Auditoria de Projeto e Design Review: forma, conteúdo, norma e conceito

Praticamente em tudo que adquirimos, verificamos antes de fechar o negócio. Você faz isso no provador de uma loja de roupa, ou no test drive com um veículo. Quanto mais dispendiosa a aquisição, ou mais crítica para um uso futuro, mais rigorosa costuma ser a verificação.


Se fazemos isso na loja de sapatos, na barraca da feira, no vinho do restaurante, na concessionária de carros, na imobiliária etc., por que não faríamos com os projetos de arquitetura e engenharia (Projetos AEC)? Aliás, talvez a pergunta melhor seja: por que não fazemos com Projetos AEC? Pois, de fato, não temos o costume de verificar Projetos AEC com o rigor que o investimento que decorre dele exigiria. Não se trata de um conjunto qualquer de documentos, mas um conjunto que estabelece os parâmetros para um investimento futuro bastante dispendioso.


Pense bem: você dedica o mesmo esforço na verificação de um Projeto AEC que dedica à inspeção de um carro seminovo? Repare que são aquisições cujos valores são da mesma ordem de grandeza (algumas dezenas de milhares de reais).


Ocorre que você usa carros regularmente e, portanto, tem algum conhecimento para inspecioná-lo, ainda que seja leigo. Ou então, você recorre a fornecedores com amplo reconhecimento no mercado. Ou, ainda, recorre à ajuda de especialistas em carros. Já, no Projeto AEC, não é comum ter conhecimento (pois quem o usa é o construtor), os fornecedores não oferecem o mesmo nível de garantias que uma loja de carros e recorrer a especialistas nem é pensado como alternativa normalmente.


A conclusão imediata é de que devemos verificar um Projeto AEC com extremo rigor antes de aceitá-lo. E essa verificação exige conhecimento específico, técnico, profundo e abrangente. Para isso existe o serviço de auditoria de projeto. É o equivalente a recorrer a especialistas.


A auditoria, sem rodeios nem floreios, consiste, em essência, em verificar se uma certa coisa atende aos condicionantes definidos em uma referência. Essa coisa pode ser um carro ou um conjunto de documentos (o Projeto AEC). As referências para subsidiar a análise na verificação podem ser suas expectativas quanto à conservação e acessórios do veículo, ou um conjunto de requisitos normativos a que deve atender um Projeto AEC.


Veja só que é fundamental, para uma auditoria, que se tenha bem definido a coisa a ser verificada (o objeto da auditoria) e as referências a serem consideradas. Repare também que, no Projeto AEC, a verificação normalmente não é por um checklist elementar, pois exige interpretação tanto do objeto quando das referências.


Nesse sentido, é possível pensar em rigores diferentes a serem aplicados. Pode-se exigir atendimento a cada vírgula da referência, ou pode-se admitir um atendimento mais genérico aos requisitos estabelecidos. Claro, é possível usar referências mais exigentes ou menos exigentes. Conforme muda a referência ou o rigor do auditor, um mesmo Projeto AEC pode ser considerado “conforme” ou “não conforme”.


Seria ainda possível classificar tipos de não conformidade e estabelecer níveis mínimos para aprovação numa auditoria, mas deixemos essa escala de valores e quantificação de lado por enquanto.

Posso propor aqui, para ilustração didática, pelo menos quatro níveis de verificação do Projeto AEC.



No nível 1, que eu chamaria de Auditoria de Forma, verifica-se apenas se o conjunto de documentos que compõem o Projeto AEC é compatível com um conjunto referencial de documentos. Esse conjunto referencial pode expressar requisito mínimo, ideal ou adequado (ou os três). Ou seja, a análise consiste em avaliar em que grau o conjunto de documento do Projeto AEC auditado é similar ao conjunto referencial. É preciso saber interpretar esse conjunto de documentos, por isso é um trabalho técnico especializado.


O nível 2, Auditoria de Conteúdo, corresponde a uma análise para avaliar se o que consta nos documentos do Projeto AEC atende ao que está estabelecido como conteúdo no referencial da auditoria. Mais uma vez, pode-se graduar em mínimo, adequado e ideal este conteúdo. Aqui, além de interpretar o conjunto de documentos, é preciso interpretar detalhes dos seus conteúdos. A análise exige mais conhecimento técnico especializado do auditor.


