Conhece-te a ti mesmo, ou só sabes que nada sabes?

May 11, 2020

O título reúne duas célebres frases dos primórdios da filosofia: “conhece-te a ti mesmo” e “só sei que nada sei”. Ambas se referem ao Templo de Delfos, erigido em homenagem a Apolo, para onde pessoas levavam questões a serem respondidas pela sacerdotisa. A primeira frase está inscrita no templo e a segunda, diz-se ser a conclusão a que Sócrates chegou após a sacerdotisa professar que ele era o homem mais sábio da Grécia.

 

Sócrates teria concluído ser sábio, conforme professou a sacerdotisa, por ter consciência da própria ignorância, diz a história. Sempre questionador, buscava com todos a quem encontrava a compreensão, o mais profunda possível, de temas importantes. Mas o interessante é que, apesar de sempre buscar conhecimento, o que caracteriza a sabedoria de Sócrates é sua consciência em relação à própria ignorância.

 

 

Seria normal admitir que um homem se tornaria sábio depois de angariar diversos conhecimentos, mas, segundo o deus Apolo, através da sacerdotisa, o mérito é daquele que tem consciência da própria ignorância, ou seja, que se conhece. Parece um paradoxo, mas será que é?

 

Repare que uma frase fala de conhecimento e a outra de sabedoria. Conhecer e saber são a mesma coisa? Este é o ponto que queremos explorar: qual a diferença entre saber e conhecer? Como eu posso ampliar meu próprio conhecimento durante toda a vida e ser sábio exatamente com base no que não sei?

 

O conhecimento é objeto de estudo da Epistemologia ou da Teoria do Conhecimento. Segundo essa abordagem, em suma, o conhecimento deriva do uso da razão, do raciocínio. Pode até partir de uma percepção, mas se consolida pela racionalidade aplicada às informações que se possui, às evidências de alguma coisa.

 

Quando se afirma conhecer uma pessoa, diz-se que sabe dar informações detalhadas sobre ela: como age, como pensa etc. Caso contrário, se diz apenas que se sabe quem seja (“sei quem é, mas não sei dar detalhes”). Neste exemplo fica claro que ao tentar dar detalhes sobre a pessoa, o risco de errar é muito grande, demonstrando que não tem conhecimento sobre ela. Talvez, umas poucas percepções sem muito fundamento sejam certeiras, mas conhecer exige mais.

 

E como é saber de algo? Como diria o Chicó em O Alto da Compadecida, do Ariano Suassuna: “só sei que é assim”. Experimente explicar racionalmente por que o céu é azul ou explicar a grande fúria do mundo (agora lembrando Renato Russo). Provavelmente muito pouca gente conhece o céu azul a ponto de explicá-lo com certeza, mas é difícil pensar em alguém que não saiba que é azul. O saber é algo que não depende de racionalidade. É algo que se tem como certo porque é de alguma forma evidente.

 

Aparentemente o saber decorre da experiência no mundo. Embora aceitemos que o céu é azul, é possível pensar numa “tempestade que tem a cor dos seus olhos castanhos” (olha o Renato aí, de novo). Nossa experiência de vida nos permite compreender essa correlação sem demandar uma concatenação de argumentos numa argumentação lógica.

Percebe-se, então, que conhecimento e saber têm naturezas diferentes e, para ilustrar um pouco mais, recorro à algumas observações etimológicas obtidas no site que sempre referencio: www.origemdapalavra.com.br.

 

Saber tem origem similar à de sabor. Você apenas sabe o sabor das coisas. Explicar racionalmente chega, inclusive, a ser difícil. Sapere e sapore são irmãs.

 

Conhecer é saber junto: com-gnoscere. É saber com a razão. Dela derivam outras palavras que trazem a essência de saber de algo racionalmente e não por simples experiência: prognóstico, diagnóstico. Ou ainda de não aceitar algo sem uma demonstração racional do que seja: incógnito, agnóstico.

 

Esta palavra vem de uma base Indoeuropéia gn-, que gerou, em Grego, gnosis, “conhecimento” e seus derivados. Gnóme significava “razão, entendimento”

[...]

Daí temos, por exemplo, cognição, “conhecimento, ato de saber”

Conhecimento exige esforço racional, ainda que mínimo. Saber é praticamente experimental.

 

A sabedoria vem exatamente desta distinção. Sábio é aquele que tem consciência do que, dentre as ideias que tem, quais são racionalmente concebidas e quais são apenas constatadas ou imaginadas. Exatamente por ter essa percepção, consegue identificar os limites do seu conhecimento (que é necessariamente justificado racionalmente). Aplicando isso em profundidade, encontram-se as bases do que se pensa no campo da racionalidade ou no campo da percepção.

 

Sócrates não era sábio por buscar o conhecimento, mas por questioná-lo até o limite da compreensão em busca das fronteiras do que é racional. Compreender onde está, em suas ideias, o limite entre o que é conhecimento e o que é saber o tornou sábio.

 

Essa consciência nos mostra, inclusive, porque podemos conceber pessoas sábias com pouca instrução formal. Não são pessoas que sabem explicar porquês, mas sabem bem como as coisas são. Mais que isso, sabem que sabem, mas não podem explicar e nem tentam. Apenas vivem conforme o que sabem.

 

Mas não é apenas isso, a sabedoria leva essa distinção a questões complexas. Os sábios possuem uma capacidade de percepção das coisas mais abstratas. Não se trata de saber que o girassol é amarelo, mas de saber a relação dele com o ciclo do sol e a fusão de ambos na percepção do que é belo, ainda que não possa explicar, apenas sabe.

 

É como se o sábio não precisasse de explicações para o mundo porque já o percebe mais plenamente. Assim como não é preciso conhecer porque o céu é azul para viver com essa realidade, o sábio não precisa de muitos outros conhecimentos, pois sua percepção já considera as conclusões a que poderíamos chegar.

 

Talvez por isso, o sábio saiba exatamente onde residem as grandes dúvidas dos homens. Ele sabe onde há limites difíceis para a racionalidade e consegue explorá-los com mais naturalidade. O conhecedor procura com habilidade as respostas, mas o sábio encontra as perguntas cirurgicamente mais precisas e importantes.

 

Isso fecha nosso texto com outra frase famosa: “julgue um homem mais por suas perguntas que por suas respostas”, essa é de Voltaire. A questão da sabedoria não é simplesmente ter o interesse na explicação racional, mas saber a essência da dúvida que falta à plenitude.