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O que não é BIM

November 3, 2015

Temos visto inúmeros textos na internet explicando o que é BIM. Resolvi fazer um caminho diferente e focar alguns conceitos que, se mal entendidos, levam profissionais a se iludirem sobre as práticas de BIM. Se por um lado precisamos entender o que é BIM, também é muito importante compreendermos quando não estamos praticando BIM, por mais que pareça estarmos.

 

Pretendo fazer isso partindo de dois pontos diferentes:

1- Explorando os significados de cada termo da expressão Building Information Modeling ou Modelagem de Informações na Construção

2- Analisando os pilares do conceito e das práticas de BIM

 

A proposta é de que, se nossas práticas não atenderem aos conceitos associados ao BIM ou não estiverem fundamentadas nos pilares que sustentam esses conceitos, não estamos efetivamente praticando BIM. Podemos, sem dúvida, estar no caminho. Mas nenhum esportista chega ao pódio sem atingir a linha de chegada.

 

Vamos lá...

 

Primeiramente, então, isolemos cada um dos termos da expressão BIM.

 

Building ou Construção refere-se tanto ao ato de construir quanto ao efeito dele, a construção. Como ação (ato), construção engloba todo o processo pertinente ao mercado de construção civil. Como efeito, poderíamos resumir construção como sendo a própria obra edificada. O significado do termo construção na expressão Modelagem de Informações na Construção é sem dúvida relativo ao processo e não apenas ao produto (obra). Caso contrário, precisaríamos traduzir como modelagem de informações "da" construção (e não "na" construção).

 

Informação é um termo bastante genérico e é esse exatamente o objetivo. Qualquer dado pode ser considerado uma informação em circunstâncias apropriadas. Há uma definição interessante para informação que pode nos auxiliar nesse entendimento: "informação é um dado dotado de relevância e propósito" (Davenport, 1998). Ou seja, as informações importantes (relevantes) para o processo de construção que venham a ser úteis em algum momento (propósito) são pertinentes ao conceito associado ao BIM. Ou seja, devemos encarar o termo informação com a abrangência apropriada ao processo construtivo como um todo e, portanto, não devemos nos restringir ao produto e tampouco às características geométricas deste.

 

Modelagem é o processo de gerar modelos. Um modelo é um "objeto que servem para ser imitado; molde, exemplar" (Dicionário Priberam, http://www.priberam.pt). Um modelo é composto  não apenas por seus elementos, mas, sobretudo, das relações existentes entre esses elementos. Os elementos em si dão forma ao modelo, mas as relações entre eles definem seu funcionamento. Qualquer ação exercida sobre um dos elementos do modelo promove reflexos no sistema modelado que são definidos pelas relações existentes entre elementos. Isso vale para modelos mecânicos e também para modelos de informações. Vale aqui também ressaltar que um modelo é sempre uma simplificação da realidade. Por outro lado, bons modelos a traduzem com uma perspicaz dose de exatidão. Esta perspicácia é que difere um bom modelo de um modelo não tão bom.

 

Passemos agora a analisar os pilares sobre os quais o conceito BIM repousa. Esses pilares são largamente citados na bibliografia e conversas sobre o assunto.

 

O primeiro pilar sempre citado é a modelagem multi informacional. Esta modelagem deve ser gerada para a construção, ou seja, para o processo pertinente à construção civil, mecânica, etc. Há uma infinidade de formas de modelar coisas como, por exemplo, uma planilha eletrônica. Define-se elementos e também relações entre eles de tal modo que, dado um elemento os outros são gerados a partir das relações constituintes do modelo. Porém o planilhamento não é um processo eficaz o suficiente pra modelar todo o processo da construção civil. Pensemos na modelagem gráfica tridimensional a partir de parâmetros geométricos. Dadas as medidas de um sólido, uma ferramenta computacional é capaz de mostra-lo graficamente em representação tridimensional (ou aparentemente tridimensional). Do ponto de vista visual, a modelagem gráfica geométrica parece superior ao planilhamento, mas a modelagem de relações entre elementos costuma não ser tão simples como nas planilhas. Ou seja, cada recursos ou ferramenta de modelagem tende a enfatizar certos aspectos do sistema a ser modelado (como vimos, todo modelo é uma simplificação). No universo BIM, os recursos de modelagem devem atingir um estágio de desenvolvimento tal que permita a geração de modelos tão complexos quanto se precise para traduzir os elementos e as relações entre eles no processo da construção civil. Embora haja alguma ênfase inicial na questão visual dos modelos (afinal o produto da construção civil demanda fortemente sua apreciação visual), o pilar da modelagem em BIM exige que as relações entre os elementos sejam tão bem modeladas quanto os próprios elementos. É com base nessas relações que se desenvolvem as análises sobre a perspicácia do modelo. Pouco adianta em BIM um modelo visualmente perfeito mas que não reflita a realidade do processo da construção civil. Ou seja, o modelo precisa estar imbuído do dinamismo das relações entre seus elementos e estas relações são parametrizadas com base nas informações alimentadas no modelos.