O nível 3 é a Auditoria Normativa (não gostei desse nome, mas foi o melhor que achei para ficar didático). Nesta análise não está em jogo se o conteúdo do Projeto AEC confere com o que se espera, mas se atende às prescrições que certas normas exigem, normalmente normas técnicas. A análise é rigorosamente técnica, especializada e multidisciplinar. É preciso interpretar as normas, sobretudo naquilo que é exigência ou recomendação, caso contrário, pode-se confundir um critério ou opção de projeto com uma não conformidade normativa.


É interessante reparar que cada nível engloba o anterior necessariamente. Normalmente não há condição de se concluir se uma solução de projeto atende ou não a uma norma técnica se estiverem faltando documentos que a caracterizam ou se estiverem faltando informações nos documentos existentes. A tendência é concluir que não atende, mas por omissão de informações.


Mas há um quarto nível de auditoria que pode ser chamado de Auditoria Conceitual, ou Auditoria de Concepção, ou ainda Design Review. Neste nível de verificação, a análise é abrangente e a referência é o negócio do empreendedor. A pergunta chave é: a solução de arquitetura e engenharia proposta atende ao que o empreendimento precisa? Os requisitos referenciais não são meramente técnicos (pois pode-se dar uma solução ruim para um empreendimento e, ainda assi, ela estar tecnicamente correta). A questão neste tipo de auditoria é a adequabilidade do Projeto AEC, mais rigorosamente das soluções nele descritas, à resolução das questões ou problemas originais que exigiram a elaboração do Projeto AEC.


No Design Reveiw, é desenvolvida uma análise crítica da concepção, além do atendimento aos requisitos dos níveis anteriores. O espectro da análise é muito mais amplo e multidisciplinar, mantendo altos níveis de especialização. Esta auditoria exige profissionais muito bem qualificados, métodos e critérios estruturados, visão do negócio do empreendedor/proprietário etc. Demanda níveis de planejamento e prazos de execução compatíveis com o porte e complexidade do empreendimento. E, claro, possui um custo significativo.


Aliás, com relação ao custo de uma auditoria, vale uma colocação importante: qualquer que seja ela, o custo será sempre inferior ao custo do risco de não a fazer. As de nível 1 e 2, sem dúvida, são as mais baratas e podem evitar sérios problemas de falta de documentos ou informações importantes, o que pode gerar atrasos, erros de execução, retrabalhos, super ou subdimensionamentos etc. A de nível 3 pode evitar que o edifício ou equipamento entre em colapso por não atender critérios importantes de dimensionamento, ou sejam embargados por órgãos de fiscalização por não atenderem condicionantes normativos. A de nível 4, o Design Review, pode evitar que o empreendedor se aventure a construir algo que não vai atendê-lo, exigindo investimentos astronômicos para corrigir ou ajustar as soluções depois de implantadas. E, acredite, isso ocorre com mais frequência do que se pensa.


Por fim, vale salientar que a auditoria de projetos é comum, por questões quase óbvias, em grandes empreendimentos porque os prejuízos podem ser enormes em valores absolutos. Nos empreendimentos pequenos, ainda que eventuais prejuízos sejam de menor valor, raramente são mais caros que a auditoria. Além disso, o problema nos pequenos empreendimentos (uma residência, por exemplo) não é apenas o valor do prejuízo, mas a rigorosa limitação do fluxo ou saldo de caixa. É comum que pequenos empreendedores não tenham de onde retirar recursos para arcar com prejuízos de obra, mas certamente têm recursos para um procedimento que lhe dê maior garantia de sucesso na execução, antes que ela comece e não tenha como retroceder.


A Auditoria do Projeto AEC não é uma mera inspeção de qualidade do Projeto AEC, ela é um procedimento de garantia da qualidade da execução da obra e da própria solução. No frigir de tudo, é um importante procedimento de garantia do retorno do investimento.

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