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O que eu contrato? Arquiteto ou Engenheiro?

May 29, 2019

Não gosto de entrar nesse tipo de discussão a não ser em meios reservados e realmente profissionais, onde a discussão é desenvolvida em busca de uma evolução, mas um post no facebook me fez repensar esta posição. Minha motivação não é a dúvida apresentada pela pessoa (leiga no meio técnico da construção, claro), mas sim pelas respostas apresentadas, sobretudo porque algumas visivelmente tinham o objetivo de induzir uma decisão e não de responder à dúvida em si. Outras, façamos justiça, davam um encaminhamento mais correto.

 

Pois bem, a dúvida apresentada é (tirei um extrato do texto postado): ... não sei se é o engenheiro ou arquiteto que faz o desenho... o que o engenheiro ou arquiteto tem que me dar fazendo a planta com ele... ele tem que me passar os materiais que eu vou gastar quantidade de material ou não?

 

A primeira dúvida a ser respondida seria: o que devo contratar se o meu problema é construir alguma coisa?

 

Se você precisa construir e não sabe com fazer isso, você precisa do apoio de alguém que saiba. Então, a primeira coisa a fazer é contratar uma consultoria que te ajude a especificar o que você precisa e quais suas alternativas. Parece óbvio, mas não é. E se você procurar um projetista, provavelmente ele vai te vender um projeto. A pergunta é, você deve mesmo construir? Explico, a seguir, com exemplos.

 

Exemplo 1

Você já se planejou financeiramente para construir? Tem ideia de quanto precisará e como conseguirá os recursos financeiros? Já cansei de ver casos em que se paga pelo projeto para descobrir que não tem condição de construir. Ou seja, o profissional que lhe prometeu realizar seu sonho vai consumir o pouco recursos que tem e te deixar com um novo problema na realidade: ter um projeto, não ter como executá-lo e não ter mais a reserva que usou para pagar o projeto. Normalmente, um dos resultados disso é adiar seu “sonho” e gastar depois com um novo projeto de uma obra “mais em conta”. Agora, se você já estabelecer o valor a que tem acesso e já tiver a indicação do que é possível fazer com esse valor, seu projetista terá que se adequar a estes requisitos, claro, com uma faixa de desvio tolerável (de preferência explícita em contrato). Conclusão, antes do projetista você precisa de alguém que te ajude a planejar o empreendimento como um todo.

 

Exemplo 2

Certa vez chegou ao meu escritório um potencial cliente querendo transformar uma residência num pequeno restaurante para expandir seu negócio de fornecimento de marmitas. Ele queria abrir ao público. Conversando, percebi que o problema dele era aumentar a renda e não construir o restaurante (é um erro comum entre os profissionais focar na obra e não no real problema do cliente). Analisando a situação, não foi difícil perceber que era mais negócio vender o imóvel e adquirir um terreno melhor localizado. Achamos rapidamente durante a conversa, um terreno a menos de 200 m, muito melhor para um restaurante e que custava cerca de 60% do valor do imóvel dele. A troca, além de representar melhores condições para o empreendimento, significava fazer caixa para iniciar a obra.

 

Exemplo 3

Há também o caso clássico de quem contrata projetos, inicia a obra e não consegue terminar por falta de recursos. Isso acontece em inúmeros casos. O cliente troca o problema de não ter a casa que sonha (mas ter algum recurso guardado), por gastar o recurso que tem, continuar não tendo a casa e ainda estar (quase sempre) endividado com operários, fornecedores ou banco. E ainda ficou com o elefante branco. Se der sorte, conseguirá um bom valor nele. Trocou o sonho por um pesadelo.

 

Enfim, selecionando, de fato, a alternativa de construir, parte-se para os primeiros trabalhos. E agora: engenheiro ou arquiteto?

 

A resposta é: ambos, simultaneamente. Me entenda bem: SIMULTANEAMENTE. Explico por quê: além de ambos se ajudarem, também se policiam para que não tomem decisões tendenciosas durante o desenvolvimento do projeto. Há uma infinidade de possibilidades e a decisão de projeto deve ser a melhor para resolver o seu problema e não a que um profissional julga melhor. As decisões têm que ter uma explicação razoável, focada no problema. Decisões importantes são tomadas por juntas médicas e sua obra custará mais que qualquer cirurgia importante. Na construção você não estará decidindo à beira da morte, mas à beira da vida que terá no futuro. Exija essa assertividade da equipe de projeto. Exija conversar com todos os profissionais desde o começo e não se contente com explicações justificativas simplórias para as decisões de projeto. Envolva-se.

