Do inconsciente coletivo à consciência individual – Tipos Psicológicos de Jung e MBTI

June 13, 2020

Nós humanos queremos conhecer tudo, do microcosmo ao macrocosmo. Aliás, a própria ideia de cosmos é formada para subsidiar conhecimento. Admitir uma estrutura onde se encaixam todas as coisas pressupõe que as coisas sejam assim organizadas. E, pelo que conhecemos até agora, são mesmo.

 

Como cada coisa é uma instância diferente de outra, para criar nossos entendimentos classificamos e hierarquizamos tudo. Desta forma, podemos estabelecer ou descobrir modelos que se apliquem a conjuntos significativos de instâncias, categorias de coisas que existem.

 

Quando o objeto de estudo somos nós mesmos, seres humanos, as coisas não são diferentes. Classificamos, agrupamos e hierarquizamos no intuito de definir modelos teóricos aplicáveis a grupos abrangentes, caso contrário precisaríamos de oito bilhões de modelos (um para cada habitante do planeta). Obviamente, conforme a intenção do modelo, os critérios de agrupamento e categorização são diferentes.

 

Carl G. Jung se dedicou com afinco, há aproximadamente 100 anos, a uma empreitada dessas com estudos relativos à psique humana. Sua teoria sustentou diversos avanços importantes na compreensão do comportamento humano ao longo do século XX e permanece fundamental neste século.

 

 

Jung estabeleceu nas suas pesquisas o que chamou de inconsciente coletivo, a partir do qual explicou diversos aspectos da experiência humana e de seu rastro cultural. O inconsciente coletivo seria, grosso modo, um conjunto de disposições, sempre iguais, que se instala no inconsciente de uma pessoa assim que esta passa a existir. Ou seja, a consciência humana pode até nascer uma folha em branco, mas o inconsciente nasce preenchido com o inconsciente coletivo. Isso explica, por exemplo, as similaridades dos mitos e comportamentos entre as diversas culturas no tempo e no espaço. A ideia do inconsciente coletivo é muito bem trabalhada por Jung e um ponto fundamental de sua obra. Atualmente ela continua sendo referencial teórico para muitos avanços na própria psicologia e suas diversas aplicações.

 

O inconsciente coletivo é povoado por referências que se misturam às experiências individuais e, neste processo, desenvolvem-se ou não, podendo atingir o consciente passando a compor o ego (conforme o conceito de ego na teoria junguiana). Vale ressaltar que muita coisa permanece no inconsciente e continua interferindo ou condicionando o comportamento do indivíduo.

 

Outro conceito importante na obra de Jung, para fins de compreender sua classificação dos seres humanos segundo tipos psicológicos, é o de libido. Vejamos...

 

Toda pessoa é animada por uma energia que se manifesta de diversas maneiras. Uma delas é a valoração que a pessoa dá a alguma coisa (conscientemente ou não) e que a faz direcionar mais ou menos energia na interação com essa coisa (objeto, pessoa, situação etc.). Jung chama de libido esta energia ou valor psíquico que a pessoa dedica à coisa. Dada uma ocorrência qualquer, há pessoas que darão mais valor e, por isso, direcionarão maior ou menor atenção ou energia a isso. Para umas pessoas, a ocorrência mobiliza a libido mais que para outras.

 

Alguns arquétipos (modelos primários) residem no inconsciente coletivo e estão, portanto, incutidos no comportamento humano, embora de forma simbólica e inconsciente. Por exemplo, o arquétipo do Herói, forte, bravo, audaz etc.; ou o da Grande Mãe, amorosa e poderosa (para o bem ou para o mal); a anima e o animus, respectivamente relativos ao feminino e masculino; entre outros. O importante aqui, é compreender que estas referências simbólicas se manifestam com maior ou menor intensidade em cada pessoa, em função da interação de suas experiências pessoais com o inconsciente coletivo.

