BIM: tecnologia, metodologia, paradigma... Afinal o que é?

May 27, 2018

O BIM – Building Informtion Modeling é tema obrigatório atualmente na construção civil. Todo o mercado se mobiliza em torno dessa novidade com sérios esforços nas áreas profissionais, empresariais e até governamentais. A natureza das iniciativas demonstra a importância do tema em qualquer uma destas esferas de ação. Agrupamentos de profissionais, mobilizações empresariais e regulamentações governamentais se somam no sentido de promover uma transformação na construção civil tida por muitos como sem precedentes na história. Essa é a magnitude do BIM.

 

Como todo tema complexo, o BIM é às vezes mal compreendido ou interpretado de forma limitada. Isso é natural, pois não se pode exigir que todas as pessoas percebam um tema tão complexo da mesma forma. Não se trata de uma compreensão elementar. Se assim, fosse, não exigiria esforços tão estruturados para sua incorporação na sociedade.

 

Uma das questões polêmicas, eventualmente de caráter ontológico, recorre ao tradicional questionamento: o que é? Responder o que é o BIM, em função de sua múltipla aplicabilidade nas questões correntes da construção civil, seja no nível operacional, empresarial ou sócio-político, não é tão simples quanto possa parecer. Pretendemos aqui explorar algumas vertentes de significação comumente usadas no jargão profissional a fim de buscar uma compreensão mais profunda e, por consequência, uma resposta mais exata para a questão: o que é o BIM?

 

Antes de qualquer coisa, é preciso alertar que estas questões de significação exata tendem a ser mais importantes em temas maduros que buscam um refinamento conceitual. Como o BIM é tema recente e em pleno desenvolvimento, buscar a compreensão de sua natureza essencial pode parecer estéril para efeitos práticos. De fato, no atual estágio de desenvolvimento, essa compreensão contribui pouco. Mas é fundamental para o direcionamento dos esforços. Todos já viveram a experiência ou podem imaginar as consequências de pegar a estrada errada numa viagem. Isso ilustra bem o que ocorreria com o BIM se fosse desenvolvido sem a devida orientação quanto a sua natureza essencial.

 

Ilustrativamente, podemos pensar no que ocorreu com o CAD – Computer Aided Design nas últimas décadas. O CAD surgiu como uma revolução no mercado da construção civil (e em outros também) interpretado como uma forma de substituir ferramentas usuais de projeto (pranchetas, normógrafos, etc.) por um computador. Vale ressaltar que o computador pessoal era recente no mercado. Tínhamos então, uma novidade decorrente de outra que ainda não estava consolidada. Profissionais aderiram gradativamente ao CAD e passaram a usá-lo para substituir as ferramentas usadas anteriormente. Pranchetas viraram peças de decoração. E assim, o CAD foi tratado como uma substituição de ferramentas e ainda hoje é tido por muito como apenas isso.

 

Mas, como se sabe, usamos dos recursos computacionais que temos à disposição não mais do que uma pequena parcela. Assim é com os diversos softwares que temos à nossa disposição e assim é, por exemplo, com os celulares altamente tecnológicos que carregamos em nossos bolsos. O profissional médio não utilizará mais do que uma pequena parcela da tecnologia que tem embarcada em seu computador pessoal. Essa é a realidade e boa parte dela está no fato de não conhecermos a essência dos recursos que temos à mão e suas possíveis utilizações em nossa atuação profissional.

 

Há recursos nos softwares que somente podem ser explorados se mudarmos nossa forma de trabalhar e de pensar sobre eles. São recursos disponibilizados não como substitutos de ferramentas antigas, mas como novas possibilidades de organização do trabalho. Ou seja, tirar proveito deles não requer apenas que se passe a usar o software, mas que se reorganize os processos produtivos para que os recursos disponíveis façam sentido. Essa é basicamente a diferença entre a mera automatização e a transformação, uma está focada na eficiência (fazer mais com menos recursos) e a outra está focada em ampliar a eficácia (fazer melhor com novos recursos).

 

Pensemos, por exemplo, no uso que fizemos de recursos como referências cruzadas (no CAD e em outros softwares, disponíveis há décadas) e compartilhamento em nuvem (disponível há pelo menos uma década, embora de forma não sincronizada). Estes dois recursos são os primórdios do trabalho colaborativo que hoje é tido como novidade no BIM. Na realidade o trabalho colaborativo é novidade para quem usou CAD como mera ferramenta de desenho. Para quem vislumbrou a remodelagem de processos de trabalho com base nesses recursos, a colaboração em BIM é apenas uma evolução já esperada. Mas era preciso compreender o CAD em sua essência e não na sua superficialidade. CAD não é ferramenta de desenho, é um sistema com inúmeras funcionalidades pouquíssimo usadas no mercado. Não estamos falando do uso de comandos de produtividade na modelagem. Falamos de recursos úteis para tornar processos mais eficazes. Talvez por esse uso tímido e desavisado os índices que eficácia dos projetos na construção civil não tenham variado muito entre a era da prancheta e a era do CAD (embora essa análise exija a consideração de outros aspectos que não nos interessam por ora).

 

E o BIM?

 

O BIM é uma evolução que aparenta ser mais radical porque pressupõe que tais transformações oriundas do CAD tenham sido implementados. Premissa aparentemente equivocada para a maioria do mercado. Se assim fosse, o trabalho colaborativo era conhecido e nossos processos e profissionais estariam mais aptos ao uso do BIM como uma nova forma de modelagem mais útil para processos mais maduros de trabalho com profissionais que aguardavam essa evolução. Mas, enfim, essa não é nossa realidade. Precisamos, então, de uma transformação maior para que o BIM seja integrado ao nosso mercado da construção civil. Isso explica um pouco a magnitude dos nossos esforços. Teremos que fazer nas próximas décadas, além do trabalho de inserção do BIM, o trabalho de adaptação de processos e de pessoas (profissionais) a uma nova forma de trabalho cuja essência nos escapou nas últimas décadas. BIM, nessa condição, representa uma transformação mais radical e não uma evolução gradativa.

 

O BIM, do ponto de vista tecnológico, incorpora basicamente três mudanças:

  1. O tipo de objeto manipulado na modelagem de construções, que agora são pacotes de informações mais complexos

  2. As condições de relacionamento possível ou aceitável entre os objetos manipulados, nativamente incorporadas aos softwares ou parametrizadas pelos usuários

  3. A obrigatoriedade de recursos de interoperabilidade entre softwares diferentes, uma espécie de referência cruzada universal

Essas mudanças de caráter tecnológico exigem ajustes na forma das pessoas pensarem a modelagem das construções. Trocam-se objetos matemáticos abstratos (pontos, retas, planos, superfícies) por objetos complexos que representam a realidade com maior precisão. Aproximamos o universo da modelagem do universo real, o que gostamos de chamar de virtualização, embora, como pensa já há décadas Pierre Levy, a virtualização está na abstração da significação e não nos bits da tecnologia. Ou seja, CAD também é virtualização e até mesmo a prancheta carregaria essa possibilidade, dado que qualquer destes meios não dispensa a abstração das significações na mente humana. A partir do pensamento de Levy, talvez a grande diferença promovida pelo BIM seja uma maior possibilidade de construção do conhecimento coletivo, conceito bastante explorado por ele, pela promoção do trabalho colaborativo baseado nas possibilidades de interoperabilidade. Os objetos mais complexos como unidades disponibilizam energia para abstrações mais elaboradas.

 

Percebamos que os aspectos tecnológicos do BIM potencializam e exigem mudanças substanciais na forma de pensar dos pr