A transformação essencial

A transformação digital está a pleno vapor, é o que dizem. A tecnologia vem promovendo mudanças para todo lado. A chamada exponencialidade é assunto recorrente nas conversas coloquiais e nos meios mais eruditos. Uns idolatram a transformação digital, outros a criticam. Mas é inquestionável que mudanças têm ocorrido e que estas mudanças não são “moda”.

Aliás, é importante frisar que, embora haja mudanças importantes ocorrendo, não é necessariamente significativa qualquer uma destas mudanças isoladamente. O movimento transformador cria ambiente propício para relançar velhas ideias com novas terminologias “mais contemporâneas”. E assim, as novas gerações são induzidas a pensar que tudo é novo, tudo é transformador e que o antigo é ultrapassado. Não percebem que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais” em muitos, muitos aspectos da vida. Sua descoberta do “novo” é amplificada pela ignorância do “antigo”.

Numa sociedade que se transforma tão continuamente e que, inclusive, recebeu o adjetivo de líquida, a grande novidade é a velocidade das mudanças. Sim, a mudança sempre esteve aí, mas antes nos dava a chance de observá-la criteriosamente e criticamente. Hoje, ela ocorre num piscar de olhos e, quando nos damos conta, o que era já não é mais. Algo mudou de fato, e outras coisas apenas “trocaram de roupa”. Vivemos o império da superficialidade porque não temos tempo de aprofundar na compreensão das coisas do mundo atual. E poucos têm a resiliência e perseverança que esse aprofundamento exige.

Claro está que as gerações se sucedem e cada uma cria caraterísticas próprias, afinal, a sociedade não fica estática. Dizem que mudam os valores, mas outros dizem que na realidade se esquece o que significam os valores. O que foi, por exemplo, honra um dia, parece não ser mais nos dias de hoje. Discute-se se é certo ou errado, mas se fizermos a pergunta “o que é honra?”, talvez percebamos que tendemos a ter dificuldade de nos expressarmos sobre conceitos claros para os mais antigos. Algo similar ocorre com diversos outros valores. Como poderíamos opinar com convicção sobre o valor moral de algo que tratamos como “líquido”? As opiniões também tem sido líquidas e, por consequência, o conhecimento obscurece a cada dia.

Na lacuna da ignorância, é preciso preencher o vazio com alguma coisa e muitas opiniões fragilmente construídas dão forma ao que pensa e sente uma geração ou uma comunidade (há quem chame de tribos ou algo assim). Esta é a liquidez do pensamento atual, um pensamento que, por tomar qualquer forma, não tem forma alguma. A luta nos bastidores da mente é constante: todos querem estruturar ideias, mas não querem dar-lhes solidez. Não ter opiniões parece ser muito vergonhoso, afinal, “toda a informação” está à mão, num estalar de teclas (antigamente era de dedos). Mas uma opinião que se possa classificar como conhecimento não se forma num vídeo de youtube. E não ache que esse texto será suficiente para formar a sua.

Assim, com base na liquidez, se vai construindo uma rede (outro termo moderninho) de estrutura frágil, afinal transformar é a onda do momento e estruturas são “engessadas”. A teia do conhecimento vai se formando frágil propositalmente para que se possa repensar qualquer coisa a qualquer momento e mudar, mudar, mudar (mesmo que seja uma ilusão de mudança para satisfazer o vício). A transformação é a tônica de tudo. Parece que não percebem que aquele que se transforma continuamente e velozmente é algo ou alguém sem identidade. Quem é você? Será que souberam interpretar a metamorfose ambulante do Raul?

Mas nem tudo está perdido. Enquanto se perde a identidade e se discute a dominância da tecnologia; enquanto se percebe a ignorância de valores referenciais e se assiste à confusão sócio-cultural; surge cada vez mais espaço para mensagens do tipo “encontre seu propósito”. Seria isso um grito de socorro de um inconsciente que já percebeu que o egoísmo dominante é uma tentativa de afirmação de uma identidade que se esvai liquefeita por crenças enganadoras? O ego lutando para sobreviver! Que ego inseguro é esse?

