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Soluções inteligentes em Arquitetura e Engenharia e tudo o mais

February 13, 2016

Todo projetista, como qualquer profissional, quer ser reconhecido pelos trabalhos que faz. Quer que as soluções que encontra para os problemas que lhe são apresentados sejam classificadas como de ótima qualidade, quiçá geniais.

 

Em arquitetura, muitos edifícios são classificados como bonitos, elegantes, marcantes, etc., mas qualquer desses adjetivos está normalmente relacionado à uma ou outra característica mais relevante da solução. Análises mais criteriosas demonstrariam que são poucos os resultados que receberiam adjetivos tão elogiosos em quaisquer pontos de vista. Pelo contrário, é comum encontrar criações que são excelentes por alguns aspectos e extremamente ruins em outros.

 

Com a Engenharia a situação não é nem um pouco diferente. Há soluções que aparentam ser muito qualificadas em algum aspecto, mas cuja análise mais profunda demonstraria fraquezas em outros pontos de vista.

 

Há soluções bonitas e caras, baratas e pouco duráveis, rápidas e feias, etc. Dificilmente uma solução dada a um problema (todo projeto de Arquitetura e Engenharia tem por objetivo resolver uma situação/problema) é completamente satisfatória sob quaisquer conjuntos de critérios de julgamento.

 

É frente a essa situação que se questiona: qual a melhor solução? Esta melhor solução é a resposta que todo projetista quer encontrar (ou deveria querer). Esta solução deveria resistir firmemente ao julgamento sob quaisquer conjuntos de critérios. Obviamente, ser genial segundo um único critério não constitui vantagem. Facilmente as fraquezas da solução mediante outros julgamentos são explicitadas e o que era bom por um lado acaba ganhando status de ser ruim por todos os outros.

 

Mas a situação mais comum é que as soluções carreguem a personalidade do autor das propostas e, portanto, seu próprio conjunto de critérios pessoais. E por serem pessoais, o que o autor classifica como bom, outros classificarão como ruim. Os critérios mais subjetivos são especialmente mais sensíveis a essa mudança de classificação.

 

A solução inteligente para um problema (ou um empreendimento) é, portanto, aquela que proporciona o melhor resultado segundo o conjunto de critérios mais completo que se possa criar. Essa solução seria a mais adequada a quaisquer julgamentos e, na média dos julgamentos, sempre seria classificada como de boa qualidade. Talvez nem seja a solução genial, mas genialidade (de genial) e geniosidade (de genioso) podem ser facilmente confundidas. Muito raramente uma solução genial é uma solução inteligente exatamente porque a genialidade se faz presente normalmente por algum aspecto isolado. Já a solução inteligente tem uma elevada capacidade de adequação a cenários diferentes de avaliação.

 

A maximização da qualificação de uma solução segundo um conjunto mais completo de critérios talvez seja o grande traço de genialidade a ser buscado pelos projetistas. Mas uma solução assim, bem antes de ser genial, seria inteligente. Procuremos, então, compreender o que seria uma solução inteligente e como identifica-la. Comecemos por entender o que é inteligência.

 

“O termo inteligência vem do latim intelligentĭa, que, por sua vez, deriva de inteligere. Esta é uma palavra que é composta por dois outros termos: intus (“entre”) e legere (“escolher”). Assim sendo, a origem etimológica do conceito de inteligência faz referência a quem sabe escolher: a inteligência permite, portanto, seleccionar/escolher as melhores opções na hora de solucionar uma questão” (http://conceito.de/inteligencia).

 

Discorrer sobre o que seja inteligência não é o objetivo aqui e, então, a explicação acima foi selecionada para a finalidade deste texto. Uma análise mais completa e complexa é uma boa sugestão de pesquisa que deixo ao leitor.

 

A explicação deixa claro que, em se tratando de inteligência, estamos diante de uma questão de escolha. Não que as soluções estejam pré-definidas e devemos escolher uma delas. Pelo contrário, a escolha do projetista é feita a cada decisão de projeto que ele toma. A solução final deriva das escolhas que são feitas ao longo do processo.

 

Percebamos também que essas escolhas são feitas entre alternativas. Aqui fica clara a relação que existe entre a solução inteligente e o conjunto de informações e conhecimentos dos projetistas. Projetistas que não ampliam constantemente seu acervo de alternativas possuem menos chances de chegar a soluções inteligentes.

 

Outros estudos sobre o que seja inteligência a classificam sob várias formas a fim de identificar quais são as variadas manifestação dela encontradas nas pessoas. Ou seja, podemos admitir que pessoas diferentes possuem inteligências diferentes. Uns apresentam melhor desempenho em algumas atividades, outros, noutras. Obviamente, esta vivência diferenciada traduz-se em valores e critérios diferentes para cada pessoa. Portanto, mesmo que um projetista encontre uma solução efetivamente de alta qualidade segundo seus valores e critérios, para outros a solução ainda pode ser ruim.

 

A conclusão mais óbvia é que uma solução coletivamente aceita como inteligente tende a ser fruto de um processo de criação em grupo. Esse processo contempla critérios e valores de várias pessoas. O conjunto final de avaliações tende a ser mais representativo da coletividade (uma questão simples de estatística). Lembremos que a verdade é uma convenção coletiva e, portanto, coletiva deve ser a criação da verdade. De fundo filosófico, é extremamente prática essa constatação.

