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Requisitos no Desenvolvimento de Engenharia

January 22, 2016

Sabe-se que a implantação de um empreendimento é um dos exemplos mais típicos de projetos. Não é à toa que a construção civil é uma das áreas em que o gerenciamento de projetos é mais desenvolvido e aplicado. Aliás, é uma das poucas áreas que mereceu do PMI a criação de uma extensão ao PMBoK, o Construction Extension to the PMBoK Guide (atualmente ainda na terceira edição).

 

Os empreendimentos nascem a partir de uma demanda que, por sua vez, se origina num problema ou oportunidade de negócio. Ou seja, sempre há um negócio associado a um empreendimento de construção civil. Mesmo que esse negócio seja de cunho social, religioso ou até particular (caso de residências), há sempre esse contexto no qual se encontram as razões de ser dos empreendimentos.

 

O edifício não existe para si mesmo, não tem vida própria. Pelo contrário, um empreendimento serve a um propósito claramente vinculado a um negócio (mercantil, industrial, social, cultural, religioso, privado, etc.). Portanto, não é nem um pouco razoável conceber tecnicamente um empreendimento sem compreender objetivamente a relação de causa e efeito que ele guarda com o negócio associado. Em outras palavras, todo projetista (profissional que concebe tecnicamente os empreendimentos de construção civil) deve desenvolver uma visão empreendedora a fim de imergir no universo do empreendimento.

 

Isso significa que, embora estes profissionais apliquem conhecimento de arquitetura e engenharia no desenvolvimento do seu trabalho, este conhecimento sempre terá uma concepção de negócio subjacente. Não se apropriar dessa concepção do negócio (seu contexto, seus problemas, seus riscos, seu público-alvo, seus processos, etc.) é uma excelente receita para conceber um edifício que não agrega valor ao empreendimento. Afinal, o empreendimento é a soma sinérgica do negócio com o edifício (ou outro tipo de obra específico).

 

Pois bem, cientes da necessidade de desenvolver essa visão, projetistas devem recorrer a tudo que já foi produzido sobre o empreendimento até o momento em que assumem sua parte do escopo no projeto/empreendimento. O Desenvolvimento de Engenharia (nome comumente dado à fase em que projetistas trabalham) é uma das principais fases do ciclo de vida de qualquer empreendimento de construção civil. O escopo dessa fase responde por uma parcela enorme do valor agregado a um empreendimento, muito grande mesmo. Como fase, ela acaba se superpondo parcialmente a outras fases como os Estudos de Viabilidade e a Implantação/Construção propriamente dita. É importante que o projetista tenha plena consciência dessa sua posição no ciclo de vida de um empreendimento.

 

Ter consciência não é o mesmo que ter conhecimento. Conhecimento é uma coisa racional, consciência é algo bem mais intrínseco. O conhecimento pode ser esquecido por distração. Já a consciência só passa despercebida por deliberação (que por fim, quando envolve responsabilidade, se confunde com negligência). Parece pesado, mas é o fato. Conhecimento é aquilo que você tem, mas consciência é aquilo que você é. Por isso, todo projetista precisa ser um tanto empreendedor.

 

Traduzir essa consciência do negócio em requisitos objetivos e fundi-los com requisitos técnicos de Arquitetura e Engenharia não é tarefa tão elementar. Pelo contrário, pode ser bastante complexa.

 

Requisitos, conforme o dicionário, são condições indispensáveis, exigências. Então é preciso chegar a um conjunto de condições que sejam de fato indispensáveis. Condições flexíveis não são requisitos, mas talvez apenas ideias ou sugestões (o que pode ser também benéfico coletar em documentos específicos). Os requisitos, uma vez definidos, são de difícil renegociação. Eles fundamentam o escopo que, por sua vez, fundamenta os acordos feitos entre todos os envolvidos no empreendimento. Não são imutáveis, mas mexer em requisitos é mexer em vespeiro.

 

 

Não é à toa que o PMBoK, já há algumas edições, entendeu ser importante a discriminação de um processo gerencial denominado “Coletar os Requisitos”. Tal processo está imediatamente na sequência dos processos de criação formal do projeto (Iniciação) e parte deles para formalizar as informações que subsidiarão a definição do escopo do projeto.

 

A coleta de requisitos, de fato, tem nos produtos dos processos de iniciação suas primeiras fontes. O Termo de Abertura do Projeto condensa informações do Business Case e o Registro de Partes Interessadas indica as demais referências para a definição de requisitos. Projetos de menor porte podem não ter formalizado um Business Case, mas quando há, este documento é também uma fonte fundamental para a coleta de requisitos. Atenção, não ter o documento não significa que não haja um Plano de Negócios. Ele está alinhavado na mente do empreendedor.

 

O próprio PMBoK assevera o seguinte: “Os requisitos incluem condições ou capacidades que devem ser atendidas pelo projeto ou estar presentes no produto, serviço ou resultado para cumprir um acordo ou outra especificação formalmente imposta. Os requisitos incluem as necessidades quantificadas e documentadas e as expectativas do patrocinador, cliente e outras partes interessadas” (PMI, 2013).

 

A documentação dos requisitos, conforme orientação do próprio PMBoK, pode ser dividida em:

 

 

Requisitos do Negócio:

Necessidades do negócio: como há um problema a ser resolvido (o que é a razão de existir do projeto), é preciso que os projetistas se engajem na compreensão destas necessidades, ou pelo menos se comprometam com elas.

