BIM, Gestão de Empresas e Gestão de Projetos, tudo junto e misturado

Outro dia, ao montar um material para uma consultoria, tive que resumir uns conceitos do universo BIM em linguagem mais gerencial. Resolvi compartilhar aqui, começando pelo próprio conceito de BIM e incluir algum enredo para dar corpo a um texto mais didático.

BIM – Building Information Modeling - é um paradigma no mercado da construção civil que propõe novas formas de gerir o processo produtivo a partir de tecnologias e processos que integram as informações da construção, técnicas e gerenciais, em todo o ciclo de vida dos produtos desta indústria (edifícios, infraestrutura, cidades etc.). Como novo paradigma, impõe mudanças na visão que os profissionais tradicionalmente possuem deste mercado (cultura).

Repare que BIM está abordado como um novo paradigma, ou seja, ele interfere nos fundamentos e nas referências que usamos para abordar as questões da construção civil. Impacta, em princípio, absolutamente tudo nesta área. Esse é o poder e a definição de um paradigma, como explicaria Thomas Kuhn em sua tradicional obra sobre as revoluções científicas.

As empresas interessadas em se engajar nesse paradigma precisam tomar uma decisão importante: “to BIM or not to BIM?”. Uma vez tomada a decisão, a empresa deve se preparar para mudanças drásticas. Quanto mais conservadora for sua cultura de produção na construção civil, mais drástica será a mudança. É preciso estar muito seguro da decisão, porque a aventura do BIM é cara e demorada, não se trata de uma simples troca de softwares, como é comum pensarem. Mas os benefícios compensam, claro, por isso todos querem.

A implantação do BIM é uma decisão estratégica relaciona à Gestão da Empresa, foca seu futuro no mercado e, conforme a criticidade, sua sobrevivência nos negócios. Existirá a empresa pré BIM e a empresa pós BIM; entre elas, uma metamorfose que deve ser gerida.

A implantação de BIM em uma organização deve ser conduzida de forma muito bem planejada e, como uma mudança de paradigma, exigirá ações em todos os pilares do desenvolvimento organizacional: processos, infraestrutura e pessoas. Este esforço de transformação deve ser gerido com base num planejamento abrangente e multi impactante (no sentido de impactar múltiplas áreas da organização). Desenvolve-se o BIP – BIM Implementation Plan.

Plano de Implementação do BIM – BIP (BIM Implementation Plan) - é o plano levado a cabo para instituir o BIM como novo paradigma numa organização, normalmente focada em construção civil, que envolve transformações em sua estrutura física, processos e cultura organizacional voltada à produção.

Como a implementação do BIM na organização dará a ela novas capacidades e a melhor forma de fazer essa migração depende da coordenação de diversas ações que confluem no futuro para uma nova cultura, implantar BIM é, tecnicamente, gerenciar um programa. A Gestão de Programas é que coordena as diversas ações ou projetos necessários, ainda que eles possam ser conduzidos isoladamente. É da abordagem conjunta deles que surge uma nova cultura. Não se faz uma boa colcha apenas preparando os retalhos, o planejamento do design e da costura entre eles é fundamental. Essa “costura” é o que chamamos de tailoring na gestão dos projetos. Os projetos entregam resultados específicos, mas uma nova capacidade organizacional raramente é obtida por um projeto isolado, mas pela coordenação feita pela Gestão de Programas.

Durante a implantação do BIM, será preciso estabelecer novos processos de trabalho e novas especificações a serem seguidas. É algo como uma reestruturação do manual de procedimentos da empresa, se ela tiver algum. Os novos processos e especificações têm uma característica típica do paradigma BIM: são flexíveis o suficiente para permitem adequações ao ambiente de cada novo empreendimento.

Os processos de trabalho são estruturados pelo BEP – BIM Execution Plan. As especificações mais detalhadas dos procedimentos mais operacionais constarão no BIM Mandate. Cada empresa terá os seus, mas a cada parceria formada para um novo empreendimento, eles precisarão ser ajustados uns aos outros.

Plano de Execução BIM – BEP (BIM Execution Plan) - é um plano desenvolvido para cada novo empreendimento a fim de estabelecer os objetivos, regras, procedimentos e processos de BIM adotados naquele empreendimento especificamente. Ainda que haja um BEP referencial (modelo), cada empreendimento exige ajustes do mesmo ao ambiente, às partes interessadas e aos condicionantes específicos.

BIM Mandate é um documento normativo que estabelece regras para a modelagem de empreendimentos a fim de garantir o funcionamento de uma determinada estratégia de processamento de informações da construção em todo o seu ciclo de vida. Como o BEP, esta estratégia pode variar caso a caso e, então, os ajustes devem ser feitos.

Há padrões normalizados para que haja alguma coerência entre os BEPs e BIM Mandates em geral. Obviamente, se houvesse liberdade absoluta, os ajustes seriam muito difíceis de serem realizados. As classificações de informações vêm sendo padronizadas pela ABNT no Brasil e outros órgãos nas demais áreas do mundo, a fim de viabilizar trocas de informações. Havendo critérios para definir especificidades na troca e no tratamento de informações, garante-se uma espécie de linguagem comum para a interoperabilidade. Ainda assim, o desafio é grande.

