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A miopia dos casos particulares, nossas dúvidas e certezas

June 19, 2015

Popularmente a miopia é aquela doença que impede de enxergar de longe. O míope não consegue ver muito além de uma pequena distância. A hipermetropia é o contrário, ela impede de enxergar de perto.

 

 

A ciência, seja ela em qualquer área do conhecimento, é baseada em modelos e teorias que traduzem em certo aspecto os fenômenos naturais ou sociais. É a lente através da qual olhamos para os fenômenos a fim de entendê-los, "enxergá-los". Para fenômenos mais simples, reduzidos a um pequeno contexto de condições, uma lente pra enxergar de perto. Para grandes e complexos fenômenos, lentes pra enxergar bem longe.

 

Não há um teoria que explique tudo no universo (físico e/ou social). Ou seja, não há uma lente que funcione, na prática, tanto pra longe quanto pra perto. E, assim, somos obrigados a entender o mundo por partes, embora possamos percebê-lo em sua complexidade. A percepção é pré-condição para a compreensão, mas uma não garante a outra.

 

Sabemos de vários casos de teorias que nasceram para fenômenos relativamente simples e que se mostraram bastante abrangentes. Lembram-se da história da maça que caiu e acabou explicando os movimentos do corpos no universo? Por mais que possa ser lenda, retrata bem o que acabamos de dizer.

 

 

Mas sabemos também que grandes teorias acabaram sendo consideradas casos particulares, simplificações, de alguma formulação ainda mais abrangente e complexa. As teorias de Einstein englobaram uma série de fenômenos num mesmo modelo teórico, inclusive os que já eram explicados segundo teorias anteriores.

 

 

Situações semelhantes às citadas acima (aplicada aos fenômenos físicos) existem também em outras áreas do conhecimento. Freud, por exemplo, englobou uma série de explicações numa formulação mais abrangente em sua teoria. Modelos socioeconômicos puristas já demonstraram sua inaptidão para traduzir os comportamentos de mercados e sociedade em quaisquer condições.

 

Nenhuma teoria ou modelo é capaz de abranger tudo. O que pretendemos fazer é expandir as fronteiras das teorias e modelos, mas dificilmente unificaremos tudo. A unificação da compreensão do universo (físico e não físico, afinal tudo é universo) segundo uma única teoria com seus modelos é tarefa divina. Ainda estamos bem longe disso, se é que seja atingível.

 

Assim, nos contentamos em usar sempre casos particulares, ou seja, teorias válidas para alguns fenômenos, em certas condições e as vezes válidas durante algum período apenas. Essas simplificações são necessárias para que nossas teorias e modelos sejam inteligíveis e aplicáveis corriqueiramente. Já dizia meu xará, "divide as dificuldades que tenhas de examinar em tantas partes quantas for possível, para uma melhor solução."  (René Descartes). O que muita gente esquece é que ele não disse que não era preciso juntar novamente depois.

 

E é aí que está a armadilha do nosso conhecimento. Aprendemos que tais teorias governam os fenômenos, mas esquecemos de dar ênfase às condições ou contextos em que são válidas. Incorporar a compreensão dessas condições que contornam os fenômenos e conformam as teorias é tão crucial quanto as próprias teorias, As vezes podem ser até mais cruciais que elas.

 

E isso vale desde os conhecimentos formais consolidados nos ensinamentos de mestres, quanto naquele conhecimento cultural apropriado pelas pessoas no dia a dia, na convivência. Pense no linguajar local, nas expressões idiomáticas, nas gírias, etc. São conhecimentos que fora de contexto perdem completamente sua validade ou aplicação. Pior que isso, podem causar entendimentos equivocados e as consequência disso.

 

Costumo perguntar aos colegas: "rola" uma bebida? Ninguém ainda tentou empurrar uma garrafa deitada no chão. A aplicação da gíria "rola" é válida neste contexto.

