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A menoridade dos processos de trabalho

September 10, 2017

Todos sabemos que nosso modo de vida atual, nossos meios de produção, nossa organização social e tudo o que nos cerca, construído por nós mesmos, é consequência das evoluções que o pensamento humano experimentou no passado. Os grandes organizadores da estrutura de nossa sociedade e do nosso entendimento (filósofos, economistas, juristas, sociólogos, antropólogos e toda sorte de profissões existentes) viveram há tempos e colhemos ainda os frutos de suas produções intelectuais. Os atuais pensadores certamente continuam essa evolução em maior ou menor grau, hora seguindo a mesma direção de antes, hora contrapondo e se rebelando em relação à bússola deixada pelos ancestrais.

 

Obviamente, nas atividades profissionais não é diferente. Nossas formas de pensar nosso trabalho, a organização dele e o que ensinamos a seu respeito carregam as visões construídas há anos por colegas de profissão que, de alguma forma, definiram direções nas quais deveríamos trilhar o caminho do desenvolvimento. Isso é natural e parece ser a forma mais eficaz de buscar a evolução. Assim, usamos esses ensinamentos ou direcionamentos antigos como uma espécie de mapa do que deve ser feito. Isso vale para a definição do que seja um bom resultado do trabalho, como para definir o que seria um processo de geração desse resultado.

 

Mas o mundo muda, a sociedade muda, o conhecimento muda, “tudo muda o tempo todo no mundo”, já diria a música. O profissional comum do mercado se baseia nesses posicionamentos anteriores para tomar suas decisões hoje, definir seus processos de trabalho hoje e direcionar sua produção de amanhã. E tende-se a admitir que este é o caminho correto do desenvolvimento. A questão é: isso é o correto ou é o normal? Há uma diferença substancial entre correto e normal.

 

A sociedade de hoje, em todos os seus aspectos, carrega ainda traços fundamentais do desenvolvimento experimentado no período iluminista, ou seja, cerca de 300 anos atrás. Os grandes nomes do nosso pensamento contemporâneo, ensinado nas escolas e cultivados por intelectuais são daquela época. Não que não haja referência mais atuais, mas que a base do nosso entendimento ainda está calcada na produção intelectual daquele período.

 

Um dos entusiastas do pensamento iluminista e que exerce influência preponderante no nosso modo de pensar atual é Kant, filósofo alemão (Prússia) que viveu no século XVIII. Num de seus textos clássicos - “O que é o iluminismo?” - Kant iniciar com a seguinte afirmação, contundente para os dias de hoje:

 

 

 

“lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado.” (KANT, 1784)

 

Iluminismo, como se sabe, foi um movimento intelectual que pregava a libertação dos dogmas impostos ao homem através do uso da razão para a compreensão do mundo. Era, digamos assim, um movimento de libertação do intelecto humano. A ideia de menoridade é exatamente a de que o menor necessita da tutela de alguém que lhe defina o que fazer, quando fazer, como fazer, etc. admitindo que o menor não tem condições de decidir por si mesmo. Assim é, pois, que uma criança é um menor. Mas a maior contundência da frase kantiana é o fato dessa menoridade ser culpa do próprio homem. Imediatamente à frente, no seu texto, Kant levanta a questão de que essa culpa deriva da falta de coragem de decidir por si mesmo, embora ressalve que possa também ser mera falta de entendimento ou consciência da situação em que vive.

 

Ou seja, iluminado seria aquele que se libertasse dessa tutela lhe imposta pelo mundo, pela sociedade, e passasse a decidir segundo eu próprio entendimento. Mas para isso, seria preciso construir esse entendimento e, não à toa, os pensadores sempre afirmaram que essa construção é um processo doloroso, que envolve sofrimento intelectual, uma vez que nos desafia a colocar em cheque tudo o que nos dá segurança, equilíbrio, etc.

Uso Kant como referência, mas as ideias dele podem ser encontradas também em diversos outros pensadores, seus contemporâneos ou não.

