Sabedoria, esteio da resiliência

Já passou por aquela experiência de ver alguém fazendo algo que você sabe que vai dar errado porque já tentou também? Ou ainda, ver alguém fazendo algo de alto risco, por pura estupidez, e que a chance de dar errado (no linguajar popular diríamos dar outra coisa) é alta? E quando a situação é com alguém que você gosta parece que a sensação é mais intensa. Talvez você associe a sensação desses momentos com angústia. Um aperto, um sufoco, quase um sofrimento.


E quando acontece o dano vem aquela sensação de “eu já sabia”.


Pois é, começa aí a percepção de que sabedoria e sofrimento são meio vizinhos. Quem sabe de alguma coisa, por experiência ou por conhecimento, quando presencia algo que vai dar errado segundo esse saber, sofre antecipadamente. Pode-se dizer, angustia (sem acento, do verbo angustiar). Conforme a gravidade, pode ser um sofrimento quase vizinho já do desespero.


É assim quando uma criança está prestes a pôr o dedo na tomada. Ou quando o pão com manteiga cai da mesa (mesmo que metade das chances sejam menos infelizes, sempre pensamos na metade em que a manteiga cai virada pro chão). Também é quando vemos um carro vazio se movendo porque deixaram o freio de mão baixado. Ou quando vemos um carro prestes a passar numa poça d’água e estamos bem no passeio ao lado.


Acontece também em situações um pouco mais complexas. Quando um aluno inicia a resolução de um problema por um caminho que não pode dar certo. Quando um colega tenta executar uma tarefa com recursos que não são tão apropriados. Quando seu filho começa a cozinhar e não sabe a sequência certa para adicionar os ingredientes. Enfim, há muitos exemplos possíveis, dos mais simples aos mais complexos. Nesses últimos, quase sempre é possível intervir e aproveitar a situação para ajudar, eliminando o risco do erro que nos angustia. Eliminamos nosso sofrimento imediato e salvamos o outro do sofrimento posterior de ver constrangida sua intenção. Normalmente, após a ajuda que prestamos, a nova sensação inclui alívio.


Pois bem, agora imagine você que a questão é bem mais complexa. Digamos, seu time adotando uma estratégia de jogo que você tem convicção de que não funciona, mas, como jogador, precisa participar. Ou ainda, seu gerente tomando uma decisão que você acredita piamente que vai dar errado, mas tem dificuldade de falar com ele, ou de explicar o que pensa. Ou seus pais lhe impondo um castigo que você sabe que não merecia, mas é obrigado a acatar.


Nessas últimas situações, ou você não tem como intervir, ou não consegue intervir mesmo tentando, ainda que tenha consciência do que está errado (pelo menos com base no que você sabe). Aqui não há alívio e é preciso enfrentar a angústia, o sofrimento. E repare que o que te faz sofrer não a estratégia do time, nem a decisão do gerente, nem o castigo. A dor vem do fato de você saber algo que lhe dá uma visão diferente dos acontecimentos. Independentemente de você estar certo ou errado, você sofre pelo que sabe. Até o castigo dói menos quando se sabe que é merecido. Nesse caso específico, há resignação. Mas nos anteriores, você precisa de resiliência.


Resiliência é a capacidade de sofrer, mas não esmorecer. E, conforme o exposto, dá para perceber que quanto mais você souber, mais situações encontrará que possam lhe causar aquela angústia, aquele sofrimento. Se você não souber que tomadas dão choque, talvez até ache bonitinho a criança curiosa com o furo da tomada. Então, como diria uma frase já atribuída a muita gente: “quem sabe mais, sofre mais”.


Isso já é conhecido há um bom tempo, veja: “quanto maior a sabedoria, maior o sofrimento; e quanto maior o conhecimento, maior o desgosto.” (Eclesiastes 1:18, Bíblia).



E como não sofrer? É simples, deixe de gostar das pessoas! Não se importe com a criança, nem com seu time, nem com seu chefe ou seus colegas de trabalho que não atingirão as metas. Não se importe nem consigo mesmo ao ficar de castigo, muito menos com a dor dos seus pais quando descobrirem que o castigo foi indevido.


