Falhas no Projeto AEC: o que são e o que não são.

A importância do Projeto AEC


É óbvio que a maior parte do orçamento na implantação de empreendimentos é consumida na execução das obras. E é claro também que durante as obras as questões a serem resolvidas são efetivamente concretas, estão a olhos vistos, como se diria. Estas são algumas das razões pelas quais há uma tendência, por parte de proprietários e contratantes, a dar mais atenção às questões de obra que às questões de projeto. Há quem defenda que isso é natural, pois na execução qualquer variação pode significar milhares ou milhões de reais. E é, também, onde os resultados são palpáveis para proprietários e contratantes.


Esta é, de fato, uma visão comum nos meios leigos quando o tema é a implantação de empreendimentos. Mas há outros fatos, mais técnicos, que refletem com mais veracidade a realidade e ficam camuflados para os leigos. Vejamos...


As estatísticas mostram que metade dos custos com problemas em obras são decorrentes de falhas no projeto AEC (Projeto de Arquitetura, Engenharia e Construção). Isso é um fato significativo. Mas, mais significativo que isso é o fato de que setenta por cento dos custos da obra são definidos pelo Projeto AEC. Os demais trinta por cento são definidos por decisões ou circunstâncias no contexto da execução. O projeto especifica materiais para a solução dada, mas é o contexto da obra que define como serão armazenados, por exemplo. Obviamente, o custo dos materiais regularmente é bem maior que o custo do seu armazenamento.


Repare que a entrega que define setenta por cento do custo da obra, o projeto, onera o empreendimento em cerca de cinco por cento do seu valor (na realidade o mercado tem remunerado pelo projeto, em geral, menos da metade disso). Já a gestão da execução da obra, que responde por trinta por cento do custo do empreendimento, onera em aproximadamente quinze por cento (custo gerencial médio da execução da obra). Os números não precisam ser exatos, o que importa é a ordem de grandeza.


Não se assunte a relação é mesmo esta: paga-se menos de 5% por algo responsável por 70% do custo da obra, e 15% por algo que responde por 30% do custo da obra. Mas há alguma lógica nisso, pois a gestão da execução das obras é a responsável pela aplicação e controle de cem porcento do valor da execução. Ela, a gestão de obras, executa os 70% definidos no projeto e projeta e executa os 30% definidos por ela mesma. É razoável que onere seus 15% no empreendimento, enquanto o projeto onere 5% (lembrando que, na prática, costuma ser menos da metade disso).


Esta introdução visa justificar, para proprietários e contratantes, a necessidade de atenção dada às questões da obra e alertar para a criticidade de dar mais atenção às questões do projeto (onde e define 70% do custo da implantação). Mas, talvez por não ser tão palpável e não doer tanto no bolso, o projeto, historicamente, vem sendo relegado a um lugar quase secundário por muitos empreendedores. E o preço desta negligência tem sido cobrado no momento da obra na forma de atrasos, custos adicionais (superiores aos menos de 5% do projeto), stress etc.


Aproveitando-se deste cenário (e ampliando-o), construtores desavisados tem colocado na responsabilidade do projeto diversos problemas que são na realidade causados pela própria obra ou até pelo proprietário, contratante, empreendedor etc. E aqui percebe-se uma falha usual do processo de implantação que é o não acompanhamento da execução por parte dos projetistas. Na prática, pratica-se um isolamento entre o Projeto AEC e a execução de obras, embora ambos sejam subprojetos do empreendimento. Mas é importante frisar que isso não é falha do Projeto AEC, mas falha do processo de gestão da implantação. Portanto, se for para responsabilizar alguém, é falha do empreendedor.



O que é o Projeto AEC?


Para enxergar e compreender esse cenário é preciso entender precisa e consistentemente o que é o Projeto AEC (compreensão esta que, surpreendentemente, é rara no meio). Não é difícil, mas exige sincero desapego de posicionamentos preconceituosos nessa cadeia produtiva e uma análise criteriosamente fria, o que sabemos ser muito, muito difícil, sobretudo quando os players estão focados em obter vantagens antes mesmo de efetivar soluções.


Já tratamos desse tema especificamente em alguns textos (veja os e-books de coletâneas de textos disponíveis no site www.reneruggeri.com). Tentemos resumir...


Inicialmente é preciso entender que o Projeto AEC, como conjunto de documentos, é o resultado de um processo tão longo e complexo quanto é o próprio empreendimento. É um equívoco comum pensar o Projeto AEC apenas como o conjunto de documentos, quando sua essência está no processo do seu desenvolvimento. Um Projeto AEC será tão qualificado quanto for o seu processo de desenvolvimento. Profissionais altamente qualificados não garantem a qualidade do resultado se o processo for ruim.


O Projeto AEC resulta de um processo baseado em informações. Informações entram ao longo do processo que gera como saída outras informações devidamente documentadas. Se entrarem informações de baixa qualidade ou se faltarem informações (o que é mais comum do que se imagina), os resultados estarão fatalmente condenados.


O problema e a contratação da solução


O processo do projeto é fundamentalmente um processo de resolução de problemas. Todo Projeto AEC caracteriza um produto criado para resolver uma situação problemática específica.

Decorre, porém, que se o problema estiver mal caracterizado, o processo produzirá uma boa solução para o problema errado (pois foi mal definido em princípio). Ora, a primeira definição do problema é feita pelo contratante, que deve estabelecer, além do problema em si, requisitos a serem atendidos pela solução projetada.


Assim, já que durante a execução das obras o confrontamento do real problema é inevitável, a solução dada para um problema mal definido se mostrará inadequada. Isso não é falha do Projeto AEC, mas falha na sua contratação, especificamente na definição do escopo e dos requisitos a serem atendidos.


Não é à toa que nas primeiras etapas do processo de desenvolvimento do projeto sempre há levantamentos de informações e estudos técnicos preliminares específicos. A questão é que o processo deve prever escopo, prazos e custos apropriados à complexidade do problema a ser resolvido. Se o problema não está bem definido, a contratação provavelmente não estará também.


Um dos erros mais comuns nesse ponto é que o contratante, ao solicitar uma proposta comercial, já insinue equivocadamente uma solução ao projetista, definindo-a como escopo do trabalho. Ora, o principal escopo de um projeto é encontrar a solução para o problema. Se o contratante não elaborar bem a descrição do problema, ao projetista só resta acatar (contratualmente, inclusive) a solução insinuada pelo contratante. O problema não está no Projeto AEC, mas na definição do problema pelo contratante, que não foi adequadamente feita porque este se concentrou em já definir uma solução baseado em impressões e interesses subjetivos e não em análises mais aprofundadas. Essas análises para melhor definição do problema, por sua vez, exigem preparo técnico e ponderações abrangentes sobre o contexto. Não são simplórias em geral.