 

A análise dos pensadores desta época, muito seguida pelos atuais, concluem que é muito pequena a parcela de indivíduos que atingem a maioridade intelectual. Há quem diga que a proporção decresce. Ou seja, a maioria absoluta de indivíduos é menor e assim se mantem por deliberação própria. Kant já afirmará no seu texto “É muito cômodo ser menor”, pois não lhe cabe o esforço da decisão, mas apenas seguir a tutela que lhe foi oferecida por outro indivíduo, ou por um grupo deles, seus dominantes.

 

Assim é que os trabalhos de criação (entre eles o desenvolvimento de projetos de arquitetura e engenharia) por exigirem certa dose de independência intelectual, são mais eficazes naqueles que assumem, em boa medida, uma forma própria de pensar. Sobretudo se imaginarmos que tais criações perduram no tempo levando uma mensagem específica (muitas vezes subliminar) a tempos futuros. Aliás, condição esta prevista também por Kant quando defende o “uso público da razão”, ou seja, levar esse entendimento ao público de modo a disponibilizá-lo.

 

Contudo, o alerta de que as normas estabelecidas devam ser seguidas é importante, pois que tais normas são fruto de um entendimento coletivo e não apenas da mente de um indivíduo. Ou seja, o uso público da razão, que parte de um indivíduo, é a base para a construção de um entendimento coletivo que, por sua vez, promove a reordenação da norma vigente na sociedade. Este é, pois, o processo de evolução da sociedade e, por consequência, das atividades e métodos de produção.

 

O exercício da maioridade, exposto nos entendimentos colocados à público, pode ocorrer de duas formas no caso dos trabalhos de criação: 1 - o mais comum é que tais entendimentos sejam expostos no próprio resultado do trabalho e 2 – talvez o menos comum, é que tal entendimento reflita-se no presente momento ao propor novos e próprios processos de trabalho.

 

O primeiro caso produz resultados que poderíamos classificar como revolucionários e, por assim serem, levam os homens a rever seus conceitos usuais. Normalmente muito aplicável a obras de arte, cujo conteúdo informacional/simbólico sobressai ao conteúdo funcional. Os resultados promovem, neste caso, o despertar do intelecto humano de outras pessoas que o apreciam, mas o processo de produção é normalmente solitário da mente que criou o resultado.

 

O segundo caso, embora possa produzir resultados relativamente mais comuns, promove o despertar da mente daqueles que participam do processo produtivo, pois dá-lhes a liberdade de se soltar das amarras da tutela nas quais foram criados. A revolução exposta no resultado é mais difícil de ser vista pelas mentes menorizadas, pois que ela se manifesta num nível mais profundo e não tão explícito.

 

Por fim, para completar a análise, é preciso lembrar que o próprio Kant previa que o homem, mesmo exposto ao uso público da razão de outrem, por mais que lhe fosse acessível tal entendimento, por não ser o seu próprio não lhe conferiria liberdade e momentos após a exposição, retornaria ao seu estado de tutelado. Assim, o segundo modo de exercer a maioridade (num processo produtivo que permita a liberdade de pensamento do coletivo envolvido) seria mais efetivo ao desenvolvimento social, ou profissional, se quisermos nos ater à uma prática produtiva em específico.

 

Concluímos, então, deixando a Kant as palavras finais, ao nos alertar da necessidade de promover a evolução com processos que difundam a liberdade de pensamento nos homens e não a imposição de novos pensamentos expressos nos resultados dos trabalhos que fazemos. Ou seja, a reorganização de processos que promovam e exijam uma maior liberdade de pensamento nos profissionais é mais promotora da maioridade intelectual que a mera exposição dos resultados gerados por qualquer processo individual. Obviamente, excluído da possibilidade de desenvolvimento estão os processos baseados no que aceitamos hoje como tutela exercida por aqueles que nos orientam intelectualmente, mas que , ao nos impor sua forma de pensar, são, na expressão iluminista, nossos tiranos.

 

“Por meio de uma revolução talvez se possa levar a cabo a queda do despotismo pessoal e da opressão gananciosa ou dominadora, mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. Novos preconceitos, justamente como os antigos, servirão de rédeas à grande massa destituída de pensamento.” (KANT, 1784)

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