. A variabilidade do nível médio do mar se manifesta em anos, décadas, séculos. Já a variabilidade dos sistemas de trabalho se manifesta a cada mudança cotidiana, como a substituição de uma pessoa (relações e cultura), ou a substituição de um sistema de informações ou ferramenta (processos), ou a mudança de lay out (estrutura física), ou ainda a substituição do mundo em que opera (o que ocorre o tempo todo).


Gestores precisam estar atentos a essas variabilidades e aprender a conviver e se adaptar rapidamente a elas. Essa é uma característica da tão aclamada gestão ágil. Se um evento significativamente impactante ocorre, a adaptação do sistema de trabalho deve ser rápida para que os resultados mantenham a eficácia, embora sejam inevitavelmente diferentes. Falamos aqui de ajustes que mantenham o nível de desempenho, que se somam aos ajustes normais para melhorias.


Enfim, é verdade que qualquer pessoa é substituível. O que ocorre é que os sistemas precisam ser adaptáveis às variabilidades advindas das substituições. Pessoas vão e vem, processos são alterados, relacionamentos são reconstruídos e o ambiente “externo” pressiona de forma diferente a cada instante. A mudança é permanente, seja ela iniciada por pessoas, processos ou até estrutura física.


Só nos resta gritar “TOCA RAUL!” e continuar preferindo ser uma metamorfose permanente. A mudança só dói para quem não quer mudar. E a Terra não vai parar!

Featured Posts
Recent Posts
Archive
Search By Tags
Follow Us
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square
© Copyright  2018 por Renê Ruggeri Engenharia e Consultoria Ltda. Desenvolvido por Navii Inteligência Digital