 

Alguém poderá argumentar que contratar equipes fica muito caro. Neste caso eu lhe recomendaria desistir de tudo. Os projetos custam de 5% a 10% do valor da obra (em média). Se você acha isso caro, vai cair duro com o custo da obra. Além disso, se teve apoio do consultor no início, estará preparado para os custos. Lembre-se também que contratar todos juntos ou um depois do outro vai apenar diluir o custo no tempo, não vai baratear o serviço. Não se iluda. O melhor remédio para a ilusão é o planejamento (que você já deve ter feito se iniciou a odisseia de construir). Além disso, todos juntos tendem a encontrar soluções melhores e mais baratas e o que parecia gasto com certeza vira economia.

 

Eu recomendaria fortemente não aceitar que todas as especialidades sejam subordinadas a uma única (normalmente a arquitetura). O estágio mais avançado de liderança é a liderança situacional, ou seja, lidera momentaneamente quem tem a melhor condição de tomar uma decisão correta. Mas, é certo admitir que em boa parte das vezes é o arquiteto que tem essa condição. Equipes de alto desempenho possuem liderança situacional, essa é uma característica que você deve observar no comportamento da equipe contratada.

 

OK, você decidiu contratar uma equipe. Mas o que deve pedir que ela entregue (essa é uma das dúvidas originais do post)? A resposta mais direta é: tudo o que for preciso para seu empreendimento. Mas o que é esse tudo? Vou te ajudar a entender...

 

Seu prédio terá uma arquitetura, certo? Então você precisa de um arquiteto para o prédio. Pode ser um engenheiro? Ambos os profissionais desenvolvem perspectivas de análise do empreendimento bem diferenciadas. Enquanto os engenheiros possuem um olhar mais focado em técnica da construção, arquitetos possuem um olhar mais focado na criação dos ambientes e na relação das pessoas com os mesmos (não é tão simples assim a diferenciação, mas pra explicar é preciso um livro e não um parágrafo). Ambos os pontos de vista são fundamentais. Mas você tem uma equipe, lembra-se? Então o que você deve se preocupar é em ter ambos os profissionais na equipe e exigir que trabalhem juntos dando-lhe igualdade de poder nas decisões. O entendimento entre ambos é problema deles, desde que cheguem à melhor solução para o seu problema. Se perceber que um está “dominando” as decisões, peça francamente a opinião do outro. É esse diálogo que vai garantir o melhor resultado. E, por fim, a obra é sua e a decisão também.

 

Seu prédio terá também estruturas, instalações elétricas, instalações hidráulicas, ar condicionado, gás de cozinha, iluminação, decoração, paisagismo, etc. Tudo que é importante pra você no seu empreendimento deve ter um responsável para projetar. Pode até acontecer que um mesmo profissional se responsabilize por mais de uma destas áreas. O fundamental é que você saiba quem é o responsável por cara parte do seu empreendimento. Atenção: se você considera algum item particularmente importante no seu empreendimento, esclareça quem será o responsável especificamente dele. Pode ser a lareira, uma pele de vidro, um sistema de irrigação, um forno de pizza, o forro de gesso todo trabalhado, etc. Você é o dono e pode exigir responsabilidades específicas pelo que julgar crítico para atender seus requisitos. Exija documentação de responsabilidade técnica específica para se resguardar quanto a potenciais problemas. Você pode acabar descobrindo que precisa envolver fornecedores especializados em alguns itens que não são dominados detalhadamente pela equipe. Já vi isso acontecer com esquadrias especiais, com paisagismo, com impermeabilizações, com automação e por aí vai, a lista possível é grande.

 

Ufa! Equipe montada? Agora é saber o que exigir desta equipe.

 

O projeto é desenvolvido em etapas que vão passando dos conceitos mais gerais ao detalhamento de cada elemento. Aviso importante: a aprovação na prefeitura está nas etapas iniciais e não nas finais (na realidade mais ou menos no meio do processo). Pense bem, não vale a pena detalhar para construção algo que pode não ser aprovado. Então, você deve aprovar os projetos (arquitetura, entrada de energia, bombeiros, se for o caso) nas etapas iniciais e não nas finais pra não ter que refazer trabalhos. Pode ter certeza que as teorias de projeto dizem isso porque é uma questão de lógica. Não precisa ser arquiteto ou engenheiro pra entender de lógica.