 

Um dos principais critérios utilizados na avaliação de soluções de Arquitetura e Engenharia é o custo da obra. Mesmo esse custo pode ser discriminado como custo de implantação, custo de manutenção e custo de operação. Mas outras tantas características são fundamentais nesse julgamento das soluções: beleza, durabilidade, agilidade de implantação, facilidade de manutenção ou operação, funcionalidade, conforto ambiental, etc.

 

Agora chegamos ao ponto em que quero dar destaque.

 

Estas características muitas vezes são tidas como concorrentes. Por exemplo, é comum admitirmos que o que é bom é caro, ou que é belo é caro; outras vezes acreditamos que se for de baixo custo, não é durável ou resistente. Há, de fato, muitas coisas que se comportam dessas formas, mas não as soluções de Arquitetura e Engenharia.

 

As possibilidades de escolhas disponíveis para projetistas nas diversas áreas são tantas atualmente que é extremamente difícil encontrar regras nas quais podemos crer cegamente.

 

Aumentar o custo de implantação, por exemplo, pode reduzir drasticamente o custo de operação, a ponto de tornar o empreendimento economicamente ainda mais viável, embora com implantação mais onerosa. Pense nos custos de água e energia e nas alternativas hoje possíveis de aproveitamento. Você verá que agregar tais custos na implantação pode ser altamente vantajoso.

 

A industrialização crescente permite simular efeitos estéticos naturais com materiais fabricados, cuja obtenção, aplicação e manutenção sejam bem mais simples. Ou seja, beleza não está obrigatoriamente atrelada a maiores custos. Isso para falar apenas de substituição. Nem esboçamos comentar sobre as mudanças de conceitos estéticos que o progresso nos permite experimentar.

 

Mas há uma estratégia para se chegar a soluções inteligentes que infelizmente é pouco explorada. É a concepção em equipe. Quando projetistas trabalham isoladamente, há uma tendência de que sejam sempre agregados mais e mais elementos ao empreendimento (o que aumenta os custos). Cada projetista agrega os elementos necessários à suas soluções. Dificilmente vê-se uma concepção na qual o mesmo elemento da construção compõe soluções de vários projetistas. Não estamos falando de compatibilização de soluções, estamos um passo à frente. Falamos de integração de soluções.

 

Li recentemente sobre a criação de um vidro que gera energia, tal qual uma placa fotovoltaica (na realidade é exatamente uma). Temos aí, por exemplo, um elemento muito comum na arquitetura (o vidro) que passa a ter função no sistema elétrico do empreendimento. Ou seja, no lugar de agregar uma placa fotovoltaica, integra-se a arquitetura ao sistema elétrico.

 

Alguém já ouviu falar de refrigeração de fachadas com água de chuva? Mas de captação de água de chuva para uso em descargas de vasos ou irrigação de jardins com certeza muitos já têm conhecimento. Podemos captar água com certa fartura, mas a usamos ainda nas atividades convencionais. Por que não dar novos usos, já que a temos reservada?

 

Uma grande piscina na cobertura de um edifício é um luxo. Mas pode ser também uma excelente reserva de incêndio para alimentar hidrantes. O mesmo elemento, cumprindo duas funções.

 

Percebam que soluções como estas, somente são possíveis quando criadas coletivamente pela equipe de projetistas. As ideias podem ser simples, mas sua implementação depende de conhecimento técnico, dimensionamentos, especificações, etc. detalhadas.

 

As soluções verdadeiramente inteligentes normalmente são integradas. Ou seja, dificilmente se tem uma solução inteligente sem uma grande dose de integração. Isso exige trabalho em equipe e uma coordenação efetiva de todo o processo de concepção.

 

Não estamos falando dos projetistas simplesmente trocarem informações. Falamos de um nível de atuação e pensamento coletivo que raras equipes possuem. Mas tal nível é acessível. Chegar até ele é antes de tudo uma questão de atitude. Atitude integradora, abertura ao novo, liberdade de opinião e consciência coletiva são fundamentais. O empreendimento passa a ser criação do grupo e, nesta condição, por mais que cada profissional tenha seu papel na equipe, a responsabilidade da criação é sempre coletiva. Quem não tem nada a agregar no início da concepção, certamente terá a dificultar no final. Como em toda equipe, o comprometimento solidário e a preocupação com o todo (além de suas responsabilidades objetivas) são a tônica do alto desempenho.

 

As soluções inteligentes não dançam ao som do funk “cada um no seu quadrado” (http://www.vagalume.com.br/porto/danca-do-quadrado.html), mas sim no embalo do velho e bom rock “tudo ao mesmo tempo agora” (http://www.vagalume.com.br/titas/uma-coisa-de-cada-vez.html).

 

 

Soluções inteligentes são soluções integradoras, coordenadas e coletivas. As demais podem até ser geniais aos olhos de um ou outro crítico, mas aos olhos de uma equipe elas tendem, no limite, a ser classificadas como geniosas.

 

Abraços

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