Você acha que isso é possível?


Uma alternativa para não sofrer é não saber de nada. Viver sem pensar no que acontece, sem se lembrar das experiências vividas, sem estudar, sem se informar.

E isso, você acha que é possível?


Pois bem, você sabe que nenhuma opção é viável, então não resta alternativa a não ser sofrer e ser resiliente. E saiba que quanto mais se sabe, mais se sofre. Busque sabedoria que lhe permita ser mais resiliente. Aprenda a abrandar o sofrimento do saber.


Aliás, use sua sabedoria para amenizar as perdas e sofrimentos daqueles que não estão sofrendo agora, mas sofrerão no futuro quando tudo der errado e você sabe disso. Isso, talvez, lhe dê algum alento por pelo menos ter consciência de que está preparando a retomada após a frustração geral.


Aliás, é bem provável que a frustração seja mais sua do que dos que não sabem, pois estes concluirão que a tentativa foi boa, mas infrutífera. Aprenderão com o erro. Apenas você, que já sabia, sofrerá no processo. Os demais, sofrerão apenas no final. Mas, se você já estiver preparando soluções, o sofrimento deles será ainda menor. E não se espante se ainda assim não te escutarem, afinal suas soluções amenizadoras de sofrimento impediram que eles percebessem a gravidade do erro cometido.


Que sabedoria é essa que nos proporciona as condições de suportar o conflito interno de assistir as coisas indo pelo caminho errado, mas permanecer firmes (resilientes)? As alternativas citadas acima já dão uma dica.


Primeiro é a sabedoria de compreender as pessoas, ainda que elas façam o que você não concorda. Elas têm suas motivações, com base na própria bagagem. Estivesse você no lugar delas, com a mesma bagagem, talvez tomasse as mesmas decisões. Se elas tomam caminhos diferentes do seu, não significa que te afrontam, apenas são outras pessoas, com outras bagagens, outras estratégias, outras visões, outros valores. Essas diferenças deflagram conflitos interpessoais apenas para aqueles que não têm consciência delas. Os que têm, enxergam os fatos, mas são capazes de buscar um entendimento deles. E isso ameniza o sofrimento, nos permite a resiliência. Não significa que as coisas mudarão, pois só mudam com a ação. Mas significa que boa parte do sofrimento que você tem, com toda sua bagagem, está associada à bagagem que você não tem. Já diz outra célebre frase: “o sábio sabe o que ignora”, de Victor Hugo.


Talvez agora você esteja percebendo que o sofrimento é parte do aprendizado pela experiência. Inclusive, aprender sobre a nossa ignorância.


A outra forma de aprender é pelo conhecimento, mas este dá mais trabalho e toma tempo. Hoje em dia valorizam o errar mais rápido para aprender mais rápido. Mas, atenção, pelo erro se aprende o que não funciona, pelo conhecimento, o que funciona. São caminhos diferentes. Mas entendo a preferência geral por errar, há sempre alguém com sabedoria para amenizar as consequências. No mundo corporativo, costumamos chamá-los de consultores; na vida pessoal, de amigos. Mas nem sempre os temos por perto...


Isso nos leva a um outro fardo da sabedoria, a noção de responsabilidade pelos outros. Para ser sábio é preciso amar. É nisso que se sustenta a resiliência. Suporta-se a dor porque se assume a responsabilidade de cuidar das pessoas. Não fosse isso, talvez o mundo já tivesse explodido. Mas, claro, amor ágape é um tema que merece um texto à parte. Quem sabe noutra ocasião!


Por ora, deixo-o refletindo sobre as diferenças entre a sua bagagem e as dos outros. Não a diferença do que se sabe, mas a diferença do que se ignora. Essa é a sabedoria socrática, que nos faz dar ouvido a alguém em busca de entendimento. O conhecimento que produz conflito não é sabedoria resiliente, pelo contrário, é arrogante e só aumenta o sofrimento.

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