BIM e a questão da responsabilidade técnica

Pensei em dar o título de “Ainda to BIM or not to BIM” a esse texto, mas acho que poucos entenderiam. Então fui mais objetivo.


Tem sido bastante discutida, neste início de 2021, a inserção do BIM nos documentos de responsabilidade técnica emitidos pelos profissionais junto aos conselhos de engenharia e arquitetura. É interessante notar o quão o entendimento sobre o BIM ainda é frágil no mercado, ainda mais nestes seus aspectos menos técnico-operacionais.


No segundo livro da coleção que publiquei no final de 2020 (disponível gratuitamente no meu site em https://www.reneruggeri.com/store) há um texto cujo objetivo é exatamente explicar o que é o BIM num ponto de vista mais geral e menos vinculado às questões operacionais ou produtivas dele. Talvez pudéssemos dizer numa visão mais filosófica. E é exatamente isso que penso faltar nas discussões sobre BIM, mesmo entre os especialistas, uma visão mais clara do que significa de fato o BIM para o momento de transformação que a sociedade vem experimentando.


Todos querem explicar como o BIM acontece ou como ele deve ser desenvolvido. Querem explicar como trabalhar com BIM, como se ele fosse algo definível com facilidade. Nesse intuito colocam o BIM como tecnologia, como processo, como metodologia, como plataforma etc.


Penso, como colocado no texto referenciado, que ele induza isso tudo, mas simplesmente não seja nada disso isoladamente. A ideia BIM é complexa o suficiente para contemplar todos esses aspectos sem se limitar a nenhum deles. Para entendê-la é preciso sair dos limites da arquitetura, da engenharia ou da própria tecnologia; talvez seja essa a principal dificuldade.


Nesse ponto, recomendo fortemente que você pare aqui. leia o texto citado (baixe gratuitamente o Livro II – Paradigma BIM no site) e retome a leitura posteriormente. Isso não é mera propaganda (eu não me daria a esse trabalho), mas é necessário. BIM, em meu entendimento, é exatamente o que o título do Livro II indica, um paradigma. E aqui reside um novo desafio: o que é paradigma e porque ele e mais abrangente que todas as categorias com as quais se classifica o BIM por aí?


Se você leu o texto indicado, já percebeu que o termo paradigma é um termo caro para o pensamento em geral. Há inúmeros significados para ele, a maioria deturpando um pouquinho sua essência. Dizem que são sinônimos, mas nem vale a pena entrar nessa discussão semântica. Os relativistas adoram apelar para a tal “língua viva” para se justificar. Nesse caso, seria preciso explicar a eles o que se deve entender por “língua viva”, ou por sentido denotativo, mas seria outro texto. O fato é: o termo paradigma tem uma essência própria que induz seu entendimento (e acaba explicando os usos denotativos e porque nenhum deles é adequado ao entendimento no sentido inverso). Para entender o que é BIM, é preciso entender o que é paradigma. O texto indica, para isso, o livro de Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, um clássico sobre o tema. Se tiver curiosidade, recorra a ele. Procure no Google, certamente encontrará. Mas se prepare para uma leitura um pouco mais complexa que os textos sobre BIM, ou você imagina que para explicar algo complexo como o BIM há um pensamento elementar?


Dito isto, voltemos à questão da relação entre BIM e a responsabilidade técnica dos profissionais. Discute-se por aí se faz sentido que haja previsão de atividades técnicas específicas para BIM para constar nos tais documentos de responsabilização técnica (ART ou RRT). A preocupação não é a responsabilidade, mas a atestação de competência para o BIM. É uma preocupação genuína e importante. Vale um bom debate, mas fatalmente nos levaria a discutir a forma de comprovar tais capacidades profissionais. Não é esse o foco aqui.


Por exemplo: faz sentido anotar a elaboração de projeto feita em BIM como uma atividade diferente da elaboração de projeto feita em CAD, ou na prancheta?


Se você consegue entender o BIM como paradigma, a resposta é clara, talvez quase evidente: um grande e sonoro SIM!


Não sei se reparou, mas estamos, na realidade, discutindo novamente a pergunta inicial: o que é BIM? Mas dessa vez não são meia dúzia de especialistas e um bando de aprendizes, é um bando de especialistas. Veja bem, o mercado de especialistas em BIM discute um tema que decorre quase que imediatamente da compreensão daquilo em que são especialistas. É no mínimo estranho, pois, como especialistas não deveria existir essa discordância. Conclusão: estamos todos aprendendo ainda o que é BIM.


Se você entende BIM como ferramenta, como processo, como metodologia ou qualquer desses significados reducionistas, talvez você tenha dúvidas sobre seu uso como uma atividade diferente. Mas se conseguiu perceber que o BIM tem status de paradigma no universo da construção civil, é claro que vai entender que ele é mais que essas coisinhas triviais do dia a dia laboral que vivemos como profissionais da área.



Tentarei ser didático com alguns exemplos. Primeiro: pensar a mecânica com as Leis de Newton é similar a pensá-la com a Teoria da Relatividade? Segundo: comunicação com internet é similar à comunicação por textos em papel? Terceiro: usar um computador em DOS é semelhante a usar um computador com Windows? (Talvez alguns perguntem o que é DOS, sugiro novamente o Google). Quarto: viver sem celular é parecido com viver com um à mão cheio de aplicativos? E por aí vai...


Há coisas que causam impactos tais que transformam, num nível essencial, a forma de pensarmos, produzirmos e nos comportarmos. São coisas que não acontecem do dia para a noite, demoram um tempo para serem bem compreendidas e assimiladas no dia a dia por uma massa significativa de pessoas, a ponto de transformar a comunidade/sociedade. Mas há um mundo antes delas e outro, depois. Isso tudo são paradigmas! (Será que o COVID é um paradigma? Pense aí...). Novos paradigmas, substituem paradigmas anteriores. Se você leu Thomas Kuhn sabe que eles coexistem (às vezes em disputas) por um bom tempo. E podem ser setoriais, paradigmas de uma comunidade específica de pessoas ou profissionais.


Ora, se o BIM for entendido como novo paradigma, então trabalhar com BIM é uma coisa e trabalhar sem ele, com o paradigma anterior, é outra. Faz sentido distinguir ambas as atividades enquanto coexistem. Com o tempo, o paradigma anterior virará história e alguns profissionais mais antigos serão bem remunerados para traduzir coisas feitas com base nele.


Mas como classificar se uma atividade foi feita no paradigma BIM ou não, para merecer o uso da tal categoria acrescentada aos sistemas dos conselhos profissionais? Ah, essa é uma boa pergunta. Para respondê-la é preciso entender a essência do BIM, pois a atividade que carrega essa essência merece a classificação, as demais, não. Será que teremos a capacidade de definir isso atualmente? Uma coisa é perceber que há diferença, outra coisa é conseguir mensurá-la ou identificá-la. Pense aí, qual é a essência do BIM? Aquilo que não muda independente de dele estar em uso intenso ou num uso ainda tímido? Se sabemos o que é BIM, temos que saber identificar essa essência.


Se você observar e refletir, verá que há outros paradigmas em várias áreas em processo de consolidação neste período que temos vivido. Não é à toa que falamos de sociedade líquida, aquela que se transforma a todo instante. Iludido aquele que considera a tal transformação digital como um fenômeno de tecnologia. A situação é similar à do BIM, o iceberg é maior na parte submersa. E há muitos outros conteúdos paradigmáticos passando por processos semelhantes. Falo sobre isso no Livro III – Filosofia e Desenvolvimento Humano, na mesma coletânea distribuída gratuitamente no site (agora sim, foi propaganda...rs...).

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