Aparentemente, é preciso perder a identidade e as referências para que a luz vermelha se acenda e surjam as dúvidas essenciais. Quem sou eu? Quem somos nós? Faça-se esse questionamento, mas não confunda o que você é com o que você faz.

Enquanto muita gente se preocupa com os negócios digitais, startups, transformação exponencial, tecnologias,e conectividade, indústria 4.0, etc., há alguns poucos que percebem a verdadeira transformação em curso: a transformação do homem e da sociedade. Não uma instrumental, mas uma essencial.

Está em curso uma metamorfose, mas não é tecnológica. A tecnologia é um estopim, um gatilho, ou um reflexo. É claro que ela, tecnologia, se instalará em nosso meio, mas não é isso que importa. Assim como o apelo tecnológico tem maior expressão atualmente, já vivemos o apelo ambiental, por exemplo. Essas questões se alternam, guardadas as proporções de cada época. Se um dia foi o vapor, hoje é computador quântico. Se um dia foi o petróleo, hoje é a o Sol. Se um dia lutamos por liberdade política e sexual enquanto nos aprisionávamos pela indústria, hoje lutamos por liberdade laboral enquanto nos aprisionamos à digitalização. Pelo menos somos livres para escolher e desenvolver nossa própria prisão. E há quem diga que não há escolha, como se algum dia ela tivesse nos faltado. Não ter escolha é praticamente a definição de prisão.

Mas todas essas pressões são circunstanciais e estão fora do próprio indivíduo. Desejamos até hoje ardentemente por um individualismo, uma necessidade imperiosa de diferenciação (às vezes auto diferenciação). Reivindicamos voz, direitos, liberdades. Vivemos hoje talvez um ápice dessas conquistas e é nele que temos encontrado problemas. Parece haver muitas vozes, muitos direitos, muita liberdade individual (a de um em detrimento da do outro).

Nascem hoje gerações cheias de voz, de direitos e liberdades clamando por mais coletividade, mais dever de compaixão, mais interdependência. Muitos negócios já se baseiam em redes e outros tantos só fazem sentido se conduzidos por coletivos. Não é à toa que nossos papéis sociais (aqueles desempenhados presencialmente) vem sendo substituídos por nossos perfis sociais. E os perfis sociais seguem a onda da transformação e da liquidez. Você pode ter mais de um, inclusive. Nele você vive um papel, as vezes quase uma caricatura, nem sempre (ou quase nunca) sua essência.

A diversidade toma proporções e importância prática nunca vista. Populações são cada vez mais miscigenadas, reconhecemos gêneros os mais diversos, as tribos se multiplicam, as fronteiras perdem a nitidez. As opiniões se multiplicam e aceitar todas elas parece mais correto que encontrar as mais corretas. Tudo parece ser manifestação legítima que multiplica as referências fundamentais. Novamente, uma espécie de liquidez manifestada de forma prática e às vezes bem concreta. Quando se tem tantas referências, tende-se a não ter nenhuma. No limite, como cada coisa diferente pode ser tomada por referência a cada instante, é como não tê-las.

Que transformação afinal está realmente em curso? Me parece que o ser humano vem mudando por dentro, mudando sua essência. Sem referências firmes, com transformações circunstanciais contínuas e à procura de um grande propósito pessoal e comunitário, parece que a descoberta da essência humana carrega consigo a fragilização do ego e a consolidação de uma consciência cada vez mais coletiva que se consagra apenas na interação com o outro.

Nesse caso, as perguntas continuam válidas, mas é preciso trocar o sujeito e o pronome. A própria língua, signo máximo da capacidade intelectual humana, precisa se transformar: a primeira pessoa do singular será nós.

Abraços

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