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Compatibilização de projetos e clash detection não são a mesma coisa

April 30, 2019

A natureza do trabalho de compatibilização de projetos de arquitetura e engenharia requer o entendimento de alguns conceitos e contexto fundamentais para uma avaliação criteriosa de sua importância. Apresentamos a seguir, de forma objetiva os principais pontos necessários para esse entendimento. É preciso dominar esses conceitos para tratar do tema compatibilização de forma correta e completa, sobretudo quando a meta é atribuir qualidade ao projeto de um empreendimento (o que cobre quase a totalidade dos casos).

 

 

 

Compatibilização e qualidade de projeto

 

A compatibilização das soluções em projetos de arquitetura e engenharia sempre foi tema de fundamental importância e vem experimentando destaque adicional em função do crescimento do paradigma BIM – Building Information Modeling.

 

Antes praticamente exclusiva a coordenadores de projetos, atualmente a compatibilização tornou-se tema regular para qualquer projetista, em qualquer disciplina técnica.

 

O aspecto mais conhecido da compatibilização diz respeito à detecção de interferências físicas entre elementos constituintes de soluções dadas para disciplinas diferentes. Essas interferências, chamadas genericamente de incompatibilidades, manifestam-se visivelmente no espaço e são facilmente perceptíveis quando usados sistemas de modelagem tridimensional típicos no BIM. A operação de encontrar tais interferências é conhecida por clash detection (detecção de interferências).

 

Equívoco comum, entretanto, comete-se ao considerar que o clash detection, por si apenas, garante qualidade ao projeto de arquitetura e engenharia. É possível identificar e resolver interferências entre quaisquer soluções dadas aos diversos componentes de um empreendimento, mesmo que tais soluções não sejam adequadas. Ou seja, é possível compatibilizar soluções de baixa qualidade.

 

Assim, o clash detection é condição necessárias à qualidade em projetos, mas está longe de ser suficiente. A compatibilização efetiva, se tem por objetivo a qualidade do projeto, exige mais que o clash detection.

 

As dimensões da compatibilização

 

À medida que lida com a compatibilização, o mercado tem percebido que trata-se de tema mais especializado do que possa mostrar uma análise superficial. É comum tomar partes de um contexto como sendo ele próprio quando não se tem uma visão clara do mesmo. E isso ocorre facilmente com a compatibilização.

 

O clash detection efetua o que podemos chamar de compatibilização espacial, ou seja, uma análise para identificar quais elementos ou componentes conflitam em termos de espaço físico. Segue o princípio básico de que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço simultaneamente. É uma análise, digamos, meramente geométrica.

 

Contudo, há outros aspectos ou dimensões a serem analisados entre sistemas prediais (sejam eles fisicamente construídos ou apenas conceitualmente concebidos).

 

A compatibilização conceitual, por exemplo, analisa se os conceitos fundamentais entre as soluções das diversas disciplinas estão coerentes entre si. A questão é: há incompatibilidades conceituais entre as soluções? Por exemplo, todas elas seguem a diretriz de sustentabilidade traçada para o empreendimento? Ou ainda, todas permitem a integração com sistemas de automação predial? É importante perceber que se uma única disciplina de projeto deixar de seguir uma diretriz conceitual, o conceito do projeto como um todo corre o risco de ser mal avaliado. Vale a pena destacar que essa compatibilização já tem lugar nas primeiras etapas de desenvolvimento do projeto e permanece até sua conclusão.

 

A compatibilização de desempenho se aplica normalmente aos parâmetros de operação de equipamentos e sistemas (construtivos ou de instalações). A questão dominante é: o desempenho das soluções adotadas é compatível com as solicitações a que serão submetidos? É comum a existência de restrições em projetos que tornem a adoção de certos sistemas desnecessária. Por exemplo, adotar sistemas estruturais para grandes vãos em projetos cujos vãos são limitados pelas dimensões do espaço utilizado. Ou ainda, adotar equipamentos cuja potência ou produção é muito superior à necessária ao empreendimento (o equipamento tende a operar fora de sua faixa nominal e apresentar falhas ou depreciação acelerada).

 

Além da compatibilização entre solicitações de uso ou de montagem e o desempenho de uma solução qualquer num sistema, há também as solicitações e trocas entre sistemas diferentes. Um exemplo típico seria a equalização entre a capacidade de uma solução de ar condicionado, a disponibilidade de energia e a perfil de uso do espaço a ter seu ar condicionado (soluções para climatização, energia e processos de uso). É comum, para simplificação (embora alguns digam que seja por segurança), que se dimensione para uma combinação mais desfavorável de solicitações, mesmo que ela seja estatisticamente improvável.

 

A compatibilização orçamentária avalia se as soluções estão coerentes com o nível de investimento acessível ao empreendedor. Concepções de soluções que não podem ser implantadas por limitações orçamentárias são equívocos extremamente comuns (reparemos a quantidade de empreendimento paralisados antes da conclusão das obras).

