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Os sócios: Parte 1 – Quem são?

Atualizado: 7 de mai.

As palavras vão se ajeitando com o tempo conforme a conveniência dos usuários e seus costumes. Não é incomum que algumas comecem a ser entendidas muito mais pelo significado secundário que pelo da sua origem. Mas o significado secundário, em geral, não é substitutivo, mas cumulativo. Ou seja, a palavra não perde seu significado original, apenas ganha um novo.


Os exemplos caricatos são as gírias que, às vezes, possuem significados extremamente estranhos ao original das palavras. Mas caem no uso comum. Um problema neste processo é que, na falta de outra palavra para o secundário, o significado original perde sua potência de expressão.


A dificuldade de expressão, leva à dificuldade de entendimento e esta, à ignorância inconsciente. Por ser inconsciente, é comum também que o entendimento secundário (o que deriva dos significados secundários) comece a ser percebido equivocadamente como principal.


Assim a linguagem muda e o esclarecimento padece no cidadão médio que fica limitado às conveniências e interesses instaurados por um ou outro grupo instituidor de significados secundários.


No meio empresarial a palavra sócio é usada para designar os proprietários de uma empresa. Mas sua origem é bem mais genérica que isso. Sócio e sociedade derivam da mesma raiz, socius, que significa companheiro ou seguidor. Por isso, o termo sócio serve para os constituidores de uma empresa, ou os frequentadores de um clube “social” (que, não raramente, é tem denominação oficial de associação).



Outro termo interessante neste contexto é lucro, que deriva de lucrum, que significa ganho, vantagem, Veja que não há qualquer conotação financeira nisso. Ela veio bem depois.


De fato, a vantagem de se caminhar junto tem a ver com a maior chance de êxito. Paradoxalmente, êxito (exitus) significa sair, retirada. A expressão “lograr êxito” vem da junção das ideias de lucrus com exitus, ou seja, o ganho de uma sociedade é sair dela, após cumprir o objetivo.


Pense: se há uma sociedade para chegar a um objetivo, ao atingi-lo ela se torna desnecessária, já cumpriu sua função. Repare também que é comum que os sócios de uma empresa façam uma retirada (financeira) na forma de lucro. Isso contribui para a significado secundário (e distorcido) de que a sociedade (empresarial) existe para gerar lucro. Ela existe para chegar ao objetivo, que, aliás, é definido como objetivo social no contato social que institui a empresa. O aspecto financeiro de uma sociedade não existia na origem, mas passou a ser uma condição existencial.


Observe que a principal modalidade de sociedade empresarial é a de cotas limitadas de responsabilidade (as tradicionais ltda.). Não são cotas de lucro, mas de responsabilidade. Cada sócio tem parte da responsabilidade na caminhada rumo ao objetivo social.


As sociedades e os sócios sempre existiram nos agrupamentos humanos. Antes mesmo do sistema capitalista já havia sociedades, com seus sócios e objetivos comuns, que normalmente eram objetivos de uso. Os primórdios do capitalismo formalizaram a troca como objetivo e daí evoluiu para o que conhecemos hoje. Aliás, hoje temos uma distorção de entendimento na qual a uso virou meio e o objetivo é o ganho financeiro. É estranho e espantoso pensar que o ser humano hoje trabalha muito mais para ganhar dinheiro do que para cumprir sua função na coletividade (função que passou a ser meio para o ganho financeiro).


Nesse ponto voltamos ao início, quando falamos que as sociedades são grupos unidos que seguem rumo a um objetivo. Os sócios têm cotas de responsabilidade nessa odisseia. Essa cota de responsabilidade não é simplesmente convencionada. A contribuição de cada sócio no sentido de atingir o objetivo é que define moralmente o tamanho da sua cota. E não há como negar que há sócios que apenas seguem o grupo, não assumindo efetivamente qualquer responsabilidade a não ser caminhar.


O sócio que apenas caminha executa o mínimo necessário para que o grupo (sociedade) siga em frente. Atualmente damos a ele a denominação bem apropriada de colaborador (e de fato ele labora junto, co-labora). Caminhar, neste aspecto, é meramente se manter no grupo. Lamentavelmente, as vezes se mantêm no grupo não por reconhecer o destino para o qual caminham, mas apenas para sobreviver. Apenas vão em frente, sem importar muito pra onde.


Mas há os sócios que fazem um pouco mais enquanto caminham. Por exemplo, orientam os que caminham sem se preocuparem para onde estão indo (apenas confiando nas orientações). Esses costumamos chamar de gestores (gerere em latim pode ter o sentido de “portar sobre si”, carregar, assumir um encargo).


Uma classe especial de sócios é a que decide o caminho a ser feito e, portanto, dão direção à caminhada. São, claro, os diretores. Conhecedores e estudiosos do ambiente, são capazes de encontrar os bons caminhos que levam ao destino pretendido.


Por fim, há um grupo de sócios que organiza a sociedade (o agrupamento todo) desde o ponto de partida até a chegada. E, como sabemos, um grupo de seres humanos não é um grupo simples e comportado. Esta última classe de sócios precisa construir e manter a estrutura da sociedade na qual diretores, gestores e colaboradores caminham. Estabelecem os grupos menores, identificam os sócios gestores e diretores, projetam os recursos a disponibilizar, os resultados a serem obtidos para a sociedade, etc.


Imagine que a sociedade (empresarial) é uma multidão atravessando um longo caminho cheio de situações e desafios. Diretores definem por onde passar, gestores orientam os pequenos grupos na sua caminhada, colaboradores caminham bem ritmados.



Todos vão em frente, eventualmente acelerando, retardando, desviando. Os sócios que estruturam a sociedade, definem a partida e a chegada, percorrem toda a multidão, indo à frente e retornando várias vezes, verificando as formações, as estruturas, o desempenho. Caminham bem mais que os demais, porque fazem o percurso várias vezes em ambos os sentidos e antevendo todas as situações e soluções pertinentes.


A este grupo continuamos chamando de sócios, apesar de termos criado contemporaneamente variações deles com os desvios de significados secundários tendenciosos para o lucro e pelo esquecimento da priorização que merece o objetivo social. Na verdade, a grande vantagem ou ganho (lucrum) que este grupo recebe é a realização de ter levado a multidão (empresa) a um lugar melhor.


Se os sócios estruturadores não cumprem seu papel, a multidão deserta. Afinal, para liderar e merecer os ganhos da função, além da capacidade de estruturar e do esforço de manter, é preciso ter e comunicar a visão do caminho e do futuro. A multidão segue enquanto acredita nela.


Ah, o dinheiro? Está em parte nas pequenas parcelas em etapas ao longo do caminho. A parcela grande está no êxito, a saída, para quem se mantiver caminhando e nas funções que merecer. O grande prêmio não decorre da caminhada (que é dever mínimo de todos), mas do esforço adicional de bem conduzir a sociedade, pois, sem ele, ela sucumbe em caos bem antes da chegada.

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