O Projeto é do Empreendimento!


Hoje mais uma vez me vi lendo trocas de farpas entre arquitetos e engenheiros. A novidade hoje é que li trocas de farpas de engenheiros entre si e de arquitetos entre si. Não sei se rio ou se choro, mas sei que a questão é grave.

Grave não porque muitas destas discussões (senão a maioria) nada mais são do que argumentações estéreis que camuflam recalques ou uma vil disputa de mercado. Vil não porque é má em si, mas porque só prolifera atitudes profissionais socialmente equivocadas (entenda-se aqui o comportamento que todo profissional DEVE à sociedade). Sobre o aspecto dos recalques, dispenso comentários para qualquer lado...rs... (esse sim chega a ser engraçado).

Mas vamos ao que interessa... Enquanto lia, eu fiquei pensando se alguém ali naquelas discussões entendia um empreendimento como um todo e não como um conjunto de partes. Na realidade dediquei mais tempo à leitura na tentativa de encontrar algum depoimento nesse sentido. Lamentavelmente, parei de ler sem encontrar qualquer escrito que desse a entender essa visão.

Pois bem, façamos uma perguntinha básica: alguém já viu um empreendimento implantado sem algum dos seus sistemas? Ou seja, algum empreendimento foi implantado sem estrutura? Ou sem instalações? Ou sem arquitetura? Ora, claro que não! Ele pode até não ter tido projeto, mas foi implantado com tudo o que precisa.

Os prédios são implantados integralmente e é assim que devem ser projetados. Essa história de projeto disso e projeto daquilo é fruto dessa disputa (a origem disso nem é tão antiga se comparada com o tempo que a humanidade constrói coisas). No fundo o projeto é do empreendimento e deve contemplar todos os seus sistemas necessários. E isso é fato! Qualquer projeto de arquitetura, ou de estruturas, ou de instalações, ou de qualquer outro sistema de um empreendimento está inevitavelmente errado a priori (palavra pesada, mas cumpre o objetivo aqui). Não há como avaliar a qualidade do projeto de um dos sistemas do empreendimento sem observar todos os demais. Afinal, todos interagem no mesmo espaço e suas interações vão muito além da ocupação espacial. Isso muitas vezes parece escapar dos profissionais.

Cabe aqui um esclarecimento para maior clareza: quando digo sistemas prediais não estou falando de instalações prediais. Há sistemas estruturais, sistemas espaciais, sistemas de transporte, sistemas de circulação, etc. Num empreendimento tudo é sistêmico de uma forma ou de outra. Esse conceito derruba, inclusive, aquela conversa de projeto complementares. Ora, todos são complementares entre si.

Agora pensemos... Se qualquer projeto disso ou daquilo não pode ter sua qualidade avaliada sem a consideração do todo (todos os demais sistemas juntos), como um profissional pode garantir ao seu cliente que está entregando um bom trabalho? Pode-se argumentar: mas é um bom projeto de instalações elétricas, ou de instalações hidráulicas, ou de arquitetura, ou de estruturas, etc. Mas o seu cliente não vai construir uma arquitetura, ou uma estrutura, ou um conjunto de circuitos, etc.. Ele vai construir um prédio! Ele precisa do projeto de um prédio!

E profissionais têm o "dever da competência"! Isso quer dizer que profissionais têm obrigatoriedade moral e inclusive legal de prestar os serviços seguindo as "regras da arte". Ora, assumir que um empreendimento não é composto por uma série de sistemas é uma demonstração cabal de descumprimento do "dever da competência". Portanto, mesmo que um profissional não lhe entregue o projeto de todos os sistemas do empreendimento, isso não significa que ele não os deva considerar na concepção da sua solução. O trabalho em uma especialidade isolada não muda o prédio, não exime o profissional de considerar todas as demais. Isso está prescrito pelo "dever da competência", pelo dever de pautar-se pelo interesse do cliente que lhe incumbiu (de certa forma delegou) de encontrar as soluções para suas necessidades (do cliente), soluções estas apresentadas sob a forma de um empreendimento.

Há ainda o argumento de que "é só um estudo inicial ou anteprojeto". A resposta é curta e grossa: e daí? Só porque é um estudo para o empreendimento deve-se tratá-lo de forma incompleta? Um estudo só diz respeito ao empreendimento se considerá-lo na sua integralidade. Caso contrário, não se refere ao empreendimento (que é completo), portanto, não está pautado pelo interesse do cliente ou proprietário.

Enfim, concluindo, as discussões à cerca de quem pode ou não assinar como responsável técnico disso ou daquilo é uma discussão relativamente estéril. Na realidade, o ideal seria ter uma única Anotação de Responsabilidade Técnica (CREA) ou Registro de Responsabilidade Técnica (CAU) por todo o empreendimento (ou todo o projeto do empreendimento). Se um profissional não souber responder por todos os sistemas prediais - simultaneamente - sozinho (o que cobre 100% dos casos), então que assine a Responsabilidade Técnica conjuntamente com outros. Assim, não haverá mais projeto disso ou daquilo, mas sim o que o cliente precisa e muitas vezes não sabe expressar (pois é leigo e não tem o "dever da competência" nessa área), o PROJETO DO EMPREENDIMENTO.

Aliás, é exatamente por ser o cliente leigo que todo projeto começa com um Levantamento de Informações... Mas isso é assunto pra outro post...

Abraços

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