 

Destaquemos aqui o arquétipo Self, que nos induz à autorrealização, ou seja, ao desenvolvimento de nosso potencial pleno. O Self nos leva a buscar sempre a melhoria em alguma perspectiva e nos induz também ao equilíbrio em nossa existência. É o self que nos faz direcionar nossa energia àquilo que nos faz buscar o que queremos ser. Sua constituição a partir do inconsciente coletivo faz com que todos busquem realizações relativamente semelhantes em diversos aspectos, embora sempre por caminhos individuais. O Self nos mobiliza a ser o que somos, ou queremos ser.

 

Não caberia aqui comentar os diversos arquétipos identificados por Jung, mas apenas destacar a importância deles na formação das personalidades.

 

Assim, é da interação entre o inconsciente coletivo e o inconsciente pessoal que os arquétipos são pressionados em maior ou menor grau para a formação da personalidade, passando a compor de alguma forma e em alguma medida a consciência do indivíduo. Nesse processo, cada pessoa desenvolve preferências e formas específicas de ver o mundo e interagir com ele.

 

O estudo desse desenvolvimento levou Jung a identificar nas personalidades dois elementos importantes que ele chamou de atitudes e funções. As combinações desses elementos caracterizam tipos psicológicos que agrupam os seres humanos segundo traços da sua forma de viver, pensar e agir, ou seja, de sua disposição ou direcionamento energético (libido) frente às ocorrências da vida.

 

As atitudes dizem respeito à direção na qual a libido é vertida. Diante das ocorrências da vida, há quem direcione a libido (energia psíquica) para as coisas externas e há quem foque no que é desencadeado internamente, são os extrovertidos e os introvertidos.

 

Obviamente, qualquer pessoa foca sua energia ora em coisas exteriores, ora em coisas interiores, mas a habitualidade acaba por definir se uma pessoa é introvertida ou extrovertida. A preferência de cada um se manifesta a todo instante, mesmo que seu papel social lhe impeça de viver sua preferência permanentemente. Aliás, qualquer um dos extremos implicaria num desequilíbrio que seria combatido pela influência do Self. Ninguém direciona a energia psíquica totalmente para o interior ou para o exterior.

O direcionamento da libido no sentido oposto ao da preferência habitual, obviamente, é mais estressante e exige consumo de mais energia. O direcionamento permanente segundo a preferência culminaria numa desconexão com o mundo ou consigo próprio, ambas as situações indesejadas.

 

Além da atitude, Jung constatou quatro funções psicológicas, ou maneiras de aplicar a energia psíquica (libido). Duas delas não exigem processamento racional: a intuição e a percepção. Outras duas são essencialmente racionais: o pensamento e o sentimento. Cabe aqui esclarecer que, para Jung, sentimento quer dizer o valor atribuído a alguma coisa, o que nos faz gostar ou não dela, ou seja, há um processamento de valor (racional) na função sentimental, o que a distingue de uma interpretação de base meramente emocional.

 

Todas essas funções são processadas conscientemente pelas pessoas, mas suas experiências de vida interagidas com o inconsciente coletivo, desenvolvem mais uma do que sua alternativa. Assim, algumas pessoas direcionam a energia mais para a intuição, outras mais para a percepção, como forma de tomar contato com as coisas do mundo.  Similarmente, há quem desenvolva mais o pensamento enquanto outros, o sentimento, o que os faz decidir por processos diferentes de decisão.

 

Ao desenvolver mais uma atitude que outra e mais o uso de algumas funções do que outras, cada indivíduo cria sua assinatura. Esse resultado decorre da interação das vivências individuais com o inconsciente coletivo. Como tais interações são únicas para cada indivíduo, o resultado também é único, no que se refere à intensidade. Obviamente, estas características se somam a outras na constituição da psique de cada um, não há na teoria de Jung, como em nenhuma outra, a intenção de ser um modelo completo do ser humano.

 

As psicólogas Katharine Cook Briggs e Isabel Briggs Myers (mãe e filha), após a segunda guerra mundial, desenvolveram um teste para identificar a personalidade das pessoas baseadas na teoria de Jung (MBTI