Repare que há aqui um nível de coordenação entre os diversos atores do ciclo de construção civil que está além do domínio da arquitetura e engenharia. Estamos transitando nos domínios da tecnologia da informação, este universo aparentemente invisível onde os bits interagem e cuja linguagem é bem peculiar. A transição entre o mundo da concepção da engenharia e o mundo dos bancos de informações é articulada por um profissional com fluência em ambas as áreas: o BIM Manager.

BIM Manager é o profissional preparado para operacionalizar o uso do BIM numa organização, projeto ou empreendimento, dominando as tecnologias e o processo de trabalho em BIM preconizados no BIM Mandate e BEP.

O BIM Manager é um dos principais apoios da operacionalização dos trabalhos em BIM. É como se o BIM Manager fosse o pivô da interoperabilidade. Ele é capaz de compreender as especificidades de cada caso e ajustar os procedimentos para que as informações possam ser trabalhadas da forma planejada. Aliás, o próprio BIM Manager é figura fundamental no planejamento do BEP e BIM Mandate dos empreendimentos. Como seria possível planejar a modelagem de informações sem um profissional que soubesse articular as trocas necessárias ao longo do ciclo de vida do empreendimento?

Aos modeladores resta seguir as orientações do BIM Manager. Este, por sua vez, dá o apoio ao Coordenador do Projeto para a condução do processo, de modo que as decisões de projeto, de engenharia ou arquitetura, de processo construtivo, etc. sejam convenientemente modeladas. Cada decisão de projeto tem uma argumentação e uma justificação que em algum momento do ciclo de vida da construção fará a diferença. O BIM Manager deve ser capaz de compreender esses aspectos definidos pela coordenação do projeto e traduzir em procedimentos de modelagem e tratamento das informações para que tudo esteja à mão quando for o momento propício.

Enquanto o BIM Manager ajuda a operacionalizar a estratégia de modelagem de informações do empreendimento, o coordenador do projeto articula a própria estratégia do empreendimento entre todos os participantes e partes interessadas.

Coordenador do Projeto é o profissional que conduz o processo de projeto de um empreendimento orientando a equipe nos aspectos gerenciais e técnicos do processo produtivo dos projetos de engenharia, com base no paradigma de trabalho vigente no contexto do empreendimento (BIM, CAD, etc), garantindo a entrega do projeto dentro dos requisitos acordados de escopo, prazo, custo e qualidade.

O tratamento das informações nesse processo mobilizam softwares diferentes, adequados a cada finalidade e especialidade técnica.

Software de Modelagem é o software utilizado para gerar um modelo virtual de um ou mais sistemas componente da construção (estrutura, vedações, instalações, equipamentos, etc.) e incorporar a ele informações que especificam e descrevem cada um dos seus elementos constitutivos, obedecendo as condições estabelecidas no BIM Mandate e segundo o processo de trabalho preconizado no BEP.

Software de Integração é o sistema capaz de receber informações dos modelos gerados em diversos softwares de modelagem, interpretar informações incorporadas aos modelos e realizar operações de correlação entre elas como identificação de interferências (clash detection), associação de informações de diferentes modelos (custos com sistemas prediais, ou prazos com elementos dos sistemas), etc.

Software de Análise é um sistema capaz de receber informações dos modelos gerados em softwares de modelagem e simular solicitações específicas e o consequente comportamento da construção tais como carregamentos/deformações, calor/temperaturas, luz/iluminamento etc.

Por fim, essa grande massa de dados e informações, para que seja integrada, precisa compartilhar o mesmo repositório. Este repositório, além do espaço de armazenamento, deve possuir funcionalidades que facilitem a interoperabilidade e a integração das informações. Faz sentido que estejam alojados em máquinas com grande poder de processamento, pois são informações em grande quantidade e bastante complexas em suas correlações. Assim, a boa operacionalização do BIM não prescinde de uma competente área comum de dados.

Área Comum de Dados – CDE (Common Data Environment) – áreas em nuvem (ou em intranets) para compartilhamento de informações com ou sem recursos de correlação de informações embarcados. Embora um simples repositório de informações já configure um CDE simples, o comum é que os CDEs possuam recursos para gestão e manipulação das informações. O uso do CDE faz parte dos processos de trabalho BIM no que se refere à integração de informações. Os CDEs são uma evolução dos sistemas GED (Gestão Eletrônica de Documentos) por serem ambientes virtuais apropriados à interação em tempo real de informações e usuários e não apenas sistemas que armazenamento e manipulação pontuais de documentos.

No gerenciamento de projetos, especificamente no PMBOK (Projetc Managemnet Body of Knowledge, do PMI) a expressão “Ativos dos Processos Organizacionais” é comum. BEP e BIM Mandate são exemplos clássicos do que compõem esses ativos num empreendimento ou organização que opera em paradigma BIM. Ou seja, o BIM impacta toda a gestão de projetos em um empreendimento.

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