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Quem cala não necessariamente consente!

May 5, 2015

Todos conhecemos o ditado que diz que "quem cala consente". Apresento, então, uma frase que coloca isso em cheque: "o silêncio é um texto fácil de ser lido errado" (A. Attanasio). Coloca em cheque porque deixa a dúvida sobre o silêncio e não a certeza da concordância ou do consentimento.

 

 

Obviamente, o primeiro ditado firma-se no fato de que na comunicação entre duas pessoas raramente há um silêncio no seu sentido absoluto. Boa parte da comunicação entre duas pessoas é feita não pela via oral, mas pela via corporal. Isso mesmo, o corpo fala mais que a boca...rs... Por isso, não é raro que nem precisemos nos expressar oralmente para responder a alguma mensagem. Ou seja, a palavra silêncio no primeiro ditado refere-se tão somente ao silêncio oral, já que o corporal é muito difícil de ser obtido, uma vez que nossas reações corporais muitas vezes são inconscientes. Mas nem mesmo assim o silêncio se confunde com uma afirmação. Um simples balançar da cabeça (comunicação corporal) pode transformar o silêncio num sim ou num não explícitos. Outros sinais corporais podem trazer um sim ou um não velado, mesmo que oralmente haja uma informação conflitante. É o que poderíamos chamar de "concordar da boca pra fora" porque mentalmente discordamos, ou vice-versa.

 

Já na segunda frase, o silêncio é revestido por uma aura de dúvida. Talvez essa situação seja mais comum. Chegamos a ficar nervosos com a falta de feedback numa comunicação. Isso é compreensível quando consideramos que raramente ficar na dúvida é nosso objetivo quando iniciamos um processo de comunicação. O descontentamento de não atingir o objetivo de nossa comunicação é evidente. Assim, a interpretação do silêncio da outra parte pode ter muito mais do nosso próprio interesse do que da resposta da parte que não se pronunciou.

 

 

Se o silêncio for entendido como um "vazio de informação", então interpretá-lo é logicamente impossível. Na realidade o que fazemos mental e até inconscientemente é inferir o conteúdo do silêncio com base em outras informações adjacentes a ele. Podemos observar a linguagem corporal momentânea, considerar informações históricas na construção do contexto da comunicação, considerar características conhecidas do interlocutor, etc. Ou seja, no fundo, tentamos atribuir um conteúdo ao silêncio.

 

O silêncio é a falta ou falha de feedback num processo de comunicação e, portanto, nos impede ou dificulta atingir o objetivo do processo. Impede-nos de tornar comum o conhecimento ou as informações trocados na comunicação. Mais que isso, impede que os comportamentos, decisões e atitudes subsequentes à comunicação sejam influenciados por ambas as partes (emissor e receptor), carregando muito mais daquele que se ocupou de dar conteúdo ao silêncio.

 

Ou seja, quando respondemos com algum tipo de silêncio, estamos na realidade deixando que a outra parte complete o processo de comunicação com conteúdo próprio, com suas interpretações e com as informações adjacentes que escolher.

 

 

Quando optamos deliberadamente pelo silêncio, temos, então, responsabilidade parcial pelo resultado da comunicação. Optamos por deixar que nosso silêncio fosse preenchido pela outra parte.

 

Quando o silêncio não é deliberado, ou seja, quando a resposta a uma mensagem não é dada porque houve alguma falha no processo de comunicação que impediu que a feedback chegasse à outra parte, aí sim temos o silêncio na comunicação.

 

A questão recai então sobre a determinação de qual tipo de silêncio temos à frente: o deliberado ou o devido à falha do processo?

 

Atualmente, com todos os meios de comunicações que nos estão disponíveis, é difícil admitir que numa comunicação corriqueira tenhamos o caso de falha do processo. Podemos não ter o retorno em tempo hábil, mas dificilmente as mensagens não chegam ao destinatário.

 

Em qualquer caso, se deliberadamente ou por falha do processo, o fato é que atribuir conteúdo ao silêncio de outrem é uma responsabilidade que uma das partes assume quase que isoladamente. Digo quase porque a outra parte, se opta por um silêncio deliberado, está de certa forma autorizando que o seu silêncio seja preenchido à revelia de sua manifestação. Assim, mesmo não participando da construção do conteúdo para o silêncio, delibera por autorizar essa construção e, então, tem sua parcela de responsabilidade pelo resultado da comunicação ainda assim.

 

 

Portanto, quem cala se esquiva da responsabilidade de agregar conteúdo à comunicação. Como a comunicação pressupõe no mínimo duas partes, a responsabilidade sobre ela é sempre dividida. Silenciar é, então, abrir mão da oportunidade de agregar conteúdo e, mais que isso, abrir mão da influência que poderia exercer sobre a outra parte se atribuísse conteúdo de qualidade à sua resposta.

 

Assim, quem cala não necessariamente consente, mas certamente se esquiva!

 

Abraços

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