© Copyright  2018 por Renê Ruggeri Engenharia e Consultoria Ltda. Desenvolvido por Navii Inteligência Digital

A organização num sentido extragerencial

October 30, 2017

O título um tanto estranho desse texto é um trocadilho construído a partir de um texto do filósofo Friedrich Nietzsche intitulado “Verdade e Mentira num sentido extramoral”. A intenção é exatamente trazer para o universo empresarial, alguns conceitos fundamentais que podem nos propor uma forma mais reflexiva e profunda de pensar nossas organizações.

 

Nietzsche discute a forma como se constrói o conhecimento humano e faz isso como uma crítica até bem contundente. Esse tema, o conhecimento humano, é clássico na literatura filosófica e vem sendo tratado desde Sócrates (ou até antes). Aliás, é possível encontrar semelhanças no texto de Nietzsche com o diálogo de Platão onde ele apresenta o olhar de Sócrates sobre o conhecimento. De modo geral, em essência, os pensadores confluem em diversos pontos.

 

A ideia central do texto de Nietzsche está no fato de que o conhecimento do homem sobre o mundo é mediado pelos seus sentidos e uma necessidade formal de traduzir suas impressões mais imediatas sobre a realidade em conceitos que possam ser comunicados ou manipulados. Para isso o homem se vale da linguagem que, obviamente, é uma convenção. Essas duas passagens (a tradução da realidade em percepções mediadas pelos sentidos e a tradução dessas percepções em expressões da linguagem que carregam conceitos manipuláveis pelo intelecto), tratadas pelo filósofo como metáforas, conferem ao conhecimento humano uma distância razoável em relação ao que as coisas são de fato e em si. Ou seja, o conhecimento humano é uma modelagem que o homem precisa construir porque suas possibilidades sensíveis e linguísticas o limitam a perceber ou traduzir a realidade de forma completa. Em outras palavras, nenhum homem é capaz de atingir o conhecimento pleno de qualquer coisa da realidade do mundo porque não é capaz sequer de percebê-lo em sua plenitude, limitado que está por seus sentidos em primeira instância e por sua linguagem num segundo momento.

 

Ora, sendo nossas organizações e todos os fenômenos que nelas ocorrem manifestações do mundo em que vivemos, somos obrigados a admitir, com base nas concepções dos filósofos sobre o conhecimento humano, que não somos capazes de compreendê-las em sua plenitude. Talvez por isso tantas organizações enfrentem problemas tão elementares e outras tantas não consigam equacionar ações para resolver situações mais complexas. Deveríamos isso à limitação dos dirigentes em compreender a organização ou à limitação dos colaboradores em compreender o que está ocorrendo? Ou a ambas? Pergunto porque parece inevitável termos que admitir que não temos condição de conhecer a organização como ela é em si, um fenômeno social. Mesmo admitindo ser a sociedade contemporânea uma invenção humana, é inevitável que ela constitua o mundo em que vivemos e, portanto, tenha seu entendimento pleno inacessível em função de nossas limitações perceptivas e linguísticas.

 

 

Obviamente, há aqui uma simplificação das teorias construídas pelos pensadores, mas que serve ao propósito que queremos atingir. Não estamos propondo, evidentemente, que não devamos criar nossos modelos de compreensão das organizações, pois isso é fundamental para nós, mas que devemos sempre considerar que tais modelos são de fato limitados. São construções que admitimos como verdadeiras em função de serem coerentes, bem engendradas, relativamente lógicas, etc. Mas é preciso entender que são sempre limitadas e, eventualmente, equivocadas. Ou seja, a verdade sobre o funcionamento de nossas organizações é inacessível pelo conhecimento humano. Parece trágica e duvidosa esta afirmação, mas é o que decorre das teorias dos maiores pensadores sobre o homem, o mundo em que vivemos e o conhecimento que temos dele.