 

Existem todos aqueles desenhos técnicos típicos da construção. Mas atualmente a tecnologia simplifica muito a produção de imagens tridimensionais e outros recursos de comunicação. Se você se sente melhor olhando tridimensionalmente porque não compreende aqueles desenhos “complicados”, exija isso. Lembre-se mais uma vez, o projeto é seu e para que você aprove precisa entender como seu problema está sendo resolvido. Logo, além dos desenhos técnicos típicos, não se acanhe em pedir recursos visuais como imagens tridimensionais internas e externas, textos explicativos (memoriais descritivos e memoriais justificativos), maquetes, etc. Peça que tudo seja documentado em cada etapa. Isso lhe dará garantia de poder recuperar informações e, inclusive, pedir opiniões de outros profissionais pra se sentir mais seguro. Nesse caso, claro, escolha profissionais da área.

 

Você já ouviu falar de viaduto que caiu, ou daquele disjuntor que não fica ligado, ou de torneiras que diminuem o fluxo de água quando outras são abertas. Exija as memórias de cálculo de tudo. Esses documentos parecem não ser úteis. Mas pense bem: se o profissional dimensionou de alguma forma, ele pode explicar como fez. E, mais que isso, se não funcionar na hora de testar, está documentado o dimensionamento e será possível verificar. Se não houver memórias de cálculo, qualquer um poderá dizer que o erro foi do outro. É comum projetista culpar construtor e vice-versa quando acontece algum problema.

 

Para que não haja erro nas compras exija também o que chamamos de especificações técnicas. São documentos que estabelecem tudo o que é preciso para que cada elemento da obra seja exatamente aquele que tenha o desempenho previsto para que tudo funcione perfeitamente bem. Não aceite especificações apenas nos desenhos. No momento de comprar acabamentos, materiais para instalações diversas, materiais brutos como impermeabilizantes, colas, argamassas, etc., se você não tiver a especificação do que você quer, o vendedor te empurrará o que ele tem na loja. E pode não ser uma boa alternativa. Você pode pedir, e isso é prudente, que, além de marca e modelo, as especificações incluam as características físicas dos materiais. Assim, poderá usar um similar, ou seja, com mesmas características. As especificações, além de focar os materiais podem também descrever o método correto de aplicação, ou seja, especifica-se também os serviços a serem feitos e como deem ser feitos.

 

Liste tudo aí pra cima e peça tudo isso da equipe contratada. Negocie com eles, porque, claro, tudo tem um custo. Se não te entregarão certos itens, negocie descontos.

 

Falta ainda a última dúvida, aquela sobre quantitativos e orçamentos. Vamos a ela...

 

Há dois tipos de quantitativos: o de materiais, que ajuda nas compras, e o de serviços, que ajuda a contratar a mão de obra. A rigor, os projetistas devem entregar quantitativos de materiais, porque o de serviços já tende para planejamento de obra. Eu recomendaria que você contrate junto com o projeto, na mesma equipe, o orçamento da obra. No meu escritório coloco isso como exigência. Exija dos projetistas os quantitativos de materiais (lista de materiais) e do orçamentista (mais um profissional para a equipe) os de serviços. Entre eles pode ser que negociem que os próprios projetistas entreguem quantitativos de serviços, tudo bem, decisão interna da equipe. Mas uma coisa é certa, o orçamento é feito sobre listas de serviços (que consideram custos de mão de obras, equipamentos, custos indiretos, etc.) e não sobre listas de materiais. E não esqueça, os limites de custo foram condições contratuais, não aceite desvios fora da tolerância.

 

Enfim, acho que já demos uma boa esclarecida. Desculpe se o texto é um pouco extenso, mas lembre-se: se você vai investir dezenas de milhares de reais, não pode se dar ao luxo de não se envolver.

 

Se quiser ficar livre da dor de cabeça, contrate alguém de confiança para cuidar disso pra você (um gestor de empreendimentos). E não deixe que te vendam administração de obra como gestão de empreendimentos, pois, enquanto um foca na obra o outro foca na resolução do seu problema. A obra é o meio de resolver seu problema de hoje, desde que alguém foque atenção nele. Caso contrário, a obra pode, como vimos, virar seu problema de amanhã.

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