A unidade dos contrários: complexo, não?

Atualizado: 6 de fev.

É sabedoria já popular que quando se toma uma decisão deixa-se de tomar uma infinidade de outras decisões possíveis. Ao escolher um caminho, deixa-se de percorrer todos os demais que possam existir.


Parece óbvio, certo? E é mesmo! Mas entre repetir frases célebres buscadas na internet e se apropriar da sabedora delas para conduzir a vida há uma enorme diferença.


E só para provocar o leitor, deixo aqui uma frase dessas prontas: “conhecimento não é aquilo que você sabe, mas aqui que você faz com aquilo que você sabe” (Aldous Huxley).


E agora a pergunta: você, quando decide algo, analisa todas as outras decisões possíveis? Mais que isso, você tem consciência de todas as qualidades que sua decisão não tem? Afinal, é claro que não há decisão que carregue consigo todas as qualidades, nem todos os defeitos. E por falar nisso, você tem consciência dos defeitos das suas decisões?



Se, ao optar por algo, você não se cerca de recursos para tentar compensar as qualidades que a decisão não tem e para reduzir os impactos dos defeitos que a decisão tem, lamento, você não decidiu com bom conhecimento. Mas não desanime, isso é mais normal do que se pode imaginar. Aliás, parece mesmo ser o normal nos dias de hoje, em que se prega que devemos “errar rápido para aprender rápido” (que sabe num outro texto eu comente essa pérola da “sabedoria líquida” da sociedade contemporânea). Talvez seja oportuno lembrar que Heráclito (540 A.C. a 470 A.C.) já anunciava a unidade dos contrários. Isso mesmo, essa sabedoria já não é novidade há pelo menos uns 2.500 anos. Mas, surpreendentemente, o ser humano, sobretudo os que tem algo a dizer (nem que seja nas redes sociais), raramente pensam naquilo que não decidiram e focam apenas nas opções que tomaram como se as demais, as que não foram tomadas, sequer existissem. Porém, elas coexistem. Mais que isso, são uma unidade, não se desvinculam. A não-decisão é tomada no mesmo instante em que se toma a decisão. Entre três opções, escolher uma e não escolher as outras duas é essencialmente a mesma decisão. Se precisar de exemplos eu te convido a pensar numa decisão que você tomou nos últimos 30 minutos. Pode ser o lanche que você escolheu, o funcionário que você selecionou, a carteira de investimentos que você escolheu, o trajeto no trânsito que você tomou, qualquer coisa. Pense em alguma situação simples para facilitar. Agora pense nas demais possibilidades que você tinha. Pense nas qualidades que elas tinham. E não seja sofista! Não se engane tentando defender sua opção, esse não é o objetivo. Por melhor que ela tenha sido, ela trouxe defeitos e abandonou as qualidades das outras possibilidades. Você pode se iludir pensando que ganhou, mas para ganhar algo, sempre deixamos de ganhar as outras coisas. Toda criança já fez bico cobiçando o presente do coleguinha, mesmo tendo o seu próprio na mão. Dada a ideia da unidade dos contrários, pensemos como ela ocorre no meio corporativo. Não é difícil e talvez o leitor já tenha pensado em vários exemplos só de ler essas linhas. Como consultor, percebo corriqueiramente que as pessoas tomam decisões e se agarram a ela por motivos diversos, mesmo que alguém lhe mostre que há caminhos melhores. Como empregado você já pode ter pensado em tomar uma decisão diferente da do seu superior e pensou: ele perdeu a oportunidade de explorar essa ou aquela vantagem. Numa aquisição você já optou por um fornecedor e depois se arrependeu pensando: o outro talvez fizesse melhor, embora fosse um pouco mais caro. Ao admitir o home office na sua empresa, percebeu que seus mecanismos de controle precisavam mudar porque as coisas pareciam soltas. Alguns tiveram bons resultados, outros tiveram queda na produtividade. Mas em qualquer dessas situações e em outras tantas possíveis, uma decisão foi tomada. Talvez o que não tenha sido feito tenha sido um ou ambas das ações abaixo: 1- Ponderar os defeitos da decisão tomada e não apenas as qualidades. 2- Ponderar as qualidades das demais decisões não tomadas. O que muda em fazer isso e porque não é feito? Muda porque ao pensar nestas duas situações acabamos reconsiderando alternativas e criando variações na tentativa de precaver dos defeitos e de encampar outras qualidades. Na prática, otimizamos a decisão tomada (quando não á mudamos mesmo). Aliás, isso está alinhado com o que se faz na gestão de riscos e, portanto, não é uma questão apenas comportamental, trata-se de profissionalismo em muitos casos. Não é feito por vários motivos. Posso lembrar alguns: 1- Não se conhece mesmo alternativas. E a questão aqui é que elas sempre existem e aquela história de que não tinha alternativa quase sempre é conversa para boi dormir. 2- Focou-se nos resultados imediatos ou num procedimento já conhecido, não dedicando esforço de análise às alternativas. É claro que isso pode ser reflexo da falta de tempo para tomar uma boa decisão, mas acredite em mim quando digo que em muitos casos é preguiça e imediatismo mesmo. 3- Não se tem mesmo a intenção de tomar boas decisões, mas apenas escolher uma alternativa para preencher tabela. No mundo corporativo isso beira à irresponsabilidade. Feitas as provocações, resta uma ideia final, também do pensamento de Heráclito (para ficarmos apenas com ele hoje). O desenvolvimento, a fluidez do mundo, decorre da tensão existente entre os contrários. O mundo não para exatamente porque os contrários sempre coexistem. Essa coexistência é que promove a mudança das coisas entre dois instantes. Dizia Heráclito: “nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tão pouco o homem”. Essa ideia tem por premissa a unidade dos contrários. Então, se pretendemos o desenvolvimento, a mudança, a fluidez, somente obteremos a melhor decisão se conseguirmos apropriar a percepção dos contrários como unidade. Pensar numa decisão isoladamente nega o contrário dela e, portanto, é uma visão pobre do mundo, no mínimo bastante limitada. Esse caminho nos conduzirá ao pensamento complexo e sistêmico tanto proclamado na contemporaneidade. Mas essa já é outra análise e deixo uma última provocação: qual é o par contrário do pensamento complexo? Se não usamos o pensamento complexo, usamos qual então?

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