BIM não é um programa, mas implantá-lo é

São diversas as empresas, escritórios e profissionais empenhadas na tal “implantação do BIM”. Há uma infinidade de apresentações on line expondo ou discutindo o tema, cada qual com seu viés. Muito provavelmente a grande maioria delas expõe corretamente o assunto, mas sempre parcialmente. Não poderia ser diferente, se o processo é tão complexo quanto se diz, é natural que numa apresentação não seja possível abordá-lo completa ou mesmo satisfatoriamente. É preciso comer pelas beiradas, ir à conta-gotas, em doses homeopáticas etc.

Se você não assistiu nenhuma dessas apresentações, procure alguma na internet, não será difícil encontrar. Todas elas certamente dirão que é preciso planejar essa implantação. Muitas, senão todas, dirão que se trata de uma mudança cultural. Algumas exporão a necessidade de transformar processos de trabalho, enfatizando o abandono dos processos antigos. Outra parte destas apresentações lembrará que implantar BIM em uma empresa nunca é igual ao que foi feito em outra, cada caso é um caso.

É claro que essas características nos remetem de imediato ao conceito de projeto (“esforço temporário empreendido para entregar um resultado exclusivo”, PMBOK, PMI) e, então, conclui-se que implantar BIM é um projeto. Parece óbvio, mas é um equívoco. Implantar BIM não é um projeto. Vamos nos dedicar a esse ponto em específico neste texto: implantar BIM é um projeto? Se não for, o que é então?

A própria definição de projeto deixa claro as características de temporário e de entrega de um resultado exclusivo. Mas isso caberia a uma infinidade de coisas. Instalar um novo servidor na empresa também é um projeto, reflita. Colocar um novo software em uso seria outro exemplo possível. Ambos os processos são temporários e os resultado entregues são objetivamente caracterizáveis e exclusivos.

Perceba que os dois exemplos dados sempre (ou quase sempre) são partes integrantes da implantação de BIM. Normalmente é preciso intervir na infraestrutura tecnológica da empresa e implantar novos softwares. Outros exemplos de projetos pertinentes à implantação de BIM podem ser dados:

  • Formar um BIM Manager em curso regular de pós graduação (ou contratar um BIM Manager no mercado).

  • Desenvolver uma norma de modelagem de informações no paradigma BIM (o BIM Mandate).

  • Desenvolver a atitude e o comportamento da equipe para o trabalho colaborativo.

  • Influenciar parceiros de negócios para o trabalho em BIM.

  • Etc.

Agora reveja a lista acima, inclusive os dois exemplos iniciais (trocar o servidor e implantar um software) e pense: qual destes projetos poderia ser desenvolvido independentemente dos demais entrarem em execução? Ou ainda, qual destes projetos pode ser concluído sem que os demais sejam?

Não se assuste se você concluir que qualquer um deles pode ser realizado de forma independente dos demais. Não há nenhum que deva preceder obrigatoriamente os demais.

Mas você pode alegar que se faltar algum, não é possível implantar o BIM na empresa corretamente. E você estaria correto, mas comprovaria a tese de que implantar BIM é, na realidade, um programa. Ou seja, um conjunto de projetos (e outras ações eventualmente) coordenados de tal modo que o resultado é mais que a simples soma dos resultados de cada projeto. Há uma coesão entre eles, uma sinergia em seus resultados. Essa é a essência de um programa. Não se trata de qualquer conjunto de projetos, mas do esforço consciente de coordenação entre eles sem o qual certos resultados não são alcançados.

O benefício colhido de um programa é também diferente do benefício colhido a partir de um projeto. O resultado de um projeto normalmente é mais pontual, mais objetivo. Comumente é um incremento em algum aspecto da organização. Pode ser um novo edifício, um novo software em uso, uma nova qualificação da equipe. Às vezes é um resultado bem mais complexo, composto por diversas partes que, ainda que sejam executadas separadamente, só fazem sentido como resultado quando estão juntas (isso remete ao conceito de subprojetos). O benefício do projeto normalmente está associado à melhoria da eficiência dos processos de negócio, ou seja, fazer melhor o que já se tem feito.

Os programas, por serem multi impactantes, afinal são vários projetos, produzem resultados mais abrangentes e talvez mais profundos na organização. Não se trata de um incremento, programas costumam produzir transformações. Não raramente, os programas criam capacidades ou competências organizacionais; a empresa passa a fazer mais coisas do que fazia, ou diferente do que fazia.

Agora, pensando no BIM e na gestão da sua implantação numa organização, é mais fácil avaliar se este processo é um projeto ou um programa. Se a implantação do BIM for tratada como a incorporação de um novo software, pode-se dizer que seja um projeto, mas dificilmente será BIM de fato no resultado. Se for BIM de fato, repercutirá não apenas na estrutura tecnológica, mas na forma de pensar e trabalhar da empresa, ou seja, transformará processos e cultura. A empresa, ao final do processo, fará coisas que vão além do que já fazia.

Uma empresa de projetos, necessariamente terá que se integrar mais ao planejamento e à execução das obras, isso é uma necessidade do BIM. Uma construtora terá que antecipar decisões para o momento do projeto (modelagem) e o planejamento assumirá um papel mais crucial. Análises mais criteriosas passarão a ser feitas, uma vez que dados críticos agora serão requeridos para a modelagem e a análise é facilitada por tecnologia. Qualquer elemento do empreendimento precisa ser mais bem especificado não apenas de forma descritiva, mas no desempenho operacional.

Imagine o nível de integração necessário para garantir a sinergia dessas áreas todas. Chegar a esse resultado não é simples e, por isso, é preciso coordenar vários projetos para que estes se auxiliem mutuamente. Essa coordenação é fundamental para que novos softwares (IFC compatíveis) sejam usados em novos processos (plataformas de compartilhamento), com uma nova forma de pensar soluções (colaboração) e uma nova forma de apresentá-las ao cliente (realidade virtual, aumentada etc.). Aliás, isso tudo ocorre numa nova cultura cujas fronteiras estão além da empresa e incorporam parceiros, fornecedores e clientes (cultura digital, 4.0).

Estamos falando de um longo, vasto e profundo programa de transformação de fundo digital e reflexo cultural. BIM é uma perspectiva setorial da transformação digital. Abordá-la como projeto é cabível, mas insuficiente, pois o processo não é incremental (projetos), toda transformação é integral e não reside nas partes, mas no que está entre elas.

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