A deusa Ciência (ou a persuasão da certeza que não existe)

A Epistemologia ou Teoria do Conhecimento estuda a natureza e as formas de aquisição do que podemos considerar conhecimento. Inevitavelmente defronta o conceito de verdade e a constatação da sua dificuldade, ou mesmo inviabilidade.


A verdade, a rigor, deve ser aquilo que invariavelmente corresponde à realidade, mas nossa relação com a realidade se dá pela percepção de fenômenos. A mediação dos sentidos introduz, já de imediato, um obstáculo entre o fato e o que apreendemos dele. Esta imprecisão da percepção ecoa em nossa forma de pensar, eventualmente introduzindo elementos mais perceptivos que factuais em nossas elaborações intelectuais.


Assim, o que consideramos realidade é apenas nossa percepção dela, racionalizada ou não pelas informações que temos sobre os fenômenos e o mundo em geral. Essas informações adicionais podemos ter obtido por percepção própria (com suas limitações) ou por terceiros a quem damos algum crédito (não é à toa que a palavra crédito tem origem similar à de crença).


Próxima à Teoria do Conhecimento está a Filosofia da Ciência tendo a Ciência como objeto de estudo. Compreender o que seja a ciência, ou o que seja científico, é um desafio há muito tempo enfrentado pelo homem. Como na Epistemologia, o conceito de verdade volta a ser um sério entrave e, neste recorte do conhecimento (porque a ciência é, de fato, um recorte), ela se resume à chamada verdade científica.

Ora, de cara já é possível perceber que se a verdade científica é um caso particular ou uma nuance da verdade, é razoável que goze das características gerais dessa, sobretudo a sua inviabilidade lógica (e aqui seria interessante trazer para o cenário também a Lógica como área de estudo).


Para minimizar este problema, a ciência tira do contexto de análise qualquer constatação que não seja obtida da observação dos fenômenos. Isso é feito pela imposição de um método empírico sem o qual nenhuma constatação pode ser dita científica. Ou seja, a verdade científica é aquela que deriva da observação da experiência.


Não podemos deixar de lembrar que a observação é imediatamente sucedida pela racionalização automatizada no cérebro, gerando a percepção, porém já incerta pela mediação dos sentidos humanos e pela incorporação de outras tantas informações oriundas não do fenômeno observado, mas de outras fontes com seus respectivos graus de credibilidade.


Enfim, não é novidade nem na Epistemologia, nem na Filosofia da Ciência, que a verdade é um ideal, por lógica, inacessível. Isso, entretanto, muitas vezes não tem sido levado em consideração pela própria Ciência, ou pelos chamados cientistas, uma vez que a Ciência é criação do homem e operada por ele.


Mas não se pode negar que o rigor metodológico da ciência confere uma boa dose de credibilidade às suas teorias que, porém, não cabem no conceito de verdade. Talvez possamos atribuir às coisas da ciência o status de verdade científica, se deixarmos claro que ela é inferior à verdade de fato, pois não passa de um conjunto de percepções e racionalismos, ainda que bem fundamentados por informações de origens diversas, sobretudo empíricas e limitadas.



Ainda assim, a Ciência é a responsável por diversos avanços no campo tecnológico e na descoberta dos mecanismos segundo os quais as coisas ocorrem no mundo. Isso não podemos negar, basta olharmos tudo que vem sendo desenvolvido por ela há séculos. E aqui há um ponto crítico relativo às verdades científicas: suas teorias precisam às vezes de muitos anos para se firmar, exatamente porque exigem a observação de inúmeros fenômenos similares e os testes de previsibilidade. Sem isso, a dúvida que inevitavelmente carregam é preponderante.


No frigir dos ovos, a verdade científica não passa de uma crença muito bem justificada, mas ainda uma crença. Aliás, é exatamente por ser crença que o progresso é possível. Se fossem de fato verdades, não haveria por que continuar estudando ou pesquisando aquilo que pode afetá-las. O que se faz em ciência é induzir um grau de universalidade às teorias a partir de experiências e observações limitadas (pois não é possível experimentar ou observar tudo no universo).


Assim, o status da verdade científica deve ser exatamente o que é, uma verdade sempre parcial e falível, nunca universal, ainda que confiável em algum grau. Parcial porque decorre de um número limitado de observações, porque foi racionalizada em circunstâncias específicas (condições de contorno) e porque inevitavelmente foi influenciada por outras informações que o cientista (ou grupo deles) compartilhava de fontes externas mais ou menos confiáveis.


Infelizmente, após mais de um século de positivismo, apesar de todos os avanços conseguidos a partir disso, a ciência foi conduzida a um altar e endeusada. Sua falibilidade, tão discutida pela Epistemologia e pela Filosofia da Ciência, foi praticamente esquecida e esta negligência nos persuade a admitir a verdade científica como uma verdade revelada por cientistas, semelhante à verdade revelada por um Deus nas religiões.


A ciência está limitada pelo seu método que, embora muito útil para questões materiais, é menos recomendado para fenômenos não materiais. E essa limitação é tanto maior quanto o próprio processo de universalização das teorias científicas indica, a indução. O salto indutivo entre o empírico e o universal é sempre um grande risco. Até mesmo os não cientistas reconhecem isso quando tentam generalizar os entendimentos. E o risco é tão maior quando mais largo for o abismo entre a realidade e a teoria, o que, aliás, nunca se tem certeza.


Isso parece ser simples, mas é muitas vezes negligenciado (talvez até pela simplicidade da constatação).

Sobretudo nas transposições de resultados entre áreas de conhecimento (cujas condições de contorno são naturalmente diferentes), ou nas comparações de resultados (cujos fenômenos observados são diferentes), há um embate crônico (e até cômico em alguns casos) entre defensores de uma ou outra teoria.


Nestes últimos casos, as confrontações, há dois abismos justapostos entre a observação e a universalidade, um de cada teoria. Mas os lados, negligenciando a incerteza inerente à ciência, travam o combate crentes (e este termo é especialmente adequado aqui) na universalidade de suas formulações. E o argumento de universalidade em ambos os lados é de que são constatações científicas, ainda que a única certeza oriunda disso seja sobre a limitação do método científico e a incerteza dos seus resultados.


Isso é sobretudo perceptível quando se estuda um fenômeno novo. Um experimento, construído sob certas condições e com um certo número de ocorrências específicas é comparado a outro com condições e ocorrências diferentes. Os resultados diferentes entram em conflito e cada lado tende a admitir estar certo enquanto o outro está errado. Isso, obviamente, não tem nada de científico, é meramente uma disputa (cuja natureza não pretendemos cogitar). Aprendemos desde a infância a não comparar bananas com laranjas e a simplicidade dessa lógica é similar à simplicidade das limitações da ciência, o que negligenciamos com frequência.


Esta negligência não é da ciência, mas dos cientistas que tentam universalizar suas teorias no grito, focando seus resultados e esquecendo que não podem ser comparados sem uma rigorosa análise, qualitativa e quantitativa, de todo o processo de formulação de ambas. Induzir a universalidade de uma teoria científica não é um processo dialético (ainda que a dialética possa auxiliar), mas indutivo e falível, como constatado pela Filosofia da Ciência.