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Engenharia de Projetos rumo ao caos?

May 20, 2015

http://may1d.deviantart.com/art/ciudad-en-caos-301411110

 

Recebi pelas listas de discussão que participo na internet uma matéria publicada por uma importante emissora de notícias tratando das investigações feitas pela Polícia Civil sobre um determinado acidente numa obra. Como o evento está ainda em investigação, preferi aqui não citar nomes ou envolvidos. Vou falar do milagre sem citar o santo. A intenção é apenas usar de exemplo real, independentemente das constatações virem a ser confirmadas ou não.

 

O fato é que a Polícia conclui no seu trabalho que o acidente foi causado por falha no Projeto AEC do referido empreendimento e sucessivas falhas relativas ao processo de desenvolvimento do projeto. Como houve mortes, direciona uma acusação de homicídio (entre outras coisas) a vários profissionais de Engenharia. Isso demonstra a gravidade da situação.

 

Vejam a seguir alguns trechos contundentes retirados da notícia. São trechos da matéria ou de falas dos entrevistados pelo veículo de comunicação.

 

"pessoas que, mesmo tendo ciência da existência de erros no projeto, nada teriam feito para evitar o desabamento".

"os profissionais deixaram que os trabalhos fossem prosseguidos, mesmo diante de indícios de problemas na estrutura".

"houve uma sucessão de erros de álgebra que levaram ao cálculo equivocado da quantidade de aço presente na estrutura". "Esses dados foram sendo introduzidos com erros e, a partir daí, foi gerando uma cadeia de erros nos cálculos".

"o erro seria facilmente perceptível por uma análise técnica da memória de cálculo".

"Problemas que vão desde a existência de pequenos erros, passam pela falta de compatibilização (sic) e chegam até mesmo na existência do próprio projeto".

"sinais de que havia algo errado com a estrutura ... foram negligenciados".

 

Recebi, também pelas listas de discussão, um artigo intitulado "Mau Uso de Computadores por Engenheiros Estruturais Um Perigo Real e Imediato" de autoria de Leroy Z. Emkin, Ph.D., P.E.; Fundador e Co-Diretor, Computer Aided Structural Engineering Center; Professor, School of Civil and Environmental Engineering; Georgia Institute of Tecnology.

 

Obviamente esse artigo não tem qualquer relação com a primeira notícia que citei, embora seus conteúdos possam ser facilmente relacionados. Foram eventos isolados no espaço e no tempo.

 

Reparem algumas colocações do artigo:

 

"nós estamos dando muito mais ênfase nas tecnologias automatizadas, e essa exagerada ênfase tem se tornado uma desculpa para o não investimento no “real” aprendizado"

"Embora exista tanta preocupação sobre a qualidade e confiabilidade dos softwares, é chocante observar como muito engenheiros se mostram ingênuos, ignorantes e irresponsáveis em relação a essas preocupações."

"Tanta dependência nos computadores, causarão grandes problemas no futuro, quando cada vez menos engenheiros serão capazes de criar soluções corretas para os problemas da engenharia estrutural independentemente (sem computadores)".

 

Há muitos alertas no artigo sobre o bom e o mau uso do computador na engenharia. O que vale para a engenharia estrutural pode ser transportado para outras "disciplinas" com facilidade.

 

Não é tão difícil garimpar na internet ou nos veículos especializados em Arquitetura e Engenharia diversos outros artigos e matérias jornalísticas com teor na mesma linha dos dois aqui citados.

 

Não somos ingênuos em pensar que problemas com projetos e obras de Arquitetura e Engenharia são exclusividades dos tempos atuais. Sempre existiram e certamente vão existir no futuro. A questão talvez nem seja quantitativa. Temos muito problemas, mas o mais preocupante parece ser o tipo de problema que temos visto. Aqui trouxemos basicamente um caso de problema de cálculo e outro que levanta uma questão relativa a conceito. Mas já vimos textos que discutem os resultados falaciosos na aplicação de recursos de sustentabilidade, por exemplo.

 

Ambos os casos trazem ao fundo uma questão de responsabilidade e ética. Não apenas daqueles que decidem fazer o errado, mas também daqueles que decidem não fazer nada. Pois o problema maior não é cometer um equívoco num cálculo ou numa concepção. O cerne da questão está no relacionamento que desenvolvemos com esse equívoco constatado. Se há um problema de Arquitetura ou Engenharia, cabe a nós, Arquitetos e Engenheiros, levantá-lo e solucioná-lo. Se há um indício, cabe a nós investigá-lo. Se há uma solução, cabe a nós aplicá-la.

 

Não podemos esperar que o cidadão comum venha resolver as questões de nossa área de atuação. Se somos tão vorazes para defender nossas atribuições profissionais, devemos ser igualmente ferozes na luta pelo bom exercício da profissão.

 

Para concluir, deixo duas colocações retiradas também das matérias referenciadas aqui.  Ambas me parecem questionáveis e é isso que as faz importantes. Se vc é Arquiteto ou Engenheiro pode começar refletindo sobre elas até que decida o que vai fazer pelo desenvolvimento da Arquitetura e da Engenharia.

 

"Em outras palavras, um bom programa de computador não faz um bom engenheiro, somente um bom engenheiro deveria usar um bom programa de computador!"

 

"Considero o momento atual como um caos".

 

Estamos refletindo...

 

Abraços

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