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Intrapessoal e interpessoal: dependência filosófica antiga

May 24, 2019

 

Não vi início melhor para este texto que repetir a pergunta que nos ronda há cerca de dois mil e quinhentos anos: “conhece-te a ti mesmo?” (Sócrates, 469 A.C. a 399 A.C.).

 

 

Já naquela época os grandes pensadores percebiam a importância do autoconhecimento como ponto de partida para a compreensão de todo o universo.

 

Protágoras (481 A.C. a 411 A.C.), por outro lado, pouco anterior a Sócrates, refletiu que "o homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são". Percebia-se desde aquela época a questão do relativismo.

 

 

Heráclito (540 A.C. a 470 A.C.), por sua vez anterior a ambos, afirmará que “nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tão pouco o homem”.

 

 

Sócrates, aliás, criticou duramente o relativismo (artifício de reflexão dos sofistas) quando era utilizado para interesses do indivíduo (a referência) e não da compreensão sobre as coisas em si. A compreensão não ocorre pela afirmação do que se pensa, mas pela descoberta do que de fato pode ser tido como universal.

 

Colocar estas três lições da filosofia em sua sequência temporal nos conduz ao seguinte pensamento: tudo muda o tempo todo no mundo, inclusive o próprio homem que, por se tomar como medida para todas as coisas, tem sua compreensão do mundo e de si mesmo alterada a cada instante não apenas pela fluência de sua referência (si mesmo), mas do próprio mundo.

 

Eis um dilema não apenas do conhecimento, mas, sobretudo, do autoconhecimento. Como dizer que alguma coisa é, se num segundo instante ela já se transformou? A rigor, considerando a continuidade da mudança, tudo é ao mesmo passo que deixa de ser.

 

Nisso se baseia nosso interesse no passado e no futuro. Reside também nessa constatação um segundo pilar do pensamento de Heráclito: a unidade dos contrários. Algo que segue a lógica existente em: a saúde existe porque há doença. Afirmar que algo é azul implica afirmar que não é vermelho, por exemplo.

 

A verdadeira compreensão não é uma fotografia, mas um filme. O momento é estático, mas a realidade é dinâmica. Precisamos refletir se nos interessa compreender o momento que já não existe ou a realidade que é dinâmica.

 

Juntemos tudo isso e, pensando em autoconhecimento, será fácil concluir que ao sermos o que somos, deixamos de ser o contrário, pelo menos no momento específico e com a referência do instante. Em seguida, com referência alterada (nós mesmos), podemos compreender que fazemos ou somos outra coisa ou de outro jeito.

 

Vem a nosso socorro, nessa situação em que parece não haver saída para uma compreensão ou autocompreensão segura, Aristóteles ao afirmar que “você é o que repetidamente faz”. Isso parece dar alguma estabilidade no tempo ao pensamento de transformação contínua proposto por Heráclito. Mas introduz uma necessária percepção do que é feito para se compreender o que se é. Perceber a repetição exige a constância na observação.

 

Em psicologia poderíamos associar o que é feito ao comportamento que, por sua vez, é percebido pelos outros e pelo próprio indivíduo. Como são medidas deferentes (lembremos Protágoras), é claro que os comportamentos são compreendidos de forma diferente por cada um. A ajuda de Aristóteles ao dar alguma estabilidade à mudança contínua, introduz uma distinção objetiva, embora dependente, entre a coisa e a interpretação que fazemos dela. Se a interpretação reside no mundo das ideias (separação proposta por Platão), para Aristóteles as ideias estão instanciadas nas coisas (no mundo sensível, segundo Platão) e ambas coexistem necessariamente. Não há ideia universal sem instância particular (o que reverbera a lógica contida na afirmação de Heráclito, pois atingir a ideia universal exige as interpretações particulares de instâncias especificas).

 

Reflexão sempre possível será perceber que é realmente difícil o entendimento do mundo partindo de medidas (referências) distintas, construído a partir de instâncias particulares, com base em interpretações de ideias que se pretendam universais. Como algo universal poderia ser compreendido nesse contexto tão individualizado?

 

Neste ponto caímos numa discussão ainda mais difícil porque segundo o que dissemos até aqui, o universal está na esfera do metafísico, no mundo das ideias. Como permanecemos naturalmente presos à interpretação de instâncias, a universalização do próprio conceito de universal é um desafio à parte. Podemos pensar naquilo que está contido em todos os elementos de uma categoria (realismo) ou numa ideia que possa ser derivada das coisas (conceitualismo) e reaplicada como traço característico de uma categoria. São caminhos diferentes para tentar estabelecer algo geral.

 

Aplicar conceitos “universais” às instâncias é, então, um desafio inglório, mas que precisa ser enfrentado, pois é com base nele que procuramos algo que possamos chamar de verdade (ideia tão ou mais difícil que a de universal).

 

Mas onde entra o autoconhecimento nessa argumentação?

 

A questão é que, para início de conversa, o autoconhecimento é sempre instanciado, ou seja, baseado em interpretações realizados com base na própria medida. O autoconhecimento não se confunde com o conhecimento que os outros possam construir sobre nós mesmos. Ninguém pode lhe dizer o que você é porque estará limitado a observar apenas seu comportamento e fisiologia (instâncias) comunicando-os com terminologias que pretensamente traduzem ideias universais.

 

Após milhares de anos de existência, a humanidade conseguiu construir alguma convergência sobre algumas ideias tratadas como universais. Na prática, sempre há risco de interpretações equivocadas, dado que a transmissão das ideias tidas como universais é mediada pelas coisas sensíveis que, por definição, são instâncias. Ou seja, a convergência dessas ideias aparentemente universais nos permite buscar compreensões que possam ser aplicadas a nós mesmos e também aos outros para estabelecer comparações. Afinal, o que somos convive com o que não somos, mas que são os outros.

 

Encontramos, então, uma explicação relativamente consistente do porque o autoconhecimento e o conhecimento do outro são construídos conjuntamente. O princípio da unidade dos contrários de Heráclito, induz que conhecer o que você é pressupõe conhecer também o que não é, pois coexistem. E tudo que você não é, poder ser o que os outros são.

 

Parece complicado, mas captando os fundamentos do pensamento que nos acompanha há cerca de 2500 anos, não é difícil compreender que, sendo uma medida continuamente mutável num mundo a ser mensurado continuamente, a busca do homem pelo autoconhecimento requer a identificação de quais instâncias das ideias pretensamente universais repetidamente são percebidas por ele naquilo que é em si mesmo, consciente de que sua verdade surgirá quando os outros identificarem as mesmas ideias naquilo que repetidamente faz. Essa convergência, em verdade, é necessária porque o autoconhecimento está intimamente associado ao conhecimento do outro.

 

Talvez a maior dificuldade disso esteja no fato de não termos nos acostumados ainda a lembrar que o rio não para de correr e, portanto, o autoconhecimento e o conhecimento do mundo não é uma conclusão, mas um processo de constante renovação. Se o mistério do momento seguinte não persistir, nossa capacidade de abstrair, lembrar o passado e imaginar o futuro, perde o sentido e qualquer conhecimento (inclusive o autoconhecimento) deixa de fazer sentido. Para que nos conhecermos e conhecermos ao outro, se o que já sabemos até um momento é exatamente o mesmo dos momentos seguintes? Essa situação inviabiliza o próprio conceito de conhecimento.

 

Por isso, a questão de Sócrates é tão instigante, necessária e potente. Conhecermo-nos a nós mesmos é a base do conhecimento de tudo.

 

 

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