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Esclarecendo o BIM

May 30, 2019

Há algumas semanas, contribui em um grupo de discussão de engenheiros sobre algumas questões muito pertinentes e oportunas levantadas sobre o BIM. Transcrevo pontos que foram levantados por um colega (entre aspas) e, na sequência, as contribuições que fiz. Acredito que as colocações possam interessar a mais pessoas, até porque já ouvi e respondi questões semelhantes em diversas outras ocasiões. Ou seja, os pontos levantados são recorrentes na discussão sobre BIM no mercado em geral.

 

Seguem eles...

 

 

 

“Me conta uma coisa: como é possível alguém querer aprender plataforma de compatibilização de projeto se não sabe fazer PROJETO?”

 

O BIM não é uma mera plataforma de compatibilização de projetos. Ele até serve a isso também, mas é bem mais. O BIM, quando bem entendido e aplicado, exige exatamente o que você cobra, que se saiba projetar. A gestão de informações da construção exigida pelo BIM vai muito além das questões espaciais (foco comum das compatibilizações, embora incompleto). A espinha dorsal do BIM é a informação e não a modelagem (um modelo não serve pra muita coisa se estiver vazio de informações). Pense no modelo BIM como um banco de dados relacionais, no qual o modelo 3D é uma interface de visualização (não a única). Para construir esse banco de dados de forma funcional, além de conhecer as informações, é preciso conhecer as relações entre elas. Ou seja, ou o profissional conhece de construção civil (conciliando sua especialidade numa visão sistêmica e relacional), ou ele não usará BIM, mas apenas software de modelagem. Por isso o trabalho em BIM precisa ser colaborativo, porque ninguém é especialista em tudo na construção civil. Mas você está certa quando diz que não adianta aprender BIM se não souber fazer projeto (pelo menos pra quem quer ser projetista). O BIM te induz a um processo de trabalho abrangente, integrado, sistêmico e colaborativo, mas não te ensina a fazer projeto. Particularmente acho que mais da metade do mercado não percebe essa diferença.

 

“A plataforma BIM é apenas um instrumento digital para virtualizar o que acontece na prática.”

 

Na realidade a “plataforma BIM” é uma coisa, o BIM em si é mais que plataforma. É comum referenciarmos a tal “plataforma BIM” quando estamos explicando, pra tentar nos fazer entender. Mas isso dá a impressão de que o BIM se resume a questões tecnológicas, o que é um equívoco. O BIM exige adaptações de processos de negócios nas empresas, incluindo, claro, os processos de produção (sobretudo de projetos). Ao mudar os processos, o BIM exige uma nova mentalidade dos profissionais que, como você mesma disse, não se transforma da noite pro dia. Migrar para o BIM significa muito mais que mudar de plataforma tecnológica. É preciso mudar sua forma de trabalhar e de pensar sobre os processos da construção civil como um todo. Talvez o problema nesse ponto seja o fato de que o BIM exija tecnologia para que seja viável, mas isso não significa que ele em si seja apenas tecnologia. Isso deve demorar pelo menos uma geração pra cair a ficha.

 

“Atentem para o marketing, que é o futuro, que é num sei o que, que o aluno de engenharia tem que sair da faculdade sabendo BIM.”

 

Isso é inevitável. Como um dos pilares do BIM é a mudança na forma de pensar sobre como fazer construção civil, os alunos precisam ser acostumados com esse novo mindset. Isso não se resume a aprender softwares (e nesse ponto eu devo concordar com você, que fazer apenas isso não é muita coisa). O paradigma do BIM deve ser difundido em todo o curso. É preciso ajustar o que entendemos sobre processo construtivo, controles de qualidade, planejamento, orçamento, etc. Ele (o BIM), na realidade, tem uma parcela grande contida no que chamamos currículo oculto, que é aquilo que você aprender sem estar explícito na grade curricular (grosseiramente explicando). Para pensar sistemicamente, não adianta apenas fazer um curso de pensamento sistêmico, você precisa ser formado dessa forma (diferente de informado). Atualmente as faculdades formam com base no paradigma do pensamento particionado (típico do método científico usado por quem o conhece apenas como método, sem a carga filosófica que ele demanda). A especialização é necessária (como disse antes), mas ela não significa fechar as fronteiras do conhecimento. Sem a estrutura mental de uma visão sistêmica integradora, as especialidades ficam estanques e você continuará tendo o trabalho que descreveu sobre resolver interferências no final do processo. A causa do trabalho que você tem hoje (como você explicou no seu texto) para compatibilizar não é simplesmente o fato de não saberem fazer projeto, mas o fato de não saberem pensar sistemicamente (que, inclusive, antecede fazer o projeto). Contribui para isso a limitação das nossas ferramentas de trabalho que não favorecem o nível de integração necessário (diferentemente com o BIM).

 

Enfim, suas colocações são providenciais para levantar a discussão sobre o papel do BIM numa visão mais completa a integrada. Pensá-lo apenas como tecnologia, como tem feito o mercado que não entende bem ainda, é um equívoco comum e que precisamos combater para não fazer com o BIM algo semelhante ao que fizemos com o CAD. Menos de 10% do mercado usa as ferramentas de trabalho colaborativo do CAD. Isso não é falta de domínio da tecnologia, mas falta de domínio de processos de trabalho e do mindset adequado. Como você disse, e eu concordo, o pessoal sabe usar ferramenta, mas não sabe fazer projeto, são coisas diferentes, embora complementares.

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