 

Não poder afirmar que qualquer modelo que construirmos sobre o funcionamento das organizações seja realmente verídico, não nos impede de utilizá-los, afinal é isso que fazemos desde sempre. Aliás, é isso que nos permite fazer as coisas, tomar decisões, criar soluções. Mas ter a consciência da limitação (as metáforas aludias pelo filósofo) nos eleva a um patamar mais capaz de compreensão. É como se nossos modelos de organização deixassem de ser determinísticos e passassem a ser forçosamente probabilísticos. Não se trata de não os considerar, mas de darmos a eles a devida margem de erro e trabalharmos com essa margem. Haverá sempre o risco de estarmos errados, o que nos compele a um estado de permanente vigília.

 

A isso pretendo dar o adjetivo extragerencial: aquilo que está além da concepção gerencial da organização, está além dos modelos utilizados. E o exemplo mais evidente do que está além de nossa capacidade de modelagem é a cultura organizacional. A cultura organizacional não é algo que se tenha procedimentalizado, mas algo que nasce e se desenvolve naturalmente pelo convívio entre as pessoas, os processos e as decisões tomadas. Podemos criar certos entendimentos sobre ela, mas ela se transforma permanentemente e, portanto, qualquer acerto de agora pode não se confirmar depois. O que é a organização nesse instante, deixa de ser no instante seguinte. Como é tudo no mundo, também as organizações são um fluxo contínuo de mudanças. Essa ideia também é antiga e remonta a Heráclito, anterior a Sócrates. Isso equivale a dizer que o conhecimento que criamos sobre a organização agora não passa de um modelo já equivocado por não a traduzir no momento seguinte. Mesmo que ajustássemos o modelo no espaço, nós o perderíamos no tempo.

 

Como, então, gerentes e líderes podem ser assertivo na compreensão das organizações? Não podem, seria a resposta. No fundo, sua maior assertividade residirá no fato de considerarem adequadamente as possibilidades de equívoco em sua concepção. Conscientes de que o conhecimento que possuem não reflete de fato a realidade da organização, permanecem em estado de constante vigília e questionamento sobre suas próprias convicções. Isso lhes permitirá ter uma percepção mais crítica das coisas e de si próprios, reformulando seu conhecimento constantemente a fim de diminuir a distância entre o que foi a organização há instantes, o que ele imagina ser ela agora e o que se pretende que seja a seguir. A questão não é acertar o alvo, mas diminuir o erro.

 

Essa constatação de nossa impossibilidade de capturar o mundo através de nosso intelecto nos força a admitir que não somos tão capazes quanto gostaríamos de ser. Aliás, esse é um ponto que o filósofo destaca e nos deixa pensativos. Nossa ânsia de construir modelos tão perfeitos nada mais é que nossa vaidade humana conduzindo nosso intelecto para criar teorias que nos deixem crer que aprendemos a dominar o mundo. Ledo engano, pois o mundo que Julgamos dominar agora não é mais o mundo que existe de fato depois de agora.

 

Essa noção de não termos a capacidade de compreender as coisas como elas são de fato, ou mesmo de vivermos com base num conhecimento impreciso e até tendencioso, parece nos apequenar enquanto seres humanos. Mas não, o que ocorre é que somos remetidos exatamente ao tamanho que temos individualmente ou coletivamente. Cada um possui seu conhecimento construído pela mediação de suas interpretações e coletivamente aceitamos como verdades algumas interpretações com as quais todos concordam. Concordar com algo não o torna real, mas apenas demonstra que todos podem estar equivocados juntos (assim como poderiam estar certos, o que é menos provável e filosoficamente até impossível). Essa maior certeza do nosso porte em relação ao mundo (que é menor do que nossa vaidade gostaria que fosse) nos liberta da necessidade de sermos exatos e nos torna mais capazes de conviver com as variações e erros. E é nesse ponto que viver (ou gerenciar) se torna um fardo menos pesado e, por conseguinte, mais prazeroso. Há quem possa questionar que admitir o erro colocaria a organização em risco de “vida”. Ora, não admitir o erro já é um erro admitido a priori. A diferença está no posicionamento crítico em relação ao posicionamento presunçoso.

 

Ou seja, ter consciência da falibilidade do conhecimento humano (entre eles as teorias gerenciais) nos engrandece, pois já diriam também os grandes pensadores, “o sábio sabe que ignora” (Victor Hugo).

 

Please reload

Featured Posts

Desenvolvimento humano elevado a função organizacional

October 14, 2019

1/10
Please reload

Recent Posts