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Recursos limitados não podem justificar falha metodológica

April 23, 2015

Conto a seguir uma história e acredito que muitos dos leitores que trabalham com Projetos AEC podem identificar alguma similaridade com sua própria vivência.

 

 

Um empreendedor pretende edificar um prédio para seu negócio. Procura um profissional que lhe foi recomendado e, como é praxe, pretende contratar o desenvolvimento dos Projetos AEC. Este empreendedor, como leigo que é, entende que deve desenvolver o Projeto Arquitetônico a princípio. Muitas vezes é orientado a isso pelos próprios profissionais. O empreendedor, preocupado com o investimento que pretende fazer, alega ter recursos limitados para o serviço de desenvolvimento de projetos. Contrata então, inicialmente, o Projeto Arquitetônico e o quer devidamente aprovado em Prefeitura e Corpo de Bombeiros (alguns empreendimentos exigem aprovações em outros órgãos também). Na mente do empreendedor, obtendo as aprovações, uma boa parte da burocracia está vencida e o trabalho poderá prosseguir com menos entraves posteriormente. Boa parte dos profissionais também tem essa visão.

 

Posteriormente, após a conclusão do tal Projeto Arquitetônico e das aprovações contratadas, o empreendedor precisa negociar o Projeto Estrutural e os de Instalações diversas. Por vezes o faz com o mesmo escritório, mas há casos em que contrata outros profissionais. É comum que priorize o Projeto Estrutural, afinal a obra inicia pela estrutura (é o que dizem...). Ao iniciar os dimensionamentos estruturais percebe-se que são necessários ajustes na Arquitetura para que a obra se adeque ao orçamento viável para o negócio ou mesmo para que sejam solucionadas algumas interferências técnicas. O mesmo ocorre com as instalações. É preciso criar espaços para tubulações, eletrodutos, quadros, equipamentos, etc. Após algum trabalho percebe-se que as modificações necessárias impactam as aprovações feitas preliminarmente e é preciso consultar novamente os órgãos de aprovação. Deixar de reaprová-los pode significar não conseguir licenças de operação posteriormente.

 

Enfim, o tempo aparentemente economizado a princípio retorna ao cronograma do empreendimento. Pior que isso, o custo de revisão e novas aprovações é agregado ao empreendimento (que, lembrem-se, tem recursos limitados). Se o empreendedor der sorte, os custos adicionais são assimiláveis. Mas o tempo não volta, como sabemos; está perdido. Normalmente é relatado ao empreendedor que isto é comum. E de fato o é! Mas ser comum não significa que é necessário! O incomum é aceitarmos tal situação de desperdício como natural.

 

 

Os Projetos AEC, em quaisquer disciplinas técnicas, são desenvolvidos em etapas. Há estudos iniciais e etapas intermediárias até que se chegue às soluções finais. A pergunta a ser feita é: porque avançamos tanto na Arquitetura para apenas depois buscar progresso em outras disciplinas? Ou, do ponto de vista do negócio do empreendedor: porque somos orientados a investir em apenas uma disciplina se é sabido que as demais podem interferir e nos forçar a retroceder posteriormente?

 

É relativamente natural que a concepção arquitetônica das edificações preceda diversas outras disciplinas (digo relativamente porque nem sempre isso é verdade). A questão é coordenar de quanto é essa precedência. Quando você está caminhando ou fazendo Cooper com um colega de trabalho discutindo alguns problemas da empresa, se ele avançar demais na caminhada o diálogo ficará cada vez mais difícil. Vocês não se entenderão. Ou ele pára e te espera (perdendo o ritmo e a produtividade da caminhada) ou ele retorna (tendo que refazer o percurso retornado) Ocorre o mesmo com as disciplinas técnicas do projeto de um empreendimento. Na realidade ocorre até mesmo entre as disciplinas técnicas e as decisões gerenciais.

 

 

A vida de um empreendimento não é particionada como também não é a nossa própria vida. Não se pode tomar decisões em uma área sem considerar com profundidade adequada as demais. Você não decide suas férias sem consultar a família, não programa viagens sem verificar a agenda dos outros, não escolhe o destino sem avaliar interesses dos companheiros, não aceita uma transferência de trabalho sem avaliar sua vida pessoal e da sua família, etc. E estas considerações transversais não são superficiais. Conforme o caso é preciso aprofundar as discussões e análises sob pena de ser necessário retroceder posteriormente. Estes retrocessos sempre lhe custam alguma coisa (stress, dinheiro, tempo, energia, amigos, relacionamentos, etc.).

 

A convivência dessas diversas áreas de nossa vida tem relação com o que entendemos por ética. É o exercício da moral que nos baliza nestas decisões em relação aos outros. Nosso comportamento moral responde pela ética que vivemos para com as demais pessoas. A ética reside exatamente nas deliberações que fazemos ao tomar as decisões que envolvem questões transversais entre as áreas de nossa vida e dos outros.

 

E no caso dos empreendimentos? Será que não nos pautarmos pela observação profícua das relações entre áreas seria um comportamento imoral e, portanto, antiético conforme a expectativa dos nossos pares ou clientes? Talvez isso seja um exagero de julgamento, mas não podemos deixar de observar que tal situação reflete a realidade de muitas práticas profissionais. Nossas metodologias de trabalho passariam incólumes a um rigoroso exame ético?

 

 

Se essa inobservância mais sistêmica nos causa perdas, precisamos refletir sobre o que estamos perdendo ao decidirmos por metodologias que nos dificultam tais análises transversais? Mais que isso, enquanto profissionais devemos refletir sobre o que estamos fazendo nossos clientes perderem em função de nossas metodologias de trabalho.

 

Abraços

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