 

Palmeirenses e corintianos não se "bicam"! Mas torcem juntos pela seleção brasileira. A rivalidade não é válida em qualquer contexto.

 

Ricos odeiam pobres! Em que condições isso nos foi colocado? É válido em qualquer circunstância? Políticos são sempre desonestos? O povo não é corrupto? Políticos não vieram do povo?

 

Água ferve a cem graus e congela a zero graus! Em qualquer condição de pressão?

 

O correto é dormir oito horas por dia, para qualquer um? Açúcar ou sal fazem mesmo tanto mal quanto se prega?

 

Pense bem e verá que quase tudo que usamos por pressupostos para criar nossas convicções não é plenamente válido. Ou seja, nossas convicções são mais frágeis do que imaginamos. E são elas que sustentam nossos conceitos e preconceitos.

 

Usar concepções de menor alcance é necessário, pois os casos particulares são essenciais para nosso dia a dia. Mas ter sempre em mente o contexto ou abrangência limitados delas é tão ou mais importante, sobretudo quando trabalhamos com sistemas que possuem grandes interfaces. É nas interfaces que a confusão se instala. E é por causa dessa confusão que os grandes problemas surgem.

 

Essas interfaces podem estar relativamente distantes porque algumas teorias são bastante abrangentes e persuasivas. Esta abrangência beneficia a aplicação da teoria, mas a distância das fronteiras tornam as interfaces mais difíceis de serem percebidas. Nestes casos, as teorias são míopes, pois têm dificuldade de ver suas fronteiras. Ou seja, usamos casos particulares e, como não enxergamos as fronteiras com facilidade (pois não fomos treinados a considerá-las com a mesma atenção e clareza que dispensamos à própria teoria), acabamos por ter o horizonte embaçado.

 

O contrário é também válido. Teorias que tendem a explicar quase tudo e, portanto, têm fronteiras muito distantes, correm o risco de não enxergar condições simplificadoras numa aplicação específica. Lembram da história de caçar mosquito com arma pra caçar elefante? Mosquito voa e elefante não. Mesmo alterando o porte da arma você não pegará o mosquito, porque não se caça mosquito com arma pra animal que anda. Esse é um daqueles casos em que diminuir o porte não é suficiente, é preciso trocar o modelo, pois as condições são essencialmente diferentes. Nesta prática, a teoria é literalmente outra. E você só percebe isso se conhecer bem as fronteiras.

 

Enfim, mais que conhecer bem as teorias que lhe são necessárias no dia a dia (profissional, sobretudo), é preciso conhecer os limites dessas teorias, suas condições simplificadoras. Muito do que sabemos (e é muito mesmo) está baseado em teorias particulares. Assim, do ponto de vista científico-profissional somos todos míopes. A questão é saber qual o grau de nossa miopia em cada trabalho que fazemos. Não há oftalmologista que possa fazer esse exame. É um caso de autoexame.

 

Por outro lado, grandes teorias costumam ser tão abrangentes e complexas que perdem sua praticidade para aplicações em casos cotidianos. Neste aspecto, expandir demais as fronteiras pode ser também prejudicial para sua prática profissional. Você tentará caçar mosquito com arma pra elefante. Mas repare que isso não quer dizer que não seja válido expandir conhecimentos.

 

É preciso dosar seu conhecimento. Expandi-lo sempre de forma consciente. Sobretudo é preciso ter consciência das fronteiras dentro das quais seu conhecimento é válido. Aplicar o conhecimento correto nos fenômenos que estão dentro das fronteiras corretas. E como as fronteiras são nebulosas (pois somos todos míopes), é preciso duvidar sempre de nossa própria opinião, o autoexame é permanente.

 

Afinal essa é a essência do desenvolvimento: a dúvida. Valorize suas dúvidas, muito mais que suas certezas. As perguntas sempre vêm antes das respostas.

 

Abraços

Tags VIP, Projetos AEC, Engenharia

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