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O equívoco na contratação de projetos, é preciso mudar a negociação

September 23, 2019

Uma das coisas que a difusão do BIM tem deixado clara para o mercado é que o desenvolvimento de projetos em construção civil é um trabalho coletivo. A expressão “colaborativo” é usada com intensidade. Mas isso não é uma prerrogativa do BIM especificamente, é uma demanda do processo em si e, portanto, existe independente do BIM.

 

O costume predominante no mercado é que contratantes solicitem projetos, descrevendo sucintamente sua demanda (às vezes a partir de uma ou duas conversas com algum profissional). Os profissionais, por sua vez, elaboram suas propostas normalmente focados no que será entregue. Alguns usam listas de documentos, outros são mais genéricos e a maioria se limita a registrar que entregará o projeto na disciplina XPTO. Há quem inclua algum tipo de “coordenação” das demais disciplinas na proposta (sem dizer como é feita). Uma parcela discrimina etapas do desenvolvimento, mas com o intuito de definir parcelas para o pagamento dos serviços. Confira nas propostas de projeto (as que você enviou ou recebeu).

 

Há nisso um equívoco sutil e fundamental. E ele começa pela distinção entre o produto e o processo envolvido no desenvolvimento de projetos de construção civil.

 

Já tratei por mais de uma vez neste blog, sobre a distinção entre projeto processo e projeto produto. Recomendo a leitura. São dois artigos simples e curtos que estão em https://www.reneruggeri.com/single-post/2015/09/21/Projeto-Processo-e-Projeto-Produto , ou ainda https://www.reneruggeri.com/single-post/2015/04/03/O-que-%C3%A9-projeto-Projeto-Processo-e-Projeto-Produto.

 

Pois bem, o fato é que contratantes e contratados tendem a abordar o projeto apenas como produto nas relações comerciais. Por mais que os profissionais entendam que estão vendendo um processo de trabalho, as propostas normalmente referenciam o produto desse processo e não o processo em si. Dessa forma, o cliente assume que está contratando o produto.

 

Ora, todo produto decorre de um processo produtivo. Assim, o projeto produto é resultado do projeto processo. As características de um produto são nele introduzidas pelo processo produtivo. Processos produtivos diferentes geram produtos diferentes. Você, projetista, imagine-se desenvolvendo uma solução sozinho ou em parceria (pra não falar em equipe). O resultado seria o mesmo em qualquer caso? Evidente que não! A solução (essência do produto) é diferente em cada processo.

 

Se processos diferentes geram produtos diferentes, qual processo gera os melhores produtos? E, decorrente disso, qual processo o cliente deveria contratar a fim de garantir os requisitos do produto que deseja? Ou então, que processo um profissional deve vender para dar ao cliente a garantia de que fornecerá produtos com melhores características?

 

A negociação de projetos para a construção civil deveria ser feita sobre o Processo de Desenvolvimento do Projeto, o PDP, e não apenas sobre o produto que será entregue, já que ele é consequência. Pode-se argumentar que processos diferentes podem gerar o mesmo produto. Sim, é possível. Mas em que condições isso ocorreria e que tipo de produto seria? Se dominamos o PDP, devemos saber responder a isso. Na realidade, essa situação de igualdade é possível em teoria. Na prática, nenhum projeto será igual se o processo for alterado (mesmo que se mantenha a equipe). Então, mais uma vez, o processo de desenvolvimento do projeto é tão ou mais importante que o produto que dele decorre.

 

Mas este processo é praticamente desconsiderado nas propostas técnico-comerciais e nas negociações. E o cliente, ao comparar propostas, está, então, comparando alhos com bugalhos, mesmo que as características genéricas do produto pareçam ser idênticas. Devemos lembrar que este é daqueles casos em que o produto não pode ser previamente analisado (o que reforça a necessidade de avaliar prioritariamente o processo).

 

Não é à toa que com a implantação do BIM, os processos precisam ser transformados. Neste paradigma, o processo é necessariamente colaborativo. Esta plataforma foi desenvolvida com esta premissa. Logo, a colaboração não é uma opção, mas uma necessidade do trabalho em BIM. Mas, atenção: você pode usar as ferramentas BIM com processos não colaborativos, mas não estará efetivamente fazendo BIM neste caso.

 

Por outro lado, você pode usar processos colaborativos com ferramentas menos adaptadas a ele, como CAD ou mesmo a prancheta (se inda fosse usada no mercado). Aliás, o CAD possui ferramentas específicas para isso há uns 30 anos e pouquíssimos escritórios e profissionais as usam (eu diria que menos de 5%). Não é preciso esperar o BIM para iniciar o trabalho coletivo, ou colaborativo.

 

Portanto, se você elabora (ou solicita) suas propostas com base no produto, saiba que não está oferecendo (ou contratando) nenhuma garantia de resultados. Sem conhecer o processo de trabalho que será usado, não se pode avaliar consistentemente quais procedimentos serão usados para garantir visão crítica na concepção, estimulo à criatividade, trânsito livre de informações, integração de requisitos, etc.

 

É como comprar um sapato com a caixa fechada e só descobrir suas características no dia de usar. Se não for bom pro cliente, será tarde demais para resolver.

 

O cliente sempre tem a opção de confiar na marca. Um escritório renomado tem autoridade (mesmo que seus processos sejam desconhecidos pelo cliente). Mas devemos lembrar que passamos por mudanças radicais no mercado com a transformação digital, as culturas das novas gerações, a reordenação social que vem ocorrendo, a mudança de base energética, etc., etc., etc. Não é tão confiável hoje em dia acreditar que o que foi referência notável há alguns anos continue sendo. É preciso reconsiderar caso a caso. Autoridades precisam ser constantemente revalidadas nessa época de mudanças e fake news.

 

Contratantes e contratados perguntam, então: como redefinir processos de trabalho e como incluir isso nas negociações? A resposta talvez não caiba num artigo de blog, mas posso dizer que é possível. Aqui, nossa intenção é apenas alertar para o equívoco.

 

E uma coisa é certa: o PDP ainda é um processo com intensa aplicação de pessoas; gente trabalhando. Logo, é preciso saber lidar com gente para conduzir esse processo, além de conhecer o próprio processo. Infelizmente, esse não é um conteúdo programático aprofundado nos cursos de arquitetura ou de engenharia. Isso pode parecer de pouca importância, mas explica porque as propostas técnico comerciais nesta área não abordam os processos. A verdade é que se tem dificuldade de abordar o processo objetivamente por falta de conhecimento sobre ele e seus recursos. Por isso, o trabalho com projetos parece ainda se basear nos talentos individuais, no nome de profissionais “iluminados” (embora processos que dependam exclusivamente deles sejam processos frágeis e com pouca garantia).

 

É como vender um trabalho de time contando apenas com um jogador que valha mais que o time todo. Mas esse esporte é coletivo!

 

Vai comprar ou vender projetos? Compre ou venda a consistência dos times, do trabalho coletivo (colaborativo). Contratar um time não impede de ter estrelas nele, mas contratar estrelas não garante que se tenha um time.

 

Abraços

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