 

Os casos e exemplos acima são meramente ilustrativos e têm por objetivo mostrar que o trabalho de compatibilização é bem mais abrangente que a mera compatibilização espacial e que esta, sozinha, mesmo representando melhorias, não cobre todos os requisitos de qualidade de um empreendimento.

 

Quaisquer outras dimensões importantes, segundo as quais as soluções devam ser analisadas, podem ser consideradas dimensões da compatibilização. Todas essas dimensões requerem a definição de parâmetros oriundos dos requisitos do empreendimento identificados logo no início do processo de desenvolvimento do projeto. Por esta razão, a compatibilização é na realidade uma característica do processo de trabalho e não uma ação exercida sobre o produto dele, pois ela ocorre a cada instante em que um requisito de qualidade é introduzido nas diversas análises em quaisquer disciplinas.

 

Compatibilização como processo

 

A compatibilização plenamente aplicada aos projetos de arquitetura e engenharia exige ajuste nos processos de trabalho. Ela inicia na definição de requisitos do empreendimento para estabelecer os parâmetros diretivos sobre os quais as análises serão desenvolvidas.

 

Ela participa na definição de diretrizes coerentes para a concepção e no apoio à equalização das soluções a estas diretrizes que as tornam coerentes entre si.

A compatibilização promove a distribuição das informações referenciais para que as soluções compartilhem harmoniosamente o espaço, o orçamento, as diretrizes básicas e tenham desempenho compatível com o empreendimento.

 

Talvez por esta razão, a compatibilização seja confundida com a coordenação de projetos, embora seja apenas uma das responsabilidades desta.

Efetuar uma análise de compatibilidade sobre os produtos resultantes de um processo não introduz compatibilização ao processo em si. Permite aumento significativo na qualidade do projeto, mas não impede que problemas voltem a ocorrer, exatamente porque o processo de desenvolvimento do projeto não foi alterado, mas apenas foi feita uma análise de compatibilidade sobre os produtos resultantes dele.

 

A compatibilização não é uma fotografia, mas um filme. Ou seja, ela deve ocorrer dinamicamente ao longo do processo de desenvolvimento o projeto. Ela também deve se relacionar externamente ao processo a partir do momento que quaisquer requisitos de qualidade envolvam partes externas. A compatibilização normalmente atinge níveis elevados de complexidade.

 

Nível de Detalhamento, Nível de Desenvolvimento e um pouco de qualidade dos projetos

 

Seria natural admitir que concepções bem compatibilizadas (em todas as dimensões) conduzissem a projetos de qualidade inquestionável. Em teoria isso faz sentido, mas, na prática, a dificuldade de efetivar a compatibilização plena mantem o esforço da qualidade vivo e desafiante. Além disso, tomando o projeto como conjunto de documentos ou modelos de informação, há aspectos além da concepção a serem analisados.

 

Assim como é possível compatibilizar soluções duvidosas para projetos de arquitetura e engenharia, é também possível documentar e comunicar boas soluções de forma falha.

As falhas na composição das mensagens e documentações dos projetos é tão comum quanto as falhas de compatibilização. A ocorrência sistemática de ambas, inclusive, pode induzir à ideia de que sejam problemas interligados. Na realidade não são tão interligadas assim.

 

A qualidade das soluções obtida a partir da compatibilização é de natureza diferente da qualidade da documentação (ou modelos) do projeto, mas ambas são fundamentais para o sucesso da implantação de um empreendimento.

 

O paradigma do BIM deu destaque no meio profissional a dois conceitos que expressam e distinguem bem essas situações: Nível de Detalhamento e Nível de Desenvolvimento. Enquanto um foca a quantidade e o detalhamento das informações incluídas ao projeto (ou modelo, no caso do BIM), o outro avalia o grau de maturação das soluções. Esses conceitos já existiam e seriam aplicáveis a qualquer tempo nos projetos, mas com o BIM é preciso distingui-los ativamente.

 

O Nível de Desenvolvimento está diretamente relacionado à compatibilização das soluções, mas não apenas a ela. Já o Nível de Detalhamento está relacionado à qualidade do produto entregue pelo processo de desenvolvimento do projeto, que pode ser um modelo eletrônico de informações (no caso do BIM) ou um conjunto de informações expressas em documentos diversos sistematicamente organizados e estruturados.

 

A garantia da qualidade do projeto de arquitetura e engenharia, em todos os seus aspectos, não pode ser garantida pela compatibilização isoladamente. É preciso inspecionar a qualidade do produto do processo na sua capacidade de comunicar as soluções plenamente compatibilizadas. Ambas as análises, embora relativamente independentes, possuem separação tão sutil que são facilmente confundidas como única, o que leva empreendedores a iniciarem a implantação de grandes empreendimentos com inconsistências em projetos que são percebidas tardiamente durante a execução das obras. Os prejuízos são inevitáveis.

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