Objetivos do negócio e do projeto: como requisitos devem ser objetivamente definidos, a ideia aqui é derivar das necessidades as soluções mensuráveis, verificáveis, perceptíveis, etc. que as resolvam.

Regras de negócios para a organização executora: o empreendimento contempla a realização de acordos entre diversas organizações, cada uma com sua cultura, procedimentos, valores, etc. É preciso extrair destas organizações um conjunto de regras que balizem a forma de conduzir os trabalhos do projeto. Obviamente, a organizações empreendedora e gerenciadora são influências bastante pungentes nessa definição, mas isso não significa que outras organizações (fornecedoras, fiscalizadoras, etc.) não possam contribuir com regras benéficas ao empreendimento.

Princípios diretrizes da organização: os princípios podem ser pensados como azimutes (direcionamentos) ou critérios de decisão ou desempate. Na dúvida, guie-se pelos princípios. Por isso, definir bons princípios é tão importante. Eles darão o traço de personalidade ao projeto.

 

Requisitos das partes interessadas: há uma relação contratual entre projetistas e uma ou duas partes interessadas (empreendedor, gerenciadora, etc.), mas isso não significa que as demais não devam ser consideradas pelas equipes de Arquitetura e Engenharia. Aliás, partes interessadas como órgãos de fiscalização, prefeituras, concessionárias de energia/água, empresas de telecomunicações, corpo de bombeiros, vigilância sanitária, órgãos normatizadores (ABNT, ministérios), etc. podem ser muito mais condicionadoras do que as próprias exigências do empreendedor. Especificamente neste item, é importante perceber que não se tratam apenas de requisitos técnicos (que podem ser consultados em documentos emitidos por estas organizações), mas interesses que tais partes interessadas possam ter na área em que o empreendimento será implantado. Ou seja, dos requisitos das partes interessadas podem derivar influências ambientais que significam oportunidades ou ameaças para o empreendimento.

 

 

Requisitos das soluções (atributos, funções e características do produto, serviço ou resultado, subdividindo-se nos seguintes itens:

Requisitos funcionais (comportamentos do produto): como o empreendimento irá operar? Em situações específicas ou excepcionais, o que é esperado que ocorra no empreendimento no que se refere à relação do edifício com o negócio? Quais processos ocorrerão rotineiramente do empreendimento? Enfim, como será o uso do edifício à serviço do negócio?

Requisitos não funcionais (condições ou qualidades ambientais): aqui são discriminadas características específicas que devem ser encontradas no edifício que atende ao negócio quando este estiver operando. Podem ser características físicas, psicológicas, objetivas e subjetivas (embora a subjetividade deva ser evitada na definição de requisitos). São requisitos de natureza bastante técnica e muitas vezes extraídos de normas, legislações e outras condicionantes a que o edifício deve atender. Alguns são obrigatórios, outros podem ser exigências ou condições de uma das partes interessadas.

Requisitos de transição (capacidades temporárias): grandes empreendimentos necessitam de períodos experimentais ou precisam ser implantados e colocados em marcha por partes. Muitas vezes um requisito do negócio de antecipação de receitas pode induzir a uma implantação por partes e as consequentes dificuldades de ter parte operando e parte em implantação no empreendimento. Se há períodos de transição, é preciso compreender como se espera que os trabalhos ocorram nesses períodos.

 

Requisitos de projeto - ou do empreendimento (condições que devem ser cumpridas pelo projeto): aqui o termo projeto não se refere aos projetos de arquitetura e engenharia (o design, como muitos referem), mas ao processo de implantação do empreendimento. O que é preciso para que este processo ocorra da melhor forma possível? Características específicas do canteiro de obras, por exemplo, podem estar documentas neste item. Muitas vezes, para atender necessidades do negócio, o processo de implantação do empreendimento (projeto) precisa desviar do que poderia ser considerado convencional. Exigências de prazo podem exigir trabalhos em turnos e isto condiciona alguns trabalhos de alto risco, para que não ocorram na madrugada. Outros trabalhos, em função de certas condições, podem ser induzidos a ocorrer na madrugada para não influenciar a vizinhança. Enfim, há requisitos que o ambiente ou contexto do empreendimento demandará. Alguns serão considerados restrições, outros, oportunidades (desde que se saiba tirar proveito deles).

 

Requisitos de qualidade: esses são mais tradicionalmente conhecidos. Referem-se às características que serão usadas para decidir sobre a validação ou aceitação das entregas. Subsidiarão a gestão da qualidade no decorrer do projeto/empreendimento.

 

Fica claro que a coleta de requisitos não é nada simples e um bom resultado depende de muito empenho e imersão da equipe do projeto (gerencial e técnica).

 

Especificamente no que se refere à equipe de projetistas de Arquitetura e Engenharia, uma análise de Engenharia de Valor sobre as soluções técnicas propostas para o empreendimento tem mais chances de demonstrar a qualidade do trabalho quanto maior for a apropriação dos requisitos por parte da equipe.

 

Ler um Relatório de Requisitos pode fornecer conhecimento, mas o processo criativo que culminará com as propostas de soluções só é influenciado de fato quanto os requisitos são apropriados pelos projetistas e se tornam parte de sua consciência do empreendimento. Nessas condições, as propostas geradas deixam de ter o edifício como centro e colocam nessa posição o empreendimento, que, como dito, contempla uma soma sinérgica da técnica da Arquitetura e Engenharia com o negócio associado.

 

Abraços

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