 

O segundo pilar é a interoperabilidade que, por sua vez, é a base para a colaboratividade. Cientes de que modelos tão complexos quanto os necessários para representar o processo da construção civil são extremamente difíceis de serem gerados, os praticantes de BIM dependem de um alto grau de interoperabilidade entre diversos modelos mais simples. Assim, um modelo gerado para representar relações espaciais entre elementos pode ser incorporado a um outro desenvolvido para gerar relações temporais entre esses elementos, ou seja, uma sequência de execução deles. Além desses, um próximo modelo de relações pode ser desenvolvido para avaliar a condição de cada configuração ao longo do tempo em relação ao atendimento a certas condições pré-estabelecidas (por exemplo, uma norma de segurança). Assim, se em algum momento o modelo resultante das relações espaciais entre elementos e o sequenciamento deles deixar de atender a uma condição pré-estabelecida, este terceiro modelo identificará uma configuração não aceitável. Esses modelos construídos com ferramentas diferentes podem operar isoladamente, mas podem operar simultaneamente se houver condições para que as trocas de informações entre os modelos sejam instantâneas (em tempo real). Assim, qualquer alteração em um modelo repercutirá nos demais imediatamente. Essa interoperabilidade que permite as trocas, quando exercida com sincronismo entre os diversos modelos possíveis, permite a colaboração entre profissionais "modeladores". Esse sincronismo, de certo modo, é fundamental para a retratar a realidade da construção civil (o processo a ser modelado), pois, afinal,o processo da construção ocorre com um altíssimo grau de simultaneidade de ações e interpretações.

 

Esta última colocação abre caminho para o terceiro pilar do conceito BIM, a Cadeia Produtiva da construção civil. A proposta ideológica do BIM é a modelagem do processo construtivo englobando seus produtos e todas as modelagens que possam ser feitas sobre esse processo (cronologias, custos, desempenhos mecânicos, térmicos, etc.). A informação alimentada como elemento do produto (obra) no início do processo de modelagem será utilizada, por exemplo, no momento da obra para processos de aquisições. Estas aquisições também fazem parte do processo da construção civil e, portanto, podem a rigor fazer parte do modelo BIM. Ou seja, deve-se já no inicio do processo de modelagem considerar as repercussões de cada dado alimentado em toda a cadeia produtiva da construção. Afinal, a modelagem deve focar todo o processo e não apenas uma etapa dele. Essa consideração de toda a cadeia produtiva deve ser aplicada em toda ação dentro do conceito BIM para que permita o melhor desempenho do processo.

 

Enfim, estabelecemos critérios relativamente objetivos para verificar o quanto praticamos BIM, ou não.

 

Pensemos inicialmente nos pilares do conceito e das práticas BIM. Para que trabalhemos no conceito BIM devemos incorporar consistentemente em nossas práticas os três pilares citados: modelagem multi informacional, cadeia produtiva da construção civil e interoperabilidade/colaboração. Nossas modelagens devem focar não apenas o produto, mas também o processo produtivo. Repare que esse conceito está atrelado ao que conhecemos por Engenharia Simultânea e, portanto, não chega a ser novidade.

 

A interoperabilidade entre modelos setoriais (aqueles que consideram um conjunto isolados de aspectos do processo) deve ser usada para atingir o trabalho colaborativo. Ou seja, os modelos devem ser desenvolvidos e analisados sincronizadamente entre os especialistas e não por iterações discretas no tempo. A continuidade e sincronicidade dos trabalhos de concepção e análise dos modelos são uma importante característica do conceito BIM. Repare que esse conceito já seria parcialmente possível com a reunião da equipe de projeto, se as relações entre todos os aspectos do processo (normalmente delegados a profissionais especialistas) fosse fomentada continuamente. Veja que a questão do trabalho colaborativo é muito relacionada a atitude dos profissionais (questão comportamental, portanto).

 

A consideração da cadeia produtiva na construção civil sempre foi alvo de preocupação de empreendedores. O desenvolvimento dos conhecimento relativos à gestão de projetos facilitou essa consideração e aproximou as áreas técnicas das áreas gerenciais dos empreendimentos (pelo menos em tese). Ou seja, essa visão abrangente e detalhada do processo na construção civil é demanda já conhecida e vem sendo trabalhada em várias frentes já há diversos anos. Não se trata, então, de ideia nova ou diferenciada.

 

Em relação aos pilares que sustentam o conceito BIM, a grande novidade é a tecnologia da informação cujo desenvolvimento tornou extremamente acessível a qualquer profissional os recursos necessários para subsidiar as adaptações das práticas de trabalho em direção a esta fundação mais sólida do processo de empreender em construção civil, o BIM. A arquitetura tecnológica e de informações que permite a criação de modelos interoperáveis é hoje uma realidade consistente e acessível. Quem não incorpora ao seu processo de trabalho práticas coerentes com estes pilares, muito provavelmente não está praticando BIM. Não poderia ser diferente uma vez que o conceito do BIM vem sendo desenvolvido desde as décadas de 60 e 70, já fundamentado em ideias da Engenharia Simultânea, da Gestão de Projetos e da Modelagem de Informações. Chegar ao nível tecnológico que temos hoje foi uma questão de tempo, pesquisa, trabalho e boa vontade.

 

Queremos deixar claro, então, que o BIM não se caracteriza pelo mero uso das recentes tecnologias desenvolvidas para esse fim, mas pela correta introdução dos pilares que sustentam as vantagens que o conceito BIM traz para a construção civil. Não basta usar a tecnologia, é preciso usá-la com processos adequados aos objetivos que ela permite atingir.

 

 

A questão crítica que se coloca é que tais conceitos estiveram ao alcance de todos há vários anos para que as atitudes fossem desenvolvidas, mas é raro encontrar profissionais e empresas que os tenham incorporados aos processos de trabalho. Não chegamos a generalizar sequer os princípios de Engenharia Simultânea, quanto mais a pretendida Engenharia Integral. Enfim, estamos no caminho, mas ainda longe do pódio do BIM.

 

A pergunta que resta pra cada um é: temos a consciência de que muito do que estamos fazendo ainda não é BIM, embora esteja no caminho?

 

Abraços

Tags VIP, Projetos